ARTIGO

Movimentos de cultos aos ETs

Por Vanderlei D\'Agostinho | Edição 50 | 01 de Fevereiro de 2007

Uma crença de outro mundo
Créditos: Luca Oleastri

Movimentos de cultos aos ETs

Pense numa invasão de extraterrestres, subjugando a humanidade e tornando-a escrava de interesses ainda desconhecidos para nós. Talvez para sugar nossa energia vital ou extrair órgãos ou fluídos humanos necessários à manutenção de suas vidas. Quem sabe para a extração de recursos naturais de nosso planeta, que já não existiriam em seus locais de origem. Com base em estatísticas e evidências, a existência de vida inteligente em outros orbes e as visitas de seus emissários à Terra são fatos plenamente possíveis. E como ufólogos conscientes, precisamos considerar todas as hipóteses que justifiquem tais visitas, levando a sério as possibilidades acima descritas. No entanto, sempre lembrando que o senso crítico é condição básica para o estudo do Fenômeno UFO, tais opções permanecem ainda como especulação, a despeito de algumas correntes dentro da própria Ufologia, que as entendem como verdades irrefutáveis. Particularmente, prefiro manter a posição de que são apenas uma possibilidade a ser analisada. De qualquer forma, se as visitas extraterrestres tivessem as intenções descritas, seriam de fato um enorme perigo. Isso sem falar nas teorias conspiracionistas apregoadas por muitos de maneira exagerada, que garantem peremptoriamente que nossa sociedade já se encontra sob domínio oculto de entidades secretas. Ainda que pareçam contraditórias, em respeito aos colegas e ao conceito de que tudo é possível, vamos levar essa hipótese também em consideração neste trabalho.

Nesta introdução, falamos apenas de possibilidades e especulações, ao menos até que se prove de maneira inequívoca sua realidade. Neste artigo, no entanto, discorreremos sobre um perigo que é incontestavelmente real e unânime dentro da comunidade ufológica, em qualquer de suas vertentes. Ele está aí há algum tempo e já fez muitas vítimas. São as seitas e cultos ligados à Ufologia, ou que têm esta disciplina como ponto de apoio para seu desenvolvimento. Mais que conjecturas, a existência de seitas ufológicas é concreta, de conhecimento amplo e, pior, traz em seu bojo não uma expectativa de perigo, mas sim uma realidade que já se faz presente com todas suas nefastas conseqüências para os humanos, que são presos em suas teias. Este perigo, é claro, não reside apenas no cenário ufológico, mas tramita também na área religiosa, filosófica ou até mesmo política, se considerarmos a essência do assunto tratado. Mas vamos nos ater ao cenário de que trata essa revista, sem, no entanto, deixarmos de manter a mente aberta para outras áreas em que as situações aqui tratadas também se aplicam.

O mestre e os prosélitos — A palavra seita, segundo o dicionário Aurélio Século XXI, significa doutrina ou sistema que diverge da opinião geral, seguido por muitos. A obra também define as seitas como “um conjunto de indivíduos que professam a mesma doutrina ou uma comunidade fechada, de cunho radical”. Elas são descritas ainda como “a teoria de um mestre seguida por numerosos prosélitos. Uma facção ou partido”. A leitura atenta destas definições já dá uma idéia do mecanismo das seitas e nos leva a um grande número de considerações, que analisaremos a seguir.

“Doutrina ou sistema que diverge da opinião geral e é seguido por muitos”. Não temos aqui um perigo em si, já que a própria Ufologia, ainda que embasada em pesquisas sérias, estatísticas e evidências confirmadas por métodos reconhecidos, não deixa de ser um sistema que confronta a opinião geral e tem muitos adeptos. Já foi dito que a unanimidade é burra e os ufólogos – particularmente este autor – não aparentam ter o menor receio de pertencer a um grupo de pessoas que, apesar de tudo que já foi mostrado, constitui uma minoria em termos estatísticos.

