Edição 55
DESTAQUE

Multiplicação de vida no cosmos

Por
01 de Jul de 2007
Como foi o princípio da vida no universo é algo difícil de determinar. Mas é possível que seus desdobramentos tenham originado formas de vida que, um dia, passaram a criar outras, numa espécie de laboratório em constante atividade
Créditos: JPL

Num verdadeiro achado de pensamento, embora não tenha desenvolvido suficientemente o tema, o pensador Anaxágoras (500-428 a.C.), que fundou a primeira escola filosófica de Atenas, pouco antes de Sócrates, considerou a vida uma semeadura universal, sem definir quem teria feito tal semeadura, mas deixando claro que a vida seria resultado de uma lúcida consciência atuando na matéria inerte. Para ele, matéria e essência pensante teriam existências distintas e, juntas, formariam o que chamamos vida.

Em seus estudos, chegou à conclusão de que as matérias universais, antes de terem sido separadas na origem, estavam todas juntas em somente uma. Nessa época não havia branco, preto, cinza. Tudo era uma mistura única. Em outras palavras, as formas materiais, derivadas na origem, por conterem em si tudo, brotariam delas mesmas e em sucessivas transformações comporiam todas as matérias conhecidas. O princípio de raciocínio era que o nada, nada pode produzir. Por conseguinte, o surgir de tudo seria apenas um novo vir-a-ser daquilo já existente na origem, embora, para o homem, tal fato fosse imperceptível em razão de sua pequenez para observar o invisível. O raciocínio de que o universo físico é procedente de uma única emanação primordial, de origem etérica, emanação esta que o espiritismo mais de dois mil anos depois viria chamar de fluido cósmico universal, fora concebido por Anaxágoras nos tempos da Grécia antiga, mas de modo algum fora entendido na época.

O conceito de espírito — Além dessa emanação primaz que forma todas as matérias físicas, Anaxágoras criou também um outro princípio. Para ele, somente a razão contida num psiquismo independente poderia dar causa ao mundo dos seres vivos. Ele concebeu que o espírito, o qual chamou de nous, teria separado a matéria e com ela formado vivências distintas, dando uma ordenação aos elementos e gerando um perfeito relacionamento entre eles na torrente da vida. Assim, divulgava que todos os princípios da matéria subsistem e se conservam latentes, até que a consciência os ligue na eclosão da vida. Portanto, a mente brilhante de Anaxágoras concebera que “quem vivifica é o espírito”, como viria ensinar Jesus quase meio milênio depois. Refletindo, o filósofo considerou que a natureza, com sua ação transformadora, faz a árvore causar o fruto, mas sua ação não pode produzir a essência da árvore, que para ele era o espírito [O nous]. Esse espírito é um ser individual que move a si mesmo. “É o pensar da matéria e o movimento. É a vida que existe, trabalha e tem instintos. Os instintos têm seus fins, mas o espírito nada sabe de seus fins, apenas vive. Porque o nous é vida. É a consciência universal que vibra em todo o cosmos”, dizia.

A idéia de geração espontânea — Todavia, Anaxágoras não se detinha somente na filosofia. Era um pesquisador prático, tal como os homens atuais da ciência. Por isso, aos seus alunos, demonstrou em laboratório que os gases se elevam no ar mais que as matérias sólidas, assim como o vapor de água e a fumaça de combustão. Para demonstrar sua idéia de que a Terra é uma massa sólida e achatada, que flutua no espaço sustentada por alguma força espacial concentrada, Anaxágoras encheu de ar um odre de pele, fazendo dele um colchão comprimido de ar, muito rígido, e colocando em cima objetos pesados demonstrou como a atmosfera rarefeita poderia sustentar o peso de matérias sólidas. Considerou também que tudo na natureza é indestrutível. Que se as árvores fossem cortadas e queimadas, parte delas subiria ao espaço e, como chuva, tornaria a semear a terra. Assim, os germens etéreos da vida, substâncias espermáticas invisíveis, subiriam aos mundos do universo e semeariam as terras do infinito. Nessa idéia, notamos o conceito inicial da panspermia.

