ARTIGO

O grande silêncio dos alienígenas

Por Claudio Brasil | Edição 37 | 01 de Outubro de 2005

A amplitude do universo faz com que as possibilidades de se obter sucesso com os sinais extraterrestres sejam mínimas. No entanto, esta busca é uma das maiores aventuras já realizadas pela humanidade
Créditos: Ad Astra

O grande silêncio dos alienígenas

Já se passaram 45 anos desde a primeira tentativa de se buscar um sinal de origem extraterrestre realizada por Frank Drake, em 1960. Nesse tempo, muitas pesquisas foram criadas e aperfeiçoadas, como é o caso da Agência Espacial Norte-americana (NASA) que coletou dados por cerca de um ano com a pesquisa HRMS [High Resolution Microwave Survey – Pesquisa de Alta Resolução em Microondas]. O projeto Fênix, por exemplo, surgiu das cinzas do HRMS e observa o espaço desde 1995. Já o [email protected], sucesso absoluto da computação distribuída, tem cerca de 6 milhões de usuários e processa dados do radiotelescópio de Arecibo continuamente. No entanto, apesar da captação de alguns sinais candidatos, entre eles o famoso Wow!, não tivemos nenhuma freqüência que possa ter sido emitida por uma civilização extraterrestre desejosa de comunicação. O que está acontecendo? Será que afinal estamos sozinhos no universo?

O trabalho no SETI é árduo e com baixíssimas probabilidades. Alguém já o definiu muito bem comparando o projeto à tarefa de procurar um gato preto num quarto escuro. O universo é tão amplo e são tantas as possibilidades de busca que jogam a probabilidade de se obter sucesso a patamares mínimos. Em 1959, Giuseppe Cocconi e Philip Morrison sugeriram, através de um artigo na revista Nature, que a busca fosse realizada na região do Buraco d´Água, que compreendesse as freqüências de 1,4 a 1,7 GHz. Essa região é muito cotada para uma transmissão alienígena, em virtude de representar o elemento mais abundante do universo, o hidrogênio. Além disso, o ruído cósmico natural é bem mais baixo. Mas e se o ET escolher outra freqüência? Para o engenheiro eletrônico Cleomir Bretherick Longo, consultor do Projeto Comunidade SETI, a busca deveria ser realizada em freqüências baixas, de algumas centenas de megahertz. Para ele o ideal seria o radiotelescópio estar na face oculta da Lua, que agiria como um permanente e potente escudo contra o mar de interferências geradas pela Terra.

Nos projetos que utilizam o método target survey [Veja o artigo: Glossário], estrelas escolhidas previamente são monitoradas nas buscas. E se a transmissão de uma civilização alienígena estiver vindo de um astro a poucos graus dali, mas que não está na lista de estrelas alvo? Se as transmissões oriundas daquela estrela se encerraram um ano antes de nossa pesquisa? E se o extraterrestre escolheu enviar sua mensagem através de pulsos de luz? São tantas as variáveis que, para se obter sucesso, precisa haver uma convergência de todos esses fatores. Ou seja, precisamos estar apontando para a estrela certa, na hora certa e usando a mesma freqüência da suposta transmissão. Simplesmente podemos não estar recebendo mensagem alguma por termos deixado de acertar todos os parâmetros para ouvir as demais civilizações.

Civilizações galácticas — Pode ser também, como defendem os pessimistas, que a raça humana seja a única civilização existente no universo. Claro que os cientistas do SETI não querem nem de longe pensar nessa possibilidade. Afinal, como disse Carl Sagan, seria um tremendo desperdício de espaço. Porém, há na comunidade científica, acreditem, idéias que equivalem a considerar a Terra ainda como centro do universo. Existem muitas teorias e sugestões para se tentar explicar o grande silêncio, a ausência de contato por parte das civilizações extraterrestres. Uma delas, defendida por John Ball é de que nosso planeta seria uma espécie de jardim zoológico ou uma “reserva animal”. Ball afirma que seres extraterrestres andem entre nós e observem nossos passos ou que já tenham feito isso no passado. Podemos também estar numa espécie de quarentena e as civilizações extraterrestres aguardando que atinjamos um determinado grau de amadurecimento para nos contatar. Ou, quem sabe, esperando que não matemos mais nossos semelhantes ou que deixemos de agredir o planeta que nos acolhe e permite a vida. Talvez tenham de esperar bastante... ou não.