“Comunidade fechada, de cunho radical”. Esta definição começa a se mostrar interessante para nosso estudo. Radicalização, por si só, é algo que devemos evitar. O estudo da História nos mostra quantas desgraças o radicalismo trouxe a milhões de pessoas ao redor do globo. Sendo esse radicalismo perpetrado dentro de uma comunidade fechada, multiplicam-se exponencialmente seus perigos. Pela definição dada, é difícil saber o que acontece nos bastidores de tais comunidades fechadas, podendo-se fazer elucubrações das mais variadas sem se ter certeza de nada. Essa falta de transparência torna-se não apenas mais uma variável nessa questão, mas também uma poderosa arma na mão do sujeito citado na definição seguinte.

“Teoria de um mestre seguida por numerosos prosélitos”. Temos aqui mais um sério agravante. Como toda teoria, ela não passa de um conceito que ainda não foi definitivamente comprovado por métodos científicos aceitos. Nada contra o termo teoria em si. Afinal, só para lembrar, a Teoria da Relatividade, de Albert Einstein, abalou os alicerces da Física. Alguns de seus pontos já foram verificados e comprovados e outros continuam no campo da especulação. Nem por isso tal tese e seu propositor deixaram de ter seus devidos valores reconhecidos. O problema aqui reside na palavra mestre. Além de ser aquele que ensina, na concepção popular, a idéia de mestre no contexto ufológico recebe uma conotação no mínimo perigosa: a de alguém superior aos outros. Este é um conceito subjetivo e que dá margem a enganos e imposturas. E o pior, “seguido por numerosos prosélitos” , ou adeptos.

Obviamente, uma análise das seitas ufológicas, suas características, origens, perigos e conseqüências, requer conhecimentos de antropologia, sociologia, psicologia e afins. Mas longe de ter a pretensão de ser um tratado, este artigo tem a intenção de levar aos leitores informações objetivas para que possam refletir sobre a importância do assunto, como também fazer um alerta aos pesquisadores da área ufológica, veteranos ou iniciantes. E ainda que possa parecer banal, cumpre lembrar o que é Ufologia: o estudo de objetos voadores, estáticos, submarinos ou espaciais, de origem supostamente extraterrestre e dirigidos de forma inteligente.

Oficialmente, existe vida inteligente somente em nosso planeta, a despeito dos números literalmente astronômicos que se apresentam nas atuais estatísticas. Estamos localizados em uma galáxia cujo número de estrelas chega a 400 bilhões, na melhor das expectativas, vagando entre outras 100 bilhões de galáxias, cada uma abrigando entre algumas dezenas e centenas de bilhões de sóis. Mesmo assim, apenas cerca de uma centena de planetas já foram detectados por via indireta na Via Láctea. E todos esses números crescem em proporção direta ao avanço da capacidade técnica dos astrônomos. Fácil seria, então, chegar à conclusão de que deve realmente haver vida inteligente no Universo, e eventualmente nos visitando, conforme os conceitos da Ufologia, baseados não somente em estatísticas mas em evidências visuais, eletrônicas, testemunhais etc.

crédito: Steve Neill
Seitas ufológicas são criadas em vários países por pessoas que alegam ter sido enviadas à Terra por ETs, para salvar seus habitantes
Seitas ufológicas são criadas em vários países por pessoas que alegam ter sido enviadas à Terra por ETs, para salvar seus habitantes

Ampliação de horizonte — A despeito desse arsenal matemático, ainda falta aos ufólogos uma prova definitiva e inequívoca da presença extraterrestre em nosso planeta, a ser compartilhada com aqueles que não concordam com essa possibilidade. Se conseguiremos isso um dia? Isso é tema para uma próxima oportunidade. Mas já podemos contar com algumas reações em nossa sociedade, baseadas na possibilidade central colocada pela Ufologia. Qualquer que seja seu futuro, ela lança sementes extremamente interessantes no que diz respeito ao fato do ser humano ampliar sua visão, não só cosmológica como também no que concerne ao seu próprio ser. A simples pergunta “estamos sós no Universo?” sempre foi uma força motriz para tentarmos alcançar níveis mais elevados de conhecimento e entendimento. Entretanto, nem tudo são flores nessa questão, que ultrapassa o debate técnico e já quase se coloca como filosofia. Essa mesma busca fez nascer uma quantidade enorme de movimentos, nem sempre com as melhores intenções, que podem e devem ser conhecidos por todos, ufólogos ou não.