Quase um século depois, surgiu uma nova hipótese. Veio de Aristóteles (384–322 a.C.), um dos melhores cérebros da Antigüidade. Em decorrência de seus estudos de anatomia e fisiologia comparada, ele divulgou ao mundo a Teoria da Geração Espontânea, onde a vitalidade apareceria naturalmente, por si mesma. Como exemplo, era dado o surgimento da vida num pedaço de carne morta, apodrecida, em que dela apareceriam vermes. A teoria permaneceu inabalável por mais de dois milênios, mas enfraqueceu na época de Pasteur, quando a pasteurização demonstrou que os vermes somente surgem após as moscas depositarem larvas na carne em decomposição. Embora enfraquecida, a teoria prosseguiu com firmeza e ainda permanece válida, mas com outros desenvolvimentos, sem o exemplo da decomposição.

Cerca de meio milênio depois, Santo Agostinho (354-430 d.C.), espírito que no século XIX participaria da codificação kardecista, na época inicial da Igreja, quando fora um dos maiores nomes do catolicismo, abraçou a teoria da geração espontânea ensinando que o mundo era pleno de germens ocultos da vida [Oculta semina], sementes espirituais invisíveis que da terra, da água e do ar fariam eclodir os seres vivos. Essa doutrina nunca foi contestada pela Igreja, mas sim por cientistas do final do século XIX, que discordaram da geração espontânea, do nascimento de seres vivos sem pai nem mãe. Os argumentos eram fortes. E as explicações deveriam ser reformuladas.

crédito: Image Bank
Os organismos que temos hoje na Terra podem ser fruto de um processo de evolução que teve origem com a chamada panspermia
Os organismos que temos hoje na Terra podem ser fruto de um processo de evolução que teve origem com a chamada panspermia

A teoria da radiopanspermia — Em meados do século XIX, a idéia da panspermia voltou com novos contornos, elucidada agora por Montlivault, e prosperou ainda mais na mente de brilhantes pensadores. Contudo, foi somente no início do século XX que ela foi desenvolvida com mais propriedade, pelo célebre físico–químico sueco Svante Arrhenius (1859-1927), nos livros que publicou, tendo conquistado grande popularidade.

A Teoria da Radiopanspermia de Arrhenius considerava que a vida poderia ter prosperado em algum planeta cujas condições fossem semelhantes às da Terra. Para ele, os germens vivos de plantas e os microorganismos seriam levados pelo vento, subiriam às alturas, a radiação solar os empurraria para outras paragens universais e daqueles ermos estelares seriam pulverizados, chegando ao solo de outras esferas planetárias. Nos orbes do infinito, os esporos ficariam ali adormecidos. Quando o solo de um planeta reunisse condições favoráveis para desabrochar vida, os esporos acordariam de sua dormência, iniciando uma ampla reprodução. Desse ponto em diante, a teoria evolucionista de Darwin entraria em ação, encarregando-se de explicar a evolução da vida mediante a seleção natural e a mutação de organismos. Assim, concebia-se a eclosão da vida em outros planetas além da Terra.

A tese de Arrhenius fora aceita de maneira entusiasta. Vários cientistas concordaram que os esporos vivos poderiam ter entrado na Terra através de um enxame de poeira cósmica ou de uma chuva de meteoritos. Contudo, quando se tratou de explicar melhor os mecanismos de transporte desses esporos, as objeções foram muitas. Não havia maneira de entender como os esporos poderiam se manter vivos em condições atmosféricas e radioativas tão contrárias à sua geração. O frio e o calor intenso matariam os germens da vida. Para comprovar a radiopanspermia, passou-se a estudar os meteoritos, procurando neles a existência de microorganismos. Afinal, os meteoritos são pedras não terrestres suscetíveis de exame, e, se realmente são de planetas desintegrados, a possibilidade de encontrar esporos não deve ser descartada a priori.

A hipótese estava fundamentada nas descobertas de meteoritos em meados do século XIX, onde foram encontradas substâncias carbonadas [Base da vida na Terra] próximas das dos hidrocarbonetos. Todavia, as pesquisas de laboratório mostraram que as substâncias orgânicas presentes eram o resultado de uma reação entre o carbono e o bissulfato de ferro. Alguns hidrocarbonetos eram análogos aos obtidos na fundição do ferro. Após muitas análises químicas, concluiu-se que as substâncias encontradas nos meteoritos não eram provas da existência de vida nos corpos celestes.

