ARTIGO

O chupa-chupa na estrada contínua entre o real e o imaginário

Por Carlos Mendes | Edição 266 | 15 de Março de 2019

O entrevistado teve que cobrir a onda do chupa-chupa em meio a um grande estresse profissional e incertezas que o fenômeno gerava quanto à sua natureza
Créditos: RAFAEL AMORIM

O chupa-chupa na estrada contínua entre o real e o imaginário

Na geografia dos fatos, o inusitado, o bizarro e o patético às vezes residem na mesma região. E caminham bem próximos um do outro, embora por ruas paralelas. Quando o insólito se intromete nesses três caminhos, tudo se funde em uma única palavra, limitada pela compreensão humana: mistério. O desafio, para a ciência e estudiosos, é desvendá-lo. Para um repórter, tentar reproduzi-lo ou esclarecê-lo, separando a verdade da mentira, a emoção da razão, o ceticismo da crença. Minhas impressões pessoais a respeito da onda do fenômeno “chupa-chupa” de nada valiam. O compromisso com os fatos, a diversidade de fontes e seus relatos, era o que realmente estava em jogo.

Nunca houvera coberto um assunto tão instigante e inusitado como os ataques da “luz vampira” ou “luz do medo” sobre a Região Norte do país e a respectiva Operação Prato, a missão militar colocada em prática para investigá-lo. O personagem do foco jornalístico eram as vítimas do estranho fenômeno, mas havia algo especial que estava acima disso: aquilo que vinha do céu, surgido do nada, emitia um jato luminoso, paralisante e invasivo, e depois ia embora em alta velocidade. Em casos extremos, a luz retirava sangue dos corpos humanos. Por quê? Para quê? O que era aquilo, de onde vinha, o que queria? Eram perguntas que, ao longo de uma série de entrevistas — mais de 80 — iriam martelar minha cabeça por décadas, até nos dias de hoje, sem alcançar respostas, se não conclusivas, ao menos satisfatórias.

Brigas políticas

Estava acostumado a cobrir brigas políticas, intrigas entre governantes, luta pelo poder, a repressão da ditadura militar sob a qual vivíamos, conflitos pela posse de terras, contrabando de minérios, devastação da Amazônia, trabalho escravo e invasão de terras indígenas para roubo de madeira. Acontecimentos dos quais os personagens eram de carne e osso, tinham notórios interesses pessoais e coletivos, nomes, endereços, número de CPF, identidade e impressões digitais. Ou seja, traços e pegadas humanas. Porém, como meus personagens principais da nova investigação eram luzes, de formas, cores e tamanhos diversos, eu não sabia sequer por onde começar. Faltava o que se chama nas redações de “gancho” da matéria. O “quem” investigar não tinha face, endereço ou fontes confiáveis para apontar um caminho. Sequer para estabelecer o contraditório, o cara a cara, a ampla defesa. Eu pisava no terreno movediço do “eu vi”, com relatos que a mim chegavam, sem saber ao certo o que tinha sido visto pelas vítimas e testemunhas. O chupa-chupa era um total mistério.

Um repórter sem chão. Era assim que me sentia. Eu tinha de me virar para obter as respostas que buscava. Decidi que meu faro investigativo seria guiado pela intuição. A única alternativa que me restava. Um jornalista sem intuição está sempre à beira do abismo, pronto para dar o passo à frente. Os meios físicos de investigação daqueles fatos estavam longe do meu alcance. Não tinha como pegar um avião, monomotor que fosse, ou helicóptero, para seguir uma luz misteriosa, observá-la de perto, provocar um contato e estabelecer alguma opinião sobre o que era ou deixava de ser.

Armas de trabalho

Nem binóculo eu tinha para tentar localizar aquelas luzes insólitas, naves, sondas ou coisas do tipo. Para ser sincero, minhas únicas armas de trabalho eram um gravador cassete Panasonic, que exigia quatro pilhas grandes, várias fitas da marca TDK, algumas com músicas de rock internacional e canções brasileiras que eu gostava de ouvir, para relaxar, enquanto redigia matérias “normais” na velha máquina de escrever Remington do jornal. A munição era um massudo bloco de papel e algumas canetas Bic.

De informações sobre aquilo que iria investigar, tinha na cabeça apenas a curiosidade intelectual e a lembrança de filmes como 2001, Uma Odisseia no Espaço, obra-prima de Stanley Kubrick; Guerra dos Mundos, de George Pal; Vampiros de Almas, de Don Siegel; e O Planeta dos Macacos, do diretor Franklin J. Schaffner, além de séries como Jornada nas Estrelas e até o ingênuo e às vezes hilário Perdidos no Espaço, que faziam enorme sucesso nas telinhas da televisão, em Belém. Dava para rir. Filmes e literatura sobre ETs e vida em outros mundos foi o que restou ao pobre diabo do repórter. Já era alguma coisa, uma bússola — o GPS de hoje — para cair no mundo das mazelas terrenas e compreender, ou ao menos tentar, o que ocorria na região paraense em pânico. Pânico que aumentava a cada novo ataque, que a esta altura já eram corriqueiros.

O real e o imaginário

O real e o irreal sempre me desafiaram. Tudo para mim sempre foi muito claro. O real era o verdadeiro, enquanto o irreal era a ilusão, a fantasia. Ou, para ser mais generoso, a ficção. Quanta estultícia a minha. O real e o imaginário sempre foram e serão contínuos. Quem os separa é o dogmatismo científico ao tentar explicá-los, isolando-os. Enquanto eu buscava em minha mente uma resposta que fosse — pensando no relato daquelas duas senhoras na redação do jornal sobre os ataques que sofreram —, setores mais cegos da ciência, aqueles que oferecem respostas definitivas para tudo, até para fatos inexplicáveis, iriam me jogar em um turbilhão de incertezas. Eles não me ofereciam a resposta que eu perseguia sobre o fenômeno que atormentara as vidas de pessoas humildes e assustadas. Os vampiros espaciais, existissem ou não, não iriam lançar nenhum jato de luz para fulminar minha curiosidade.

 

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Carlos Mendes

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