Tendo em mente que o assunto em pauta requer muito discernimento e senso crítico, vamos examinar os motivos que levam ao surgimento de uma seita, seja ela de qualquer motivação. Tem-se como comum o fato de uma seita estar baseada em motivos religiosos. Lembrando que estão gravados firmemente no inconsciente humano a religiosidade, a existência de ser(es) superior(es) e seus símbolos, temos na própria essência do ser humano os ingredientes necessários para a criação de movimentos cultistas. Sua forma de apresentação é que se diferencia ao longo do tempo, levando em conta as características da época, cultura vigente, momento social, econômico etc. A essência das seitas, no entanto, pouco muda. Para um melhor entendimento, vamos viajar do micro ao macro, ou seja, das características pessoais e individuais das pessoas ligadas a uma seita até sua relação dentro da sociedade. Um dos personagens centrais dessa análise é o líder destes movimentos, em torno do qual os seguidores se fixam.

Há três categorias de líderes, conforme sugere a psicóloga Maria de Lourdes Silva: aquele que é bem-intencionado, o que tem algum desvio de conduta – eventualmente patológico – e o literalmente charlatão. O líder da primeira categoria traz consigo uma carga de conhecimentos que pode estar, num primeiro instante, preenchendo necessidades e carências de seus adeptos em variados setores da vida – tais como afetivas, emocionais, familiares e sociais –, que os fazem sentir-se aliviados de seus fardos. Essa procura do potencial adepto por uma condição mais satisfatória é uma porta de entrada para o líder em sua vida, que tem inatos certos atributos, como boa oratória, gesticulação pertinente e outras técnicas das quais falaremos mais adiante. Vale lembrar aqui que esse líder e, por conseqüência, tal seita ou culto, não é, por si só, pernicioso para a sociedade ou para aqueles que o seguem. Este líder acredita realmente naquilo que apregoa e tem normalmente objetivos considerados por ele nobres, que procura dividir com outras pessoas.

Processo mental — Não podemos – nem devemos – criar em pleno século XXI uma nova inquisição, colocando na mesma condição todas as pessoas que têm uma forma diferente de ver o mundo e de interagir com o mesmo. O respeito ao diferente deve sempre imperar. Mas quando o futuro líder começa a se ver como um real líder? Qual é o processo mental que acontece entre o achar algo e o devo fazer algo em relação a isso e trazer comigo quem mais se interessar? Via de regra, o líder – que também pode ter as mais diversas carências – procura estudar o assunto pelo qual se interessa de maneira profunda, adquirindo conhecimentos que poucos têm. A partir do momento em que esse conhecimento se torna um grande diferencial entre ele e a média das pessoas, cria-se em sua mente a concepção de que pode e deve ajudar terceiros em suas jornadas.

Estado patológico — Entra aqui um ponto importantíssimo para esta análise, principalmente com os meios de comunicação que temos hoje em mãos. Já consideraram os leitores quanta informação nos é despejada 24 horas por dia, seja via televisão, rádio, internet, jornais impressos etc? Mas qual é o real perigo que essa enxurrada de informações acarreta? De um lado, temos os meios de comunicação, que nem sempre primam pela qualidade da informação passada, e do outro o receptor, que nem sempre tem senso crítico e conhecimento específico de determinado assunto para diferenciar uma informação digna de confiança de outra que não seja. Feita essa observação, voltemos à figura do líder. Uma vez iniciado o processo de surgimento de um líder classificado como bem-intencionado, esse começa a espalhar sua mensagem pelos meios que dispõe, composta de informações colhidas de formas diversas, indo do que aflora de sua própria mente àquelas emprestadas de meios externos. Considerando que em ambos os casos há a possibilidade de falhas, conforme a observação que se fez acima sobre os meios de comunicação, chegamos em um ponto de extrema importância nessa análise.

Ainda que partindo de fatos facilmente observáveis – situações de guerra iminente, grandes cataclismos e ameaças ao meio ambiente, por exemplo –, o líder oferece aos seus adeptos caminhos a serem seguidos, que de forma alguma podem ser verificados. Esse é um dos pontos cruciais das seitas: a partir do momento em que as soluções oferecidas não podem ser comprovadas, temos o contrário como verdade. Tais afirmações não podem também ser desmentidas de forma objetiva e, assim, fica o dito pelo não dito. E o líder tem caminho aberto à frente para implantar seu sistema de crença em maior escala, sem oposição efetivamente clara.