Vida cultivada em laboratório — No entanto, as investigações continuaram. Alguns pesquisadores europeus voltaram a examinar outras amostras de meteoritos, supostamente marcianos, encontrados em locais sugestivos para análise. Algumas declarações davam conta de que neles havia traços de vida. Entretanto, outros cientistas alertaram para a possibilidade de haver contaminação procedente da própria Terra. Observando-se detidamente os traços de vida existentes, as provas não foram confirmadas e a incógnita permaneceu. Mas, ainda assim, apesar das posições em contrário, a teoria da panspermia perdurou como possibilidade. Outras alternativas deveriam ser testadas.

No final do século XIX, o materialismo dialético, propagado por Friedrich Engels (1820-1895), começou a ganhar terreno no meio científico da velha Europa. A teoria da geração espontânea voltou à baila. A idéia divulgada por seus seguidores era de que a vida não seria transportada por corpos celestes viajando pelo espaço sideral, nem tampouco um caso fortuito, isolado, fruto de um feliz acidente. Mas a vida seria um fenômeno submetido a leis bem definidas, podendo ser cultivada cientificamente. Seria preciso produzir o fenômeno em laboratório.

crédito: Helmut Speetz
A molécula do DNA, base da vida humana terrestre, pode estar presente também nas células de seres de outras espécies cósmicas
A molécula do DNA, base da vida humana terrestre, pode estar presente também nas células de seres de outras espécies cósmicas

Em 1924, o bioquímico russo Alexander Oparin (1894-1980) e, posteriormente, o biólogo inglês J. B. S. Holdane (1892-1964) ventilaram a hipótese de gerar vida a partir de uma solução química concentrada, uma composição primordial denominada “caldo pré-biótico”. Esse caldo foi composto inicialmente por ingredientes como metano, amoníaco, hidrogênio, vapor de água e uma atmosfera com pouco oxigênio. Tal composição revelou-se insuficiente para gerar vida, razão pela qual seria alterada inúmeras vezes pelos biólogos que se detiveram a pesquisar o processo.

Partindo da hipótese de Oparin, o pesquisador Stanley Miller fez suas experiências ao longo de 40 anos. No início de seu trabalho, obteve em laboratório a formação de algumas substâncias que, presumivelmente, poderiam compor a molécula primitiva, responsável por desencadear a matéria orgânica. Foi uma euforia sem igual no mundo da ciência. Parecia que a vida estava prestes a ser eclodida em laboratório. Uma grande importância foi dada à descoberta, pois ela abria novas possibilidades ao cultivo da vida. As experiências prosseguiram. Contudo, após quatro décadas de testes, Miller declarou que nenhum de seus experimentos produzira biomoléculas auto-reprodutoras. Considerou que o acoplamento espontâneo de sistemas moleculares, de modo que sua produção seja organizada, gravada e interpretada em modelos genéticos, da forma como se encontra perfeitamente sintetizada no DNA celular, continua sendo um grande mistério que permanece desafiando o pensamento científico. Em suma, o materialismo dialético foi impotente, não produziu vida em laboratório, a partir da massa inerte.

Semeadura — As teorias propostas nunca chegaram a ser realmente comprovadas. A hipótese da panspermia adormeceu. Por sua vez, a idéia materialista de geração espontânea, após exaustivas experiências no século XX, não logrou êxito de produzir vida em laboratório. Com tais insucessos, a teoria evolucionista de Darwin também ficou inacabada. A exemplo dos meteoritos, experimentos com amostras de solo lunar demonstraram não existir quaisquer sinais de microorganismos na Lua. Este fato, associado às observações feitas por várias sondas espaciais, veio confirmar as suspeitas de que no nosso Sistema Solar não há vida inteligente além da nossa. Admite-se, atualmente, a hipótese de que possa haver somente algum tipo de vida microscópica nos demais planetas e nas luas do nosso sistema. Tais fatos vieram complicar ainda mais a hipótese materialista de eclosão da vida, mas a situação estava prestes a dar outra guinada, pendendo agora para o outro lado, dessa vez em favor de uma panspermia dirigida.