A idéia defendida por Ball é a primeira sugestão feita por um cientista de que a Terra pode estar sendo visitada por seres de outro planeta, embora a ciência continue a rejeitar a existência ou evidências de discos voadores. Já se cogitou também que os ETs sigam a regra da “não interferência”, procurando sempre se ocultar de outras civilizações, evitando o contato. Thomas Bernardus Henricus Kuiper e M. Morris sugeriram, em 1997, que os ETs que nos observam evitariam ser descobertos cedo demais, enquanto estudam o nosso comportamento e desenvolvimento. W. I. Newman e Carl Sagan defendem que a taxa de ocupação da galáxia possa ser muito lenta de forma que uma “bolha de colonização ou expansão” não tenha chegado até nós ainda. Newman e Sagan afirmaram que “a Terra não foi colonizada, não porque sejam raras as sociedades que viajam entre as estrelas, mas sim por existirem mundos demais a serem colonizados durante a vida plausível da fase colonizadora de civilizações galácticas próximas. Fase essa que acreditamos seja, eventualmente, ultrapassada. Concluímos, ainda, que exceto possivelmente muito cedo na história da galáxia, não existam civilizações galácticas bem antigas, com uma política consistente de conquista de mundos desabitados: não existe império galáctico algum”.

crédito: Steven Hurt

Eles estão no meio de nós, nos observando em todos os instantes. Quando a raça humana desenvolver o verdadeiro amor ao próximo eles vão se integrar à nossa raça
— Comentário deixado no site da Comunidade SETI

Por outro lado, os otimistas sugerem que civilizações avançadas talvez desenvolvam ocupações que não os motivem a procurar qualquer forma de contato com outras espécies. Existe a idéia de que possa haver civilizações “exclusivistas”, tal que sua motivação maior seja a de ficar sozinha, isolada na galáxia, sem procurar contato com outras formas de vida. Julgo pouco provável que uma civilização, que atingiu sua fase comunicativa, procure se manter isolada sem tentar se comunicar com outros possíveis habitantes da galáxia. Mas essa é uma hipótese que não podemos descartar. Eu considero que a espécie humana atingiu sua fase comunicativa quando Karl Jansky detectou acidentalmente, em 1932, ondas de rádio oriundas da esfera celeste e descobriu que se tratavam de emissões de rádio naturais provenientes dos astros. Assim teve início a radioastronomia. Passamos a ter ouvidos gigantes para “escutar” o cosmos. E com a inquietante questão “estaremos sós no universo?” a nos perseguir. O desenvolvimento do SETI e a transmissão de uma mensagem interestelar foram inevitáveis.

Autodestruição das espécies — Nossa primeira mensagem ao espaço foi transmitida em 1974, na direção do aglomerado de Hércules. Continha dados sobre a nossa espécie, o Sistema Solar e do equipamento que a enviou. Tal região foi escolhida por ser uma densa condensação de estrelas, aumentando a probabilidade de ocorrência de planetas com possíveis civilizações. Se considerarmos que o aglomerado está a 26 mil anos-luz de distância, não devemos esperar algum sinal antes de 52 mil anos – tempo que a mensagem demoraria para chegar até lá, mais o tempo do retorno de uma resposta –, trabalhando com a hipótese de que essa informação não seja interceptada antes por alguma civilização inteligente que esteja no caminho. O grande silêncio pode estar ocorrendo devido à forma de comunicação escolhida. Os cientistas optaram pela freqüência de rádio por dois motivos: primeiramente, em função da velocidade de propagação igual a da luz e, em segundo, devido ao fato de ser possível concentrá-la em feixes estreitos. No entanto, não se pode esquecer de um problema muito sério: a absorção das ondas de rádio pelo meio interestelar e pela própria atmosfera planetária. Isso pode limitar o alcance do sinal, talvez a algumas centenas de anos-luz, o que restringiria a pesquisa às vizinhanças do Sistema Solar.

Uma outra possível causa para o grande silêncio traz uma inquietação muito grande. Já foi sugerido que o problema seja talvez a baixa duração de uma civilização tecnológica. Pode ser que uma espécie em desenvolvimento não dure o bastante para realizar contatos ou viagens de exploração, tendendo antes a um fim através de sua autodestruição. Os humanos entraram na fase comunicativa em 1932. Antes disso, já havíamos passado por uma guerra mundial e em 1939, ocorreu a segunda, já no início da Era Atômica. Certa vez, questionado sobre esse assunto Albert Einstein respondeu: “A terceira guerra eu não sei, mas a seguinte será com pedras e tacapes”. Como já foi calculada, a quantidade de armamento atômico no planeta seria suficiente para destruí-lo cerca de 40 vezes. Mas basta uma única vez para que a espécie acabe. Não podemos deixar de temer a possibilidade da autodestruição de uma civilização à medida que seu desenvolvimento tecnológico cresce. A duração de uma civilização tecnológica é um dos parâmetros mais importantes ao se levar em conta a possibilidade de contatar outras formas de vida inteligentes.

Espécies inteligentes — Frank Drake, pioneiro do SETI, foi o idealizador de uma famosa equação que permite estimar o número de espécies inteligentes, desejosas de comunicação, existentes em nossa galáxia. Segundo A. L. L. Videira, os números tipicamente considerados são os seguintes: R*pode chegar a umas 20 estrelas por ano. Fb é em torno de 0,1. Fp corresponde a cerca de 0,5. Ne é considerado pelos otimistas como maior que 1. Fv tem o valor de 1 – ou seja, considera-se que a vida tende a surgir sempre onde haja oportunidade. Fi é um valor em torno de 0,1 – ou, numa condição bem otimista, igual a 1. Fc é arbitrariamente tido como 0,1. E L é a grande incógnita da equação, para o qual deixamos, por enquanto, um valor em aberto.

Assim a Equação de Drake, considerando as possibilidades mais pessimistas, poderia ser escrita como: 20 x 0,1 x 0,5 x 1 x 1 x 0,1 x 0,1 x L = 0,01 L. Ou seja, considerando como fixos os parâmetros acima, temos que o número de civilizações inteligentes existentes na galáxia depende unicamente do parâmetro L, a duração média de uma espécie como a nossa. Quanto tempo deve durar uma civilização que alcança a fase comunicativa? Um século? Talvez dois? Ou será que pode durar mil anos? Será que com desenvolvimento tecnológico duraria 10 séculos? Seria talvez aniquilada ou autodestruída antes desse período? Com os valores que fixamos acima, se considerarmos que a duração média na fase comunicativa é de 100 anos, a fórmula de Drake nos fornece como resultado igual a 1, ou seja, seríamos a única espécie inteligente na galáxia. Se tomarmos como L = 200 anos, encontramos como resultado duas civilizações.

crédito: Arquivo UFO
Muitos pesquisadores acreditam que o grande silêncio pode estar ocorrendo devido a forma de comunicação escolhida. Mas os ETs continuam aparecendo em grandes cidades...
Muitos pesquisadores acreditam que o grande silêncio pode estar ocorrendo devido a forma de comunicação escolhida. Mas os ETs continuam aparecendo em grandes cidades...

Os parâmetros que fixamos para esse cálculo rápido podem mudar de acordo com uma visão mais otimista ou pessimista. Assim, podemos inclusive encontrar uma galáxia repleta de formas de vida que desejam se comunicar. Convido o leitor a fazer suas próprias estimativas. Além de estimar o número de formas de vida existentes em nosso sistema galáctico, a Equação de Drake nos deixa a inquietante questão da duração da fase comunicativa e a tendência de civilizações tecnológicas se autodestruírem. Mas, afinal, qual será o motivo do grande silêncio? Será que estamos sozinhos na galáxia ou as outras civilizações existentes não desejam o contato? Há de se considerar também que o SETI tem apenas 46 anos. Segundo uma enquete publicada no site Comunidade SETI, cerca de 40% dos internautas acham que o contato ocorrerá num prazo de 10 anos e 20% deles acreditam que ainda vai demorar um século. Para se captar uma mensagem, diversos fatores devem concorrer de forma positiva. Fazer SETI não é fácil. As chances são pequenas e ainda é cedo para cobrar um resultado. Só o tempo nos dará a resposta.

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Sobre o Autor

Claudio Brasil

É ufólogo, físico, astrõnomo amador e coordenador da Área de Planetas Inferiores da Rede de Astronomia Observacional (REA). É diretor científico do Instituto de Pesquisas Avançadas em Transcomunicação Instrumental (IPATI) e consultor da UFO

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