É bom observar aqui que o senso crítico, seja do líder ou do adepto, já está em maior ou menor grau prejudicado. Lembrando que o tal senso crítico é inerente à normalidade, a falta do mesmo é indicador de um possível estado patológico, cujos níveis devem ser considerados caso a caso, não havendo uma situação que possa englobar todas as pessoas como sendo portadoras de alguma psicopatologia. O senso crítico é, portanto, o ponto de partida para que o potencial líder e o potencial adepto façam escolhas corretas no sentido de não caírem em armadilhas formadas pelos seus próprios estados de carência ou insatisfação.

Mas o que o líder pode oferecer para atrair adeptos? Como os estados de insatisfação com determinadas situações internas ou externas são o ponto de partida tanto para a formação do líder como do adepto – e, por conseqüência, da própria seita –, consideremos determinadas situações hipotéticas. Imaginemos alguém cuja vida profissional e financeira está em crise, levando-o a perder seus bens pessoais, crédito, casa etc. Imediatamente, vem à mente dessa pessoa uma insatisfação ou carência, cuja solução será o oposto da situação atual. Ou seja, a procura por um ambiente em que haja abundância material, dependências lindamente ornamentadas e mobiliadas ou, quem sabe, um belo e enorme sítio ou fazenda com agradáveis paisagens naturais. Isso, a priori, faria o indivíduo sentir-se mais seguro, se comparado com a pequena casa, agora alugada e em um distante subúrbio, onde mora. Se o líder puder oferecer isso e o senso crítico do possível adepto estiver falho, teremos então um forte candidato a seguidor da seita.

É claro, no entanto, que não somente pessoas com dificuldades financeiras seguem determinadas seitas. Para entender isso, voltamos novamente à análise das carências. Imaginemos uma outra situação em que determinada pessoa tem sua vida familiar e social conturbadas por vários motivos. Alguém que lhe dê um abraço, um olhar amigo ou contato físico amistoso será objeto de admiração e, eventualmente, uma necessidade. E quem recebe este tratamento pode se tornar mais um candidato a seguidor da seita do líder. E como essa, poderíamos descrever inúmeras situações com a mesma natureza intrínseca, embora os exemplos dados sejam suficientes para se entender como funcionam os processos de aproximação do adepto a um movimento de culto. Mas não basta ao líder apenas fornecer o estímulo que falta para agregar novos membros. É necessário também o convencimento. Entra aqui não somente o âmago da mensagem, mas também as técnicas para tal convencimento. Quanto à mensagem, o líder se mostra uma figura carismática e profunda conhecedora do ponto central da seita, ainda que com informações inválidas ou não verificáveis. É também amigável e chega muitas vezes à adulação. Apresenta-se como um conselheiro, até mesmo usando meios materiais para manter a relação adepto-líder. Claro, tudo isso se refere ao líder que classificamos como bem intencionado, que faz tudo isso pensando no bem-estar do adepto.

Desvio de conduta — Vamos um passo adiante e vejamos agora o que acontece quando surge a figura do líder bem-intencionado, porém com algum desvio de conduta e em estado potencialmente patológico. Permanecem as observações feitas até aqui, mas com alguns agravantes. Esse segundo tipo de líder – ainda de acordo com a classificação da psicóloga Maria de Lourdes Silva – tem suas faculdades de senso crítico e discernimento já esvaídas pelos mais variados motivos. Assim, ele potencializa de forma perigosa as características do tipo anteriormente descrito. Nessa categoria, via de regra, o líder se julga um enviado para a solução de determinados problemas por ele abordados. Pode alegar estar sob comando de um ser ou seres superiores, de quem alega receber informações sobre a conduta humana através de intuições, visões ou revelações, que novamente nos remetem à já citada necessidade inerente do ser humano de se apegar a uma entidade superior ligada à religiosidade e aos símbolos.