Em 1953, aconteceu algo que faria uma reviravolta em tudo. A conceituada revista Nature, na edição de 02 de abril, publicou a descoberta da estruturação da dupla hélice do DNA, formada à semelhança de uma escada caracol. Nos degraus da escada estão as substâncias químicas, chamadas bases. Nos corrimãos, os açúcares e fosfatos. Os descobridores foram o biólogo norte-americano James Watson e o físico-químico britânico Francis Crick, os quais, fundamentados nas observações de raios X do inglês Maurice Wilkins, construíram um modelo de molécula do DNA e argumentaram sobre o seu funcionamento na formação das células e na transmissão dos caracteres genéticos de uma geração a outra. Esse feito valeu aos três cientistas o prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia, em 1962.

crédito: Image Bank

Com essa magnífica descoberta, foi verificado que o metabolismo e a composição da vida são realizações tão complexas que, aquilo que antes parecia ser difícil de obter sem uma inteligência soberana gerindo o arranjo da vida, agora, conhecendo a complexidade de estruturação do DNA, tornava-se simplesmente impossível conceber que a vida possa surgir ao acaso. Então, em razão disso, aconteceu um fato inusitado. Francis Crick e o especialista em química pré-biótica, Leslie Orgel, aliaram-se para divulgar na prestigiosa publicação científica Icarus, em 1973, que, diante da imensa complexidade da vida, a Terra teria sido semeada por seres inteligentes de outro Sistema Solar.

Deus não joga dados — Façamos aqui um raciocínio para entender melhor o porquê dessa divulgação de a vida ter sido semeada por seres extraterrestres. Se você estivesse num jogo de dados e o dado a ser arremessado possuísse milhões de faces, somente seria possível acertar a face única da vida se o dado fosse arremessado bilhões de vezes. Todas essas tentativas levariam um tempo infindável para premiar a vida, ou seja, um tempo tão extenso quanto a idade do próprio universo, o que seria absurdo, porque o universo passou um largo período em estado de energia e a vida física nesse estado não poderia ser tentada. Portanto, nesse jogo, para se ter êxito com alguma lógica, seria preciso estender as chances de geração ocasional da vida para os infindáveis planetas da imensidão cósmica, e não simplesmente ficar restrito a apenas uma casa planetária, a nossa. Afinal, a Terra se formou há cerca de cinco bilhões de anos e a vida mais rudimentar surgiu nela após 1,5 bilhão de anos da sua condensação, tempo de geração considerado insuficiente para a natureza arranjar, por si só, a complexa estruturação da vida contida no DNA.

Como para Crick, Deus não joga dados e nem sequer existe para gerir a complexa estruturação do DNA recém descoberto, a explicação da origem da vida deveria recair sobre algo mais concreto do que Deus, para não confrontar suas convicções materialistas. Não podendo atribuir ao sobrenatural a semeadura da vida, considerou que ela deveria surgir por si mesma, por um processo estritamente natural que possibilitasse o seu estudo acadêmico. Mas isso não fora obtido nos experimentos levados a efeito em laboratório. Então, para que a ciência tivesse tempo de formular novas hipóteses e produzi-la em laboratório, demonstrando assim o seu surgimento espontâneo, Crick preferiu postular a existência de seres de outros planetas, de astronautas que com suas espaçonaves avançadíssimas teriam vindo a Terra fazer uma panspermia dirigida, uma verdadeira semeadura da vida.

Contudo, não explicou como a vida teria surgido em outras paragens do universo. Simplesmente, empurrou para lá o seu aparecimento. Preferiu apenas teorizar a evolução da vida na Terra, episódio este muito mais fácil de realizar. Por conseqüência, segundo Crick, todos nós seríamos originários de seres inteligentes de outras imensidões cósmicas, de alienígenas avançados tecnicamente, mas misteriosos. É provável que Crick não tenha refletido detidamente sobre os desdobramentos desse seu postulado. O fato de astronautas intergalácticos chegarem a Terra viajando à velocidade da luz, é totalmente desconhecido da ciência terrestre. Isso porque seria preciso considerar que, para uma viagem à velocidade da luz, um conjunto sólido deveria passar ao estado de energia, conservando-se organizado nesse estado, depois teria de voltar ao estado sólido inicial, sem perder nenhuma de suas características, algo impensável à nossa ciência atual. E quanto ao ser vivo continuar vivendo em estado de energia, para depois voltar a ser matéria, isso exigiria desses viajantes o domínio de técnicas avançadíssimas, algo semelhante aos enigmas espirituais que as religiões ensinam, pois do contrário não poderiam operar essa transmutação.

A Radiopanspermia considerava que a vida poderia ter prosperado em algum planeta cujas condições fossem semelhantes às da Terra. Germens vivos de plantas e os microorganismos seriam levados pelo vento, subiriam às alturas, a radiação solar os empurraria para outras paragens universais, chegando ao solo de outras esferas planetárias

Para nós, terrestres, essa vida, ora numa dimensão ora noutra, existente nos dois planos de vibração da matéria, seria confundida com a vida do espírito. Portanto, postular a existência de vida sólida que se torna imaterial e ainda é capaz de voltar à condição anterior com o uso de tecnologia, isso é uma hipótese tão subjetiva quanto a existência do espírito ou a de seu criador – Deus. Assim, renegar a alma e a existência de Deus, como o cientista fez questão de fazer, é um procedimento contraditório em si mesmo.

Enigmática semeadura — Contudo, o desdobramento que haveria de ter tais afirmações estava por vir. A enigmática semeadura, postulada por Crick e Orgel, foi rapidamente encampada no meio ufológico. Mesmo anterior ao postulado, vários pesquisadores, revirando as Sagradas Escrituras, acreditaram ter montado o fabuloso quebra-cabeças. A linguagem figurada da Bíblia dera-lhes margem para interpretar inúmeras passagens testamentárias como alusões à presença alienígena na Terra, reforçando a posição de Crick. Assim, fora sacramentada a hipótese de a raça humana ser filha de deuses astronautas. A semeadura dirigida fora revigorada como nunca, com a adesão de cientistas, místicos e literatos que dela levantaram bandeira, encontrando respostas para seus anseios de conhecimento.

Posteriormente, ela ainda voltou à baila pelas declarações de seus mais ilustres defensores. Na revista Scientific American Brasil, em abril de 2003, comemorando o cinqüentenário da descoberta da dupla hélice do DNA, Watson considerou que se os pássaros migram para um local certo, previamente concebido, sem nunca terem ido para lá. Tal fato somente poderia dar-se em razão de um mecanismo herdado. Portanto, a herança genética não seria somente física, mas de valores intelectuais pretéritos.

Em suma, os pássaros herdariam de seus pais uma memória já gravada e poderiam acrescentar algo mais a ela, para legar a seus filhos. Assim, a cada passo, de geração a geração, progrediria ainda mais o intelecto. Desse modo, o DNA seria muito mais complexo do que se pensava. Diante da inclusão dessa “sabedoria intelectual herdada”, por assim dizer, surge uma complexidade ainda maior para arranjar a já refinada organização da vida expressa no DNA. E, não podendo a vida ser arranjada em laboratório, a semeadura dirigida por ETs ganhou força ainda maior.

As pretensas “células da alma” — Francis Crick, então com 86 anos, por ocasião da mesma comemoração de aniversário do DNA, pretendendo “matar” definitivamente a alma, declarou ao jornal Nature Neuroscience que sua equipe houvera encontrado as células responsáveis pela geração da consciência. Afirmou que ela surge de reações bioquímicas dentro do cérebro e que a ciência e a religião entram em conflito porque ambas tentam explicar o mundo físico. Mas a maioria das religiões sugere que há alguma intenção Suprema nisso, enquanto não há evidências disso na ciência. “A religião é uma hipótese que não se pode comprovar cientificamente”, afirmou.

Mesmo sem apresentar prova dessa “descoberta” para constatação positiva de outros cientistas, o conceito de semeadura dirigida fora revigorado, pois as pretensas “células da alma” confrontariam a existência de Deus e tudo passaria a ser herdado, estaria codificado no DNA todo o saber acumulado em existências pretéritas, seja de que espécie de vida for, obedecendo a mesma linha de pensamento de Watson. Certamente, os ilustres cientistas não consideraram outras possibilidades para entender as aves de arribação. A “célula da alma” é apenas uma teoria especulativa. É certo que a comunicação dos pássaros não há de ser a dos homens, mas alguma linguagem rudimentar entre eles deve existir. De alguma maneira instintiva, os pássaros podem se comunicar entre si para expressar necessidades prementes. Isso é percebido quando estão agrupados em bando. Se o perigo é iminente, eles se previnem de maneira mútua, numa clara demonstração de que se comunicam entre si. Essa expressão não está restrita à segurança do grupo, mas é observada também na hora do alimento e na procriação da espécie. Os pássaros possuem maneiras de se prevenir e de transmitir coletivamente suas sensações, dando mostras do que deve ser feito nas mais variadas situações. Com certeza, os mais jovens obedecem ao guia mais experiente, que os conduz durante o vôo, aprendem praticando com o líder do bando e se capacitam a transmitir a outros o conhecimento adquirido. É possível e parece mesmo certo que alguns de seus sentidos sejam muito apurados, que tenham capacidade para detectar as sutis vibrações do ar e que possuam maior senso de direção do que as espécies não aladas. Seja como for, meios de entendimento mútuo não faltam aos pássaros e sua migração não significa herança intelectual gravada no DNA. Essa herança nunca foi encontrada pela ciência, nem mesmo pelos ilustres cientistas descobridores do DNA.

crédito: Cortesia UNiversity of Berkley
O cientista Francis Crick, que descobriu a molécula do DNA e promoveu um salto gigantesco na forma como se passou a ver a origem da vida na Terra e sua disseminação pelo universo
O cientista Francis Crick, que descobriu a molécula do DNA e promoveu um salto gigantesco na forma como se passou a ver a origem da vida na Terra e sua disseminação pelo universo

Vida alienígena microscópica — Em 1979, o astrofísico Fred Hoyle (1915-2001) também revitalizou a panspermia. Estudando a poeira da galáxia, notou que o seu reflexo de luz sugere uma formação baseada em água e em compostos de carbono, talvez grafite. As tentativas de reprodução dessa poeira em laboratório não lograram êxito. Suas partículas, do tamanho de um mícron, eram muito pequenas. “Mas o que poderia ser tão pequeno assim?”, perguntou Hoyle a si mesmo. E, num repente, exclamou: “Uma bactéria!”

Demonstrar que a poeira galáctica está impregnada de bactérias é uma missão difícil. Embora tenha sido demonstrado que as bactérias refletem luz num espectro semelhante, ainda assim será preciso coletar poeira da imensidade cósmica para testá-la em laboratório. Embora Hoyle tivesse sido contestado na época, até hoje não se teve uma explicação melhor para o caso. E essa foi uma das razões que estimulou a ciência lançar naves espaciais com a finalidade de coletar poeira cósmica e amostras de meteoro, interceptando-os durante a trajetória de vôo nos céus.

Para nós, terrestres, a vida, ora numa dimensão ora noutra, existente nos dois planos de vibração da matéria, seria confundida com a vida do espírito. Portanto, postular a existência de vida sólida que se torna imaterial e ainda é capaz de voltar à condição anterior com o uso de tecnologia, isso é uma hipótese tão subjetiva quanto a existência do espírito ou a de seu criador

Em 1996, examinando um meteorito de 4,5 bilhões de anos, proveniente de Marte, que caíra na Antártida há 13.000 anos, o então presidente norte-americano, Bill Clinton, declarou que pesquisas efetuadas no meteorito revelaram ser possível algum tipo de vida simples em Marte, no passado. Curiosamente, duas décadas antes dessa declaração, as naves Vikings analisaram a superfície marciana. Fizeram dois testes: um deu positivo e outro, negativo, para traços de molécula orgânica em Marte. Então ficou a dúvida: houve vida ou não em Marte?

Em razão dessa dúvida, o mesmo teste foi repetido na Terra, na região da Antártida. O resultado foi o mesmo de Marte: um teste positivo de vida e outro negativo. Naturalmente, com o teste negativo, teria de ser dito que na Terra não existe vida. Um fato absurdo! Com efeito, o teste se revelara precário para detectar a presença de vida na superfície marciana. E, nesse aspecto, o trabalho feito pelas Vikings fora insuficiente. Desse modo, o meteorito de Marte foi considerado bem-vindo, pois deixou claro que essa questão somente poderá ser respondida com outros projetos espaciais em curso.

Vida inteligente fora da Terra — A possibilidade de existir vida fora da Terra desde há muito tempo tem fascinado o gênero humano. Afinal, se a vida surgiu e aqui se desenvolveu, por que o universo não teria gerado outros planetas com as mesmas chances da Terra? Ora, um evento único de geração de vida num universo infinito não é somente improvável, mas sim impensável. De acordo com alguns dados da astronomia, o universo “conhecido” do homem seria composto por 100 bilhões de galáxias e cada uma delas teria em média esse mesmo número em estrelas. A Terra é apenas um planeta na periferia de uma galáxia – a Via Láctea –, onde se estima ter 200 bilhões de estrelas.

Em 1961, o radioastrônomo Frank Drake, da Universidade da Califórnia, fez estudos no Observatório da Virgínia Ocidental para tentar uma comunicação via rádio com civilizações distantes. Ele formulou uma equação que define, em teoria, o número de civilizações tecnicamente avançadas possível de existir no universo. Em particular, equacionou a nossa Via Láctea. Após todos os cálculos efetuados, Drake concluiu que a probabilidade de existir vida inteligente no universo, na forma de uma civilização tecnicamente avançada, pode variar numa escala que vai desde um planeta em cada dez galáxias até 100 milhões de planetas numa só galáxia. Portanto, considerando a estimativa científica de existir no universo 100 bilhões de galáxias, mesmo no ponto mínimo dessa escala, encontraríamos dez bilhões de planetas com vida semelhante à nossa.

Contudo, em seguida, focando somente a nossa galáxia, a Via Láctea, Drake calculou existir ao menos 10.000 civilizações, podendo, inclusive, chegar ao número de 1,5 milhão de povos. É importante destacar que Drake fazia referência exclusiva ao espaço extrassolar, porque nos planetas do nosso sistema a ciência não tem mais esperança de encontrar vida inteligente, talvez apenas vida em forma de microorganismos. Desse modo, percebemos que as chances de vida no cosmos são imensas, e a panspermia, uma possibilidade fascinante. Mas, ainda assim, esse postulado não explica o surgimento da vida na Terra nem em qualquer parte do universo, apenas transfere o fenômeno para outras paragens siderais.

O evolucionismo do espírito — Em meio a essas possibilidades, emergiu uma de conteúdo imaterial, por assim dizer. Nesta, a vida seria criada por uma consciência que se estende pelo universo, a qual denominamos Deus. A Teoria Evolucionista do Espírito é abraçada por espíritas e geralmente pelos ufólogos espiritualistas. É preciso considerar que o mundo da ciência altera continuamente o saber humano com novas descobertas que modificam antigos conceitos, num processo de rejuvenescimento constante, mas ainda insuficiente aos anseios do homem que questiona a razão de sua própria existência na Terra. Nesse questionamento, o evolucionismo espiritual vem explicar ao homem como surge e progride a vida não somente na Terra, mas também em todo o cosmos. Mostra de onde ele veio, por que está aqui e para aonde vai.

Essa teoria é parte integrante de um amplo contexto espiritual que a absorve por completo: a Doutrina Espírita. Quando preciso, encontra nesse manancial os fundamentos de sustentação para articular novos pontos e desenvolver ainda mais a teoria, sem que isso comprometa a fonte de onde ela emergiu. Trata-se de produzir ensaios que devem ser comprovados com o tempo, nos moldes estabelecidos pela Doutrina Espírita, sua fonte de origem. O evolucionismo espiritual fundamenta-se na existência de Deus e nas suas criações: Espírito e matéria. Deus é inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas. Nele, está a origem de tudo.

Espírito é foco inteligente, entidade imaterial criada por Deus. Emergiu sem conhecimento de nada, mas com potencial psíquico auto-expansivo para aprender e evoluir sempre. É constituído da sublime quintessência psíquica, partícula consciente, refinada, indestrutível. Povoa todo o cosmos. Nos mundos universais, faz eclodir a vida e nela evoluciona. Para isso, obedece a “Lei dos Renascimentos”, organiza a vida nos reinos inferiores e neles prospera, atinge o reino hominal e evolui em mundos físicos, como a Terra, e em mundos ultrafísicos, usando um corpo sutil de outra dimensão do espaço-tempo. Para escolher seu rumo, possui livre-arbítrio. Exercendo a sua escolha, fica sujeito à “Lei de causa e efeito” para aprimorar a si mesmo, de modo que em suas vidas sucessivas a semeadura que faz é livre, mas a colheita do que plantou se torna obrigatória ao aprendizado. Utilizando-se da mediunidade, comum aos seres viventes, da dimensão espiritual comunica-se com o homem para que em ambas as esferas prosperem o amor e o entendimento, sempre necessários na jornada de progresso.

Matéria é o terceiro fundamento. Diferente da consciência espiritual, a matéria é uma concentração de átomos derivados do “plasma universal”. Dessa emanação primaz derivam todas as energias formadoras das dimensões sutis. E desse plasma, baixando a vibração, formam-se as matérias pesadas, constituintes de todos os mundos físicos. Assim, energia e matéria são os estados diferentes de um mesmo plasma, com o qual tudo no universo é formado. Surgem dessa emanação infindáveis habitações visíveis e invisíveis ao homem, mundos físicos e ultrafísicos na imensidão cósmica. O plasma universal possibilita ao espírito renascer se corporificando em substâncias mais ou menos materiais, encontradas na ampla gradação da escala energia–matéria desses mundos. Vivendo nessas habitações, a entidade encarnada produz um sistema capaz de dar a si mesmo o aprendizado que precisa para evoluir até atingir a perfeição.

Visão espírita da panspermia — A panspermia, no evolucionismo espiritual, não é a criação da vida, mas a maneira que a natureza criada por Deus tem de transladar os microorganismos para outras paragens cósmicas. É uma semeadura natural, cujas substâncias espermáticas podem ou não frutificar nos orbes em que irão assentar-se, dependendo das condições para germinação encontradas em cada orbe. A panspermia, além de um postulado científico e ufológico, é também uma divulgação espírita. Segundo registrou Kardec no livro A Gênese [1868]: “Quanto aos cometas, estamos hoje plenamente convencidos de que a sua influência é mais salutar do que perniciosa, parecendo eles destinados a reabastecer os mundos, se assim nos podemos exprimir, trazendo-lhes os princípios vitais que acumularam no seu curso através do espaço e nas vizinhanças dos sóis. Assim, pois, seriam antes fontes de prosperidade do que mensageiros de desgraça”. Portanto, numa frase: panspermia é a capacidade que a natureza tem de semear o princípio vital nos orbes do universo, independentemente de explicar como a vida foi gerada.

crédito: Arquivo UFO

A vida é uma metamorfose na matéria provocada pelo espírito, é o psiquismo que desperta irradiado na massa, é a consciência que ilumina infindáveis horizontes. É a voz misteriosa de uma multidão de seres que emerge das águas para marchar na terra com vontade própria de existir, é a voz do espírito que sabe se apropriar de um plasma vital para despertar na vida física. A vida física é a voz da criatura espiritual personificando a sua existência num corpo passageiro, é a voz do espírito imortal que sopra é vivifica a matéria temporária.

A geração espontânea da vida, segundo ensina o espiritismo em A Gênese [1868], capítulo sexto, item 18, é preparada nas profundezas etéreas do cosmos. O fluido cósmico universal, plasma Divino de que todas as substâncias físicas e ultrafísicas são derivadas, penetra os corpos como um oceano imenso. É nele que reside o princípio vital que dá origem à vida dos seres e a perpetua em cada globo, conforme a condição deste – princípio que, em estado latente, se conserva ali adormecido enquanto a voz de um ente não o desperta. E prossegue ensinando: “Cada criatura – mineral, vegetal, animal ou qualquer outra [Porquanto há muitos outros reinos naturais de cuja existência nem sequer suspeitais] – sabe apropriar, em virtude desse princípio vital universalista, as condições de sua existência e de sua duração”.

Figuras simétricas — Explica também que as moléculas do mineral têm certa soma dessa vida, do mesmo modo que a semente e o embrião, e se agrupam como no organismo, em figuras simétricas que constituem os indivíduos. “No início, a matéria cósmica primitiva se achava revestida não só das leis que asseguram a estabilidade dos mundos, mas também do universal princípio vital que forma ‘gerações espontâneas’ em cada mundo, à medida que se apresentam as condições da existência sucessiva dos seres e quando soa a hora do aparecimento dos filhos da vida durante o período criador”. E continua explicando que assim se efetua a criação universal. E é exato dizer que, sendo as operações da natureza a expressão da vontade divina, Deus tem sempre criado, cria sem cessar e criará eternamente.

O que realmente a vida nos tem revelado é que ela é um fenômeno fantástico que se apresenta disseminada por toda a Terra. Ela está presente nas regiões dramaticamente enregeladas, nas profundezas abissais dos oceanos, no cume nevado das altas montanhas, e na boca fumegante dos vulcões. Onde haja uma pequena oportunidade a vida desabrocha em sorriso e mostra sua face jovial, prosperando sempre. De que modo ela surgiu, não é fácil responder, mas certamente, para o cientista, a resposta ainda deverá ser buscada, enquanto para o crente, a questão é elementar, a própria natureza denuncia o Criador.

60 anos de Ufologia, 150 de Espiritismo

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Jul de 2007

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