ARTIGO

O legado quase desconhecido de Carl Gustav Jung à Ufologia

Por João Oliveira | Edição 207 | 01 de Janeiro de 2014

Quem diria, o grande psicólogo e pensador também era um defensor da realidade ufológica
Créditos: International Psychology Society

O legado quase desconhecido de Carl Gustav Jung à Ufologia

Pouca gente sabe, mas um dos maiores psiquiatras da história, Carl Gustav Jung, interessou-se — e muito — pela questão ufológica. Tanto que publicou, em 1958, um livro que causaria imensa polêmica na época: Um Mito Moderno sobre Coisas Vistas no Céu [Editora Vozes, 1958]. Jung sabia que estaria se expondo ao manifestar-se sobre um tema ainda considerado tabu nos anos 50, mas ainda assim o fez. “Estou ciente do risco que corro ao empreender a tarefa de expressar minha opinião sobre certos acontecimentos contemporâneos. Trato aqui daquele boato sobre corpos redondos que percorrem nossa troposfera e estratosfera, chamados discos voadores, UFOs e OVNIs”, escreveu.

O psiquiatra mexeu em um vespeiro justamente quando raros membros da comunidade científica mundial se esquivavam de comentar o assunto. Mas tal pioneirismo é parte da história de Jung, que se consagrou por ter ideias revolucionárias e impactantes, sem temer reações opostas a elas. Com a Ufologia, que ele acompanhava atento, não haveria de ser diferente. Os UFOs já eram notícia corriqueira em jornais de todo o mundo em sua época. Vários livros e publicações circulavam com teorias variadas sobre sua natureza e funcionamento, e a curiosidade do público já era grande sobre o tema. O psiquiatra se manifestou de maneira clara quanto ao assunto e ainda no prefácio de sua obra escreveu: “Como psicólogo, não disponho de recursos que contribuam para a solução do problema sobre a realidade física dos UFOs. Por isso, incumbo-me somente de seus aspectos psíquicos, que, sem dúvida existem, dedicando-me a seguir quase que exclusivamente os fenômenos psíquicos concomitantes”.

Influência religiosa

Jung nasceu em 26 de julho de 1875, no vilarejo de Kesswil, Suíça. Era o filho mais velho e o único a sobreviver de um pastor protestante. Ele tinha mais oito tios também pastores, fazendo com que seu contato com a religião influenciasse profundamente seu trabalho. Jung foi um dos maiores psiquiatras do mundo. Fundador da escola analítica de psicologia, introduziu termos como extroversão, introversão e inconsciente coletivo, ampliando as visões psicanalíticas de Freud e interpretando distúrbios mentais e emocionais como uma tentativa do indivíduo de buscar a perfeição pessoal e espiritual. Suas obras completas constam de 20 volumes, mas nem todos estão traduzidos e disponíveis no Brasil. Além deles, existem volumes complementares e correspondentes a seminários proferidos por Jung, infelizmente também ainda sem versão em português.

Jung acompanhava de perto o trabalho pioneiro que Freud fazia à época, como ardoroso seguidor de seus conceitos, que depois viria reformular. Em 1905, tornou-se professor de psiquiatria da Universidade de Zurique, na mesma época em que ocupava o cargo de médico em uma clínica local. Jung iniciou sua pesquisa na área visando o estudo das reações da psiquê de pacientes mentais. Rapidamente seus estudos lhe conferiram reconhecimento mundial. Publicou inúmeros trabalhos que foram traduzidos para vários idiomas, e em um de seus primeiros livros, A Psicologia da Demência Precoce, apoiou algumas das teorias de Freud. Com ele Jung mantinha uma amizade profissional e pessoal que durou cerca de seis anos. Freud via seu sucessor no jovem psiquiatra, a pessoa que daria continuidade às suas ideias, tendo, inclusive, chamando-o de filho em uma carta.

Em 1912, por insistência de Freud, Jung tornou-se presidente da Sociedade Psicanalítica Internacional. Mas, apesar da amizade, o psiquiatra não adotou várias das teorias de seu patrono — especialmente a de que os problemas sexuais são a base para todas as neuroses ou a visão de Freud do complexo de Édipo.Jung tinha sua própria linha de pensamento, tanto que, em 1914, devido a divergências de opiniões, a amizade entre os dois foi quebrada. Jung desistiu da presidência da sociedade e fundou um movimento chamado psicologia analítica. Durante as décadas seguintes, desenvolveu suas teorias baseando-se na mitologia, história, em viagens que empreendeu e em suas próprias fantasias e sonhos de infância. Em longas jornadas ao Quênia, Tunísia, Deserto do Saara, Novo México e Índia, Jung estudou diferentes culturas e seus povos. Nessas viagens, formulou sua teoria do inconsciente coletivo, desenvolvendo uma distinção entre este e o inconsciente pessoal. Foi em meio a essa imensa atividade que se interessou e passou a acompanhar a questão dos UFOs.

Uma incerteza em todos nós

No primeiro capítulo de Um Mito Moderno sobre Coisas Vistas no Céu, Jung destaca o fato de que o Fenômeno UFO ainda era encarado como boato pela população e autoridades, mas que deveria ser visto com mais seriedade. Ele dá alguns exemplos de fatos marcantes na história humana relacionados aos UFOs. “Chamo estes casos, relativamente raros, de ‘boatos visionários’. Eles se parecem muito com visões coletivas, como a dos cruzados no cerco a Jerusalém, a dos lutadores de Mons na Primeira Guerra Mundial, a das multidões de fiéis que acorreram a Fátima no início do século e a das tropas de fronteira da Suíça na Segunda Guerra Mundial”. Sobre essas ocorrências, Jung usa um provérbio alemão — “Pela boca de duas testemunhas revela-se toda a verdade” — para explicar a natureza dos casos. Para ele, tais fatos podem ser estatisticamente verdadeiros. Mas, em certas situações, podem não corresponder à realidade e criam uma incerteza em todos nós.

crédito: UFO PHOTO ARCHIVES
Jung defendeu desde o início da manifestação do fenômeno que os discos voadores eram inteligentemente controlados
Jung defendeu desde o início da manifestação do fenômeno que os discos voadores eram inteligentemente controlados

A chamada Era Moderna dos Discos Voadores estava apenas começando quando nasceu seu interesse pelo tema. “Talvez esses casos ocorram com maior frequência do que estou disposto a admitir, já que geralmente a gente não verifica as coisas que vê com os próprios olhos”. Tal colocação tem ênfase na expressão “com os próprios olhos”, típica de Jung e que atribui ao fenômeno a condição inerente de aceitabilidade comum aos seres humanos, que é o fato de ver para crer. Segundo o psiquiatra, para o ser humano basta ver algo para acreditar que exista. Baseado nisso, conforme sua interpretação, poderíamos estar vivendo uma alucinação, constante ou não, sem afetar a normalidade de nossa vida no dia a dia. Talvez daí venha o título de seu livro, referindo-se aos UFOs como uma espécie de mito moderno.

A tradução de sua obra se refere a casos de avistamentos de UFOs sempre usando o termo “boatos”. Isso não tem uma conotação pejorativa, como podem entender os leitores. É apenas uma adaptação da maneira como o psiquiatra escrevia seus trabalhos com os termos à disposição no vocabulário brasileiro na época. Assim é que Jung informa em sua obra que “os boatos dão conta de que os UFOs são geralmente lenticulares, oblongos ou em forma de charuto, com iluminação em cores variadas ou brilho metálico. Que seus movimentos têm um alcance desde a parada total até a velocidade de 15.000 km/h, e que, em certos casos, tal aceleração seria fatal ao ser humano, se estivesse dirigindo o aparelho. A trajetória dos UFOs descreve ângulos que só seriam possíveis a um objeto isento de força gravitacional”. Como se vê, o psiquiatra se mostra bem informado sobre as manobras das naves que já eram vistas no céu.

Ufonautas na década de 50

Jung já tinha conhecimento de que os UFOs se apresentavam de várias formas e com muitos tamanhos, pois acompanhava o registro de manifestações em todo o mundo. E acrescentava que “eles tinham uma preferência especial para sobrevoar os Estados Unidos”. Outro boato que confirmou em sua obra diz respeito às naves-mãe. Jung afirmou que era delas que saíam os pequenos UFOs, ou que era nelas que buscavam proteção. “Os boatos dizem também que os tripulantes dessas naves têm tamanho aproximado de um metro de altura e são parecidos com o ser humano. Ou, ao contrário, totalmente diferentes dele”. Pode parecer incrível, mas é verdade que um cientista comportamental do porte de Jung tratava de ufonautas já na década de 50.

Sobre a natureza dos boatos visionários representados pelos UFOs, Jung acreditava que poderiam estar sendo causados por circunstâncias externas, mas que sua existência se baseava essencialmente em um fundamento emocional presente em todo lugar. Poderia ser uma situação psicológica geral, uma tensão emocional com origem em uma situação de calamidade coletiva, uma necessidade psíquica vital etc. Ele explicava, então, o momento histórico no qual estava inserido o Fenômeno UFO, alertando para o fato de que contribuíam para o surgimento dos boatos “a pressão da política russa e suas consequências ainda incalculáveis, que assolam o mundo inteiro”.

crédito: Jamil Vila Nova
Apesar de suas crescentes incursões na problemática ufológica, Jung evitou tocar no ainda (para a época) complicado tema dos tripulantes
Apesar de suas crescentes incursões na problemática ufológica, Jung evitou tocar no ainda (para a época) complicado tema dos tripulantes

O psiquiatra era um forte defensor da interpretação dos sonhos e julgava que os componentes de um boato, segundo sua definição, estariam sujeitos aos mesmos princípios. E assim começou sua tentativa de explicar o significado dos UFOs justamente interpretando seu formato. Sendo um disco ou uma esfera, tal objeto seria uma mandala, o símbolo da totalidade. “A mandala descreve a totalidade psíquica protegendo de dentro para fora e procurando unir opostos internos. Paralelamente, é declarada símbolo de individualização”, diz Jung em sua obra. “Em nossa esfera cultural, é como imagem de Deus: um círculo cujo centro está em todo lugar e cuja circunferência, porém, não está em lugar algum. Deus e sua omniscientia, omnipotentia e omnipraesentia, é o símbolo da totalidade por excelência, um redondo completo e absoluto”.

“Nas melhores cabeças”

Jung se aprofundou em suas considerações combinando e confrontando a ideia dos boatos ufológicos aos símbolos do ser humano. Em dados momentos, fez reflexões mais materiais sobre a questão, quando, por exemplo, examinou a natureza do Fenômeno UFO e revelou o constrangimento com que teve que voltar atrás em sua certeza de que um objeto mais pesado que o ar não poderia voar. “Esta minha convicção seria corrigida de forma bastante vergonhosa. Se por um lado a aparente natureza física dos UFOs também deixa questionamentos nas melhores cabeças, por outro forma-se a seu respeito uma lenda tão impressionante que a pessoa se sente tentada a avaliá-la como um produto psíquico, e a subordiná-la da mesma forma que uma interpretação psicológica tradicional”.

Jung dedicou um capítulo para tratar dos relatos clínicos de pessoas que sonharam com UFOs — nesse instante, temporariamente, deixou de lado o aspecto físico das aparições e teceu uma série de ponderações em seus comentários sobre os objetos que foram sonhados por seus pacientes ou os de seus colegas. “O arquétipo possui, ao mesmo tempo, além do seu modo formal de aparecimento, também uma qualidade numinosa, um valor sentimental que tem um efeito altamente prático”, escreveu o estudioso referindo-se ao que o teólogo e filósofo alemão Rudolf Otto descreveu como “um sentimento único vivido na experiência religiosa”.

Jung tinha conhecimento de que os UFOs se apresentavam de várias formas e com muitos tamanhos, pois acompanhava o registro de manifestações em todo o mundo. E acrescentava que eles tinham uma preferência especial para sobrevoar os Estados Unidos

Numinosa é uma experiência de conteúdo sagrado, em que se confundem fascinação, terror e aniquilamento. Para Jung, os UFOs tinham algo dessa característica. “É claro que se pode estar inconsciente deste valor, reprimindo-o artificialmente. Mas uma repressão tem consequências neurotizantes, de modo que o afeto, que, apesar de tudo, continua existindo, simplesmente força sua saída por outro caminho, por um lugar impróprio, como estamos cansados de saber”, descreveu.


Para Jung, assim como a fome física seria saciada ao se ver uma maravilhosa refeição, pelo menos figurativamente, também a fome da alma seria satisfeita ao se olhar quadros numinosos. Nesse ponto de suas considerações em Um Mito Moderno sobre Coisas Vistas no Céu, Jung falou então sobre sua incompreensão de como uma alma pudesse passar fome com tantas religiões à disposição. “O que evidentemente ainda nos falta é o verdadeiro acontecimento, a experiência imediata da realidade espiritual, não importando a forma como se apresente”. Mais à frente, na obra, fez uma afirmação contundente: “Com exceção da preocupação religiosa, nada desafia o homem moderno de forma mais consciente e pessoal do que a sexualidade”. O autor usou essa conclusão para atribuir uma inusitada conotação erótica aos UFOs: “O aspecto sexual do Fenômeno UFO merece nossa atenção, pois indica que um instinto tão poderoso como o da sexualidade participa da estrutura de sua manifestação”.

UFOs materiais

Para o psiquiatra, não seria por acaso que em sonhos apareceriam símbolos femininos e masculinos, de acordo com os relatos de avistamentos de UFOs, respectivamente representados em descrições de naves em forma de lente e de charuto. “Onde aparece um, é de se esperar que apareça o outro que lhe corresponde”. E concluiu seu raciocínio a respeito do Fenômeno UFO em sonhos informando que a mensagem que tais objetos trariam aos que com eles sonham é um problema de época, individual. “Os sinais no céu aparecem para que cada um veja. Eles advertem todos nós, individualmente, sobre nossa alma e totalidade, porque esta deveria ser a resposta que o Ocidente precisa dar ao perigo de massificação”, encerrou o tópico, um tanto enigmático.

Jung também se dedicou a analisar três quadros artísticos onde o Fenômeno UFO aparece graficamente registrado. “Desde o começo dos tempos, os relatos sobre UFOs me interessaram como um possível boato simbólico. Mas foi desde 1947 que passei a colecionar todas as publicações que me foi possível adquirir, pois nelas as formas dos UFOs pareciam coincidir de maneira impressionante com o símbolo da mandala”. Sobre isso, Jung publicou em 1927, em conjunto com Richard Wilhelm, o livro O Segredo da Flor de Ouro [Editora Vozes, 1984]. A materialidade dos UFOs passou a ser a preocupação do psiquiatra, tanto que firmava que “às testemunhas oculares e aos peritos em radar deve-se conceder, com prazer, o benefício da dúvida”. Mas advertiu que deveríamos estar sempre alerta para o fato de que existe semelhança entre as observações de UFOs e certas condições psicológicas e psíquicas, que não devem ser ignoradas no julgamento e na avaliação das observações.

Jung não pretendeu em sua obra solucionar o Fenômeno UFO. Até porque, ele mesmo se deu o direito da dúvida quando não conseguiu explicação plausível para os bips em radares aeronáuticos causados pelas manifestações dos objetos. Mas ao analisar a ação dos UFOs através da história, principalmente com o estudo das pinturas a que teve acesso, deixou claro, mais uma vez, a materialidade dos objetos. O estudioso tinha conhecimento de que a fenomenologia ufológica, embora tenha se intensificado e ganhado maior publicidade no final da Segunda Guerra Mundial, com os foo fighters [Lutadores fantasmas], tinha uma origem muito mais remota. “Já na Antiguidade tais fatos foram observados e registrados. Na literatura sobre o assunto há compilações dos mais variados relatórios do gênero, que precisam de uma abordagem crítica”.

Natureza física do fenômeno

Ele se referiu especialmente à representação gráfica de fatos inusitados que ocorreram sobre cidades europeias no século 16. Para Jung, tais acontecimentos eram típicas ocorrências ufológicas, que estão claramente descritas no Folheto de Basiléia, de 1566, e no Folheto de Nuremberg, de 1561. O primeiro documento relata que, em 07 de agosto daquele ano, muitas bolas grandes e pretas foram vistas durante o nascer do Sol sobre aquela cidade. Segundo registros históricos reproduzidos por Jung, “tinham muita velocidade e voltaram-se umas contras as outras, como se lutassem entre si. Várias delas ficaram vermelhas e incandescentes e depois foram devoradas pelas chamas e se apagaram”. Para o psiquiatra, a cor escura daqueles UFOs resultaria, certamente, do fato de terem sido vistos contra a luz do Sol. “Mas outros, entretanto, eram claros e até incandescentes”, complementou novamente em alusão à natureza física do fenômeno, sobre a qual Jung não entra em maiores análises.

crédito: rhine society
Não somente Ufologia, Jung também incursionou na Parapsicologia
Não somente Ufologia, Jung também incursionou na Parapsicologia

O Folheto de Nuremberg, de 14 de abril de 1561, também descreve um fato semelhante, que segue narrado por Jung: “A notícia de uma visão muito apavorante, também na aurora daquele 14 de abril, foi registrada por muitos homens e mulheres. Eram bolas de cores vermelhas como sangue, azuladas e pretas, e também discos em grande número, todos perto do Sol”. Tal relato em muito se assemelha ao da Basiléia, pois as bolas pareciam guerrear entre si e depois caíam ao solo, desaparecendo em grandes nuvens de vapor. Jung também relatou em sua obra um objeto de formato longitudinal, registrado durante a manifestações e “igual a uma grande lança preta”. Ambos os fatos foram considerados, na época, uma visão ou um aviso divino.

Adentrando ainda mais no universo histórico do Fenômeno UFO, Jung chegou a fazer um levantamento de suas próprias análises e colocou em questão os fenômenos parapsicológicos analisados por Rhine, estudioso que é considerado o fundador da parapsicologia moderna. Jung interpretou as manifestações parapsicológicas a que teve acesso e as agrupou em um conceito que chamou de sincronicidade. “O resultado positivo dessas experiências eleva os fenômenos parapsicológicos ao nível de fatos incontestáveis”. Ou seja, o psiquiatra não somente se envolveu de maneira significativa com a Ufologia como ingressou no mundo da parapsicologia. Isso em uma época em que a ligação entre as duas disciplinas — especialmente na forma de manifestações parapsicológicas que surgem em testemunhas, após seus contatos com UFOs — era pouco ou quase nada discutida.

Pioneiros

Jung, assim, com considerações que mesclavam o universo parapsicológico com o ufológico, nos colocou frente a frente com um mundo novo e mágico, onde as forças físicas perdiam lugar para outras até então desconhecidas, que tinham sua origem na própria psiquê humana. Mas não pararam aí suas análises da manifestação alienígena na Terra. Em dado momento de sua obra, Jung fugiu do aspecto puramente psicológico da questão e se permitiu analisar sem conotação psicológica casos de UFOs amplamente documentados e relatados por pessoas de alta credibilidade. “Para isso, baseio-me nos relatos sintetizados por [Edward J.] Ruppelt e [Donald E.] Keyhoe, que merecem credibilidade, como também no fato de que o astrofísico professor [Donald H.] Menzel não conseguiu, mesmo com a maior boa vontade, explicar um único relato autêntico de forma satisfatória e por meios racionais”, declarou, referindo-se a estudiosos que se dedicaram ao Fenômeno UFO na mesma época em que ele.

Ruppelt e Keyhoe eram ufólogos contemporâneos de Jung, pioneiros que também publicaram livros sobre o tema e pertenciam aos quadros da Força Aérea Norte-Americana (USAF). Ruppelt, inclusive, dirigiu o Projeto Livro Azul, uma ação militar de investigação ufológica que depois foi usada pelo governo em uma manobra de desinformação do assunto. E Keyhoe era o piloto da Marinha dos Estados Unidos e encabeçou uma organização que investigou por muitos anos o fenômeno ufológico, o National Investigations Committee on Aerial Phenomena (NICAP). Jung enfatizou em sua obra que Keyhoe obteve o respeito dos militares de seus país especialmente após ter publicado seu livro A Conspiração dos Discos Voadores [Henry Holt, 1955].

Para aqueles que acreditam em UFOs, uma razão não será necessária. Para aquele que não crê, duas não serão suficientes. De qualquer forma, o Fenômeno UFO é incontestável, seja ele fruto da manifestação inconsciente das massas ou reais naves alienígenas

Já sobre Menzel Jung não nutria grande estima. Menzel foi um dos primeiros céticos profissionais do governo norte-americano, encarregado de desacreditar publicamente os UFOs, o que era visto pelo psiquiatra como uma política extremamente equivocada. Menzel foi o diretor do Observatório da Universidade de Harvard e era envolvido com a Agência de Segurança Nacional (NSA). Autor de vários livros, aperfeiçoou-se na estratégia de negar que o assunto UFO merecesse credibilidade. Não há registro oficial de manifestações de Jung contra esse personagem, mas uma confidente sua, na época, recorda-se de tê-lo visto muitas vezes lamentando a decisão do governo dos Estados Unidos de dissimular o que sabia sobre UFOs, em vez de encarar o problema e apresentá-lo à população.

Natureza psíquica do fenômeno

Apesar dos esforços de Jung, as dúvidas sobre a natureza do Fenômeno UFO ainda persistiam em sua mente, fazendo-o questionar a si mesmo o tempo todo. “Se estas coisas são reais — e, segundo a avaliação humana, não parece haver quase nenhuma dúvida disso — então só nos resta escolher entre as hipóteses da ausência de força de gravidade, de um lado, e da natureza psíquica do fenômeno, do outro. Sobre esta questão, não posso decidir”. Fosse qual fosse a teoria certa para ele, ela não ajudava muito a explicar a natureza física do fenômeno. “Se até os militares sentem a necessidade de montar escritórios para supervisão de observações do gênero, então a psicologia, por sua vez, não só tem o direito como também o dever de fazer a sua parte no esclarecimento da obscura situação”.

Em sua época, com o que dispunha, Jung tratou o tema ufológico sob o ponto de vista psicológico, de um homem que estabeleceu o conceito do inconsciente coletivo. Suas formulações só perderam um pouco o sentido lógico quando entraram na análise dos sonhos, onde Jung julgava que o fenômeno se manifestava. Ora, se por um lado podemos associar os UFOs a uma alucinação coletiva induzida pela psiquê humana, não deveria ser palpável que o mesmo pudesse ser interpretado através da simbologia de análise dos sonhos, que são individuais. Nesta dualidade é que se encontra a chave para a análise psicológica da questão, o uno. Somos criaturas isoladas em nossas mentes ou não? Para Jung, os sonhos de várias pessoas podem seguir uma linha cronológica e, quando analisados, estar conectados de alguma forma — como se o objeto sonhado por uma pessoa desse continuidade ao sonhado por outra.

crédito: colourbox
A ideia de que seres extraterrestres possam estar vivendo na Terra é algo que se confirma cada dia mais
A ideia de que seres extraterrestres possam estar vivendo na Terra é algo que se confirma cada dia mais

Para concluir este trabalho será necessária uma forte reflexão na afirmativa de Jung quanto à natureza das coisas. Os UFOs seriam objetos materiais formados pela força metafísica que rodeia o imaginário coletivo ou naves vindas do espaço exterior? Essa pergunta, por enquanto, fica sem a resposta. Mas isso não é o mais importante, porque a verdade está dentro e não fora do ser humano. Para quem acredita em UFOs, uma razão não será necessária. Para aquele que não crê, duas não serão suficientes. De qualquer forma, o Fenômeno UFO é incontestável, seja ele fruto da manifestação inconsciente das massas ou reais naves alienígenas, esteja ele conosco desde o começo da humanidade ou surgindo com a queda do World Trade Center, em Nova York. Nosso papel é analisar o que isso representa para o indivíduo e em suas representações mentais, seu íntimo psicológico.

A terceira possibilidade

“Parece-me que, mesmo com todas as restrições necessárias, há uma terceira possibilidade para os UFOs: eles seriam fenômenos reais, materiais, naves de natureza desconhecida que provavelmente vêm do espaço cósmico. Talvez, já há muito tempo os habitantes da Terra os tivessem visto, mesmo que eles não aparentassem ter qualquer relação perceptível com o planeta e seus habitantes”.


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Sobre o Autor

João Oliveira

É publicitário, comunicólogo e estudante de psicologia

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