No entanto, quando mal direcionada ou trabalhada internamente, essa necessidade faz surgir uma figura perigosa para os incautos que com ele têm contato. Temos aqui um tipo de líder com um poder de convencimento maior do que o primeiro, visto que sua visão daquilo que acha ser sua missão já é para ele uma fixação, uma verdadeira cruzada contra um inimigo comum. A propagação da existência desse ilusório inimigo – que pode ser o sistema vigente, os governos ocultos, o anticristo, os extraterrestres não-confederados etc – passa a ser uma arma essencial para manter o grupo coeso, pois, além do preenchimento das necessidades acima citadas, cria-se uma visão comum a todos sobre os opostos: somos nós contra eles. Isso gera a idéia, também segundo o jargão popular, de que ou vencem eles, ou vencemos nós. Ou seja, o uso da dicotomia como forte instrumento de recrutamento e permanência do seguidor. Tal posicionamento, aliado à falta de senso crítico – que é pré-requisito de estados patológicos –, pode gerar um movimento radical, levando o líder e seus seguidores a ações que venham a trazer prejuízos dos mais variados, indo do isolamento social até mesmo ao risco às suas próprias vidas.

Exagero? Certamente, não. Basta lembrar a tragédia ocorrida em 1978, quando centenas de seguidores de Jim Jones foram levados ao suicídio nas Guianas, ou em 1997, quando os seguidores de Applewhite, da seita Heaven’s Gate, tiveram o mesmo destino na Califórnia. Percebam que em ambos os casos os líderes tiveram o mesmo fim trágico de seus prosélitos. Isso vem confirmar o nível patológico em que se encontravam, visto que acreditavam tão piamente naquilo que propalavam que chegaram a exterminar suas próprias vidas. Podemos observar, nesses exemplos, como é perigoso o contato e envolvimento com tais pessoas, uma vez que seu poder de convencimento é muito maior do que aquele que acredita em algo, porém mantendo seu nível de senso crítico em condições, digamos, aceitáveis. É importante lembrar que, além de condições psicopatológicas, há também desvios de conduta de origem física. Descompensações enzimáticas, deformidades físicas e problemas de origem neurológica são alguns exemplos. Novamente, de que forma e com que intensidade esses problemas médicos podem ocasionar uma conduta doentia ainda são temas de discussões na área médica, devendo a análise ser feita caso a caso, sem generalizações.

Líderes charlatões — O surgimento de uma seita acontece de forma natural e quase imperceptível, o que constitui mais um grande perigo. A princípio, a própria mensagem do líder aglutina simpatizantes que, eventualmente, vêm a se tornar um grupo mais organizado. Na seqüência, essa organização pode vir a gerar até uma religião institucionalizada, como aconteceu com várias no ocidente e no oriente. Mas, além da mensagem, outros fatores externos podem vir a iniciar o aparecimento de cultos e seitas. O milenarismo é um deles, o que nos remete ao fator símbolo anteriormente citado. O encerramento de um milênio – e a História mostra que a essência desse conceito pode gerar movimentos em fechamento de séculos também – traz a imagem numérica de final e início de um ciclo, nascendo daí a necessidade de uma mudança, seja de parâmetros sociais, éticos ou religiosos. Como toda mudança traz necessidades diversas, voltamos ao caso de criar terreno fértil para a disseminação de lacunas em nosso modo de pensar e ver as coisas que nos rodeiam – lacunas essas facilmente preenchidas por sistemas de crença nem sempre com embasamento qualificado.

Vamos falar um pouco agora sobre o líder charlatão, uma expressão que pode parecer jocosa, mas não é. A língua portuguesa o define como “explorador da boa-fé do público, impostor, embusteiro e trapaceiro”. O processo de criação de uma seita tendo um charlatão como líder se dá com o objetivo de se auferir vantagens pessoais de forma antiética e/ou ilegal. Via de regra, o charlatão não cria algo novo. Pelo contrário, se apropria de idéias e conceitos já existentes ou, dentro de algum seguimento que verifica ser potencialmente rentável, redireciona tais conhecimentos para sua própria realização pessoal, seja ela financeira ou social. Como nesse caso o líder não tem algo de realmente novo a oferecer, faz uso de variadas técnicas para incentivar a aproximação de eventuais seguidores. Entonação de voz adequada, postura corporal atraente aos olhos, técnicas de programação neurolingüística e até mesmo prévio conhecimento de artes dramáticas são alguns dos caminhos utilizados pelo charlatão para manter seus adeptos presos em suas garras.

Há também, e isso é muito importante para análise, as técnicas que são empregadas na conquista e manutenção dos adeptos. A privação do sono, alimentação inadequada, isolamento social e gradual doutrinação são algumas delas. Essas técnicas podem ser utilizadas em seguidores que já mantêm até mesmo uma moradia junto ao líder – como em retiros, fazendas ou comunidades –, ou mesmo nos visitantes esporádicos, quando esses permanecem por tempo necessário para que tais ferramentas façam efeito. E, claro, tais efeitos se direcionam exatamente à capacidade de crítica do potencial seguidor. O leitor já se deu conta de que seu raciocínio fica prejudicado após longos períodos de vigília ou quando está mal alimentado? Pode-se perceber neste simples exemplo o quanto situações como essas aumentam o perigo de adesão à seita, já que o embusteiro usa de todas as ferramentas à sua disposição de forma ordenada e direcionada para desviar os incautos de uma postura e ação corretamente analisadas perante sua seita.

crédito: Freedom Fighters
Cena da tragédia ocorrida em 1978, quando centenas de seguidores do guru Jim Jones foram levados ao suicídio coletivo nas Guianas
Cena da tragédia ocorrida em 1978, quando centenas de seguidores do guru Jim Jones foram levados ao suicídio coletivo nas Guianas

A título de exemplo temos um caso acompanhado por este autor, ocorrido com um jovem que chamaremos apenas de Marco. Curioso sobre Ufologia, Marco esteve durante um fim de semana prolongado em uma dessas seitas com as características acima. Em seu relato sobre os fatos que se deram durante sua estada ficaram claras algumas dessas ferramentas citadas. Após vários dias do que os coordenadores da seita chamaram de “preparação”, através de meditações, caminhadas cansativas, técnicas supostamente energéticas, mas sem resultados mensuráveis e longas vigílias, as centenas de pessoas ali presentes estariam finalmente “prontas” para um contato. Não especificamente com discos voadores ou extraterrestres, mas com o líder da seita, já que toda a preparação estava direcionada para isso. Sim, porque o tal líder nem sequer estava presente durante os procedimentos, indo ao local somente no último dia, após todo um processo de envolvimento que culminaria com sua chegada.

Caso o avistamento de algum UFO ou extraterrestre acontecesse, a chegada messiânica do líder superaria os resultados esperados. Mas não foi isso que aconteceu com Marco, pois, segundo os tais coordenadores, “as energias não estavam satisfatórias”. Felizmente, Marco não caiu na armadilha emocional criada para atraí-lo e hoje continua uma pessoa emocional e socialmente sadia. “Minha ida àquele local foi uma viagem interessante apenas como turismo, apesar de ter gasto algumas centenas de reais com a promessa de ver discos voadores”, declarou ao autor. Voltaremos a esse caso específico um pouco mais à frente em nosso texto, com detalhes interessantes.

As vítimas das seitas — Mas como os adeptos encaram os fatos, já que são, numericamente falando, as maiores vítimas das seitas? Quantitativamente porque, como vimos até aqui, o próprio líder também pode ser uma vítima de suas convicções, ainda que um único líder possa gerar dezenas, centenas e até milhares de seguidores. Como se sabe, é característica de um seguidor de seitas ter alguma carência que pode ser eventualmente preenchida por um culto, através de seus conceitos e proposituras. Isso torna o potencial adepto uma presa para o líder, que encontrará nela um apoio e imagem de continuidade para suas idéias. É nesse ponto que vemos que o processo é de mão dupla, onde um é referência para o outro, criando-se, então, uma verdadeira bola de neve. A diferença entre um líder e um adepto é que o último vê no primeiro um ser superior, com grandes conhecimentos. Eventualmente, o adepto vê no líder a figura de um enviado, que lhe dará as soluções para seus conflitos internos. Lembrando que nem toda seita é necessariamente perniciosa, o uso do senso crítico é agora condição indispensável para que sejam evitados verdadeiros desastres, de variados graus. É comum verificarmos nos adeptos uma situação recorrente. Via de regra, procurando preencher lacunas, tal pessoa passa por vários sistemas de crenças, experimentando cada uma delas até que, num determinado ponto, chega à conclusão de que achou o que irá satisfazer suas necessidades.

Dependendo do nível de senso crítico que possua, tal encontro não será necessariamente nefasto. Uma análise criteriosa do que se passa dentro de determinada seita – se suas propostas fazem sentido ou não, se o líder se mostra ponderado em suas idéias e ações, e se realmente o que lhe é oferecido é o que de fato precisa – é o diferencial entre aquele que adere a um determinado padrão de conduta ou não. Visto que o adepto pode ter esse senso crítico prejudicado, ele poderá eventualmente se agregar a um seguimento que lhe fará mais mal do que bem. Se o bom senso imperar dentro de sua mente, no entanto, ele saberá distinguir o que lhe é bom. Mas sempre há a possibilidade de que tal senso crítico esteja de tal forma falho, que possa vir a permitir um estado patológico.

Conseqüências imprevisíveis — O grande perigo acontece quando o adepto e o líder se encontram a caminho ou já em estado patológico. É quando se une o inútil com o desagradável, com conseqüências imprevisíveis. Uma das características da patologia dos cultos e seitas pode ser detectada quando o adepto se separa de todo convívio social e familiar que tinha até então, se dedicando exclusivamente ao seu novo mundo. E quando esse novo mundo pode ser caracterizado por não ter bases sólidas ou ter como figura central um líder com desvios de conduta ou dentro da categoria do charlatanismo. Se após algum tempo na seita o adepto resolve por conta própria se afastar da mesma, é sinal que mantém sua sanidade mental intacta, fazendo bom uso de seu poder de crítica. Se isso não acontece, podemos temer pelo pior, ainda que o adepto não tenha, necessariamente, algum tipo de patologia exacerbada. Mas não vamos nos esquecer que os casos devem ser analisados um a um.

O que faz alguém permanecer ou não dentro de uma determinada comunidade é o peso que aquilo que lhe é oferecido tem em seus padrões de necessidade. Entra aí, em especial com os líderes charlatões, a identificação das necessidades e posterior tentativa de preencher essas lacunas de tal forma que o adepto se torna prisioneiro das artimanhas do líder. E o que faz o adepto largar todo o contexto social em que vivia antes é, geralmente, o conceito disseminado pelo líder de que eles – líder e adeptos – são tão especiais que o convívio com pessoas que não comungam das mesmas idéias pode contaminar a pureza de seus objetivos. Eis o perigo que essa situação traz. Mas o que podemos fazer, então, para afastar o adepto da seita, quando se verifica que esta pode vir a ser prejudicial? “Este é um longo e trabalhoso processo”, lembra a citada psicóloga. “Devemos, antes de qualquer coisa, diferenciar com que tipo de seita a pessoa está envolvida”. Recordando que o líder do tipo bem-intencionado não oferece, a priori, maiores perigos, vamos direcionar essa discussão aos cultos charlatanescos e aos com desvio de conduta, eventualmente patológicos. O primeiro caso, naturalmente, é puramente policial. Há que se encontrar na conduta de tal comunidade itens que possam estar infringindo as leis vigentes e fazer uso dos instrumentos legais.

crédito: João Nepomuceno
Adeptos de seitas crêem que rezas e orações tenham o condão de conectá-los a entidades superiores, inclusive seres extraterrestres
Adeptos de seitas crêem que rezas e orações tenham o condão de conectá-los a entidades superiores, inclusive seres extraterrestres

Dinheiro e sexo — A existência de esquemas financeiros, uso de drogas e desvios de condutas sexuais são alguns exemplos de itens que devem ser procurados nessas seitas, para que as mesmas e seus líderes respondam criminalmente pelos delitos. Uma vez comprovadas tais situações, o líder pode ser levado às barras da Justiça e ter sua imagem prejudicada perante a comunidade, fazendo com que os seguidores mais atentos venham naturalmente a se afastar do grupo. Retirar o líder do comando de forma definitiva, ou mesmo mostrar suas verdadeiras intenções, já é meio caminho andado para a dissolução do grupo. A outra metade do caminho reside na própria mente do seguidor. Vejamos um exemplo interessante, voltando um pouco ao caso Marco. Sua visita ao local onde se reúnem os seguidores da seita foi decorrente do insistente convite de uma conhecida. Após seu passeio turístico à fazenda da entidade, acabou perdendo contato com essa conhecida, vindo a encontrá-la tempos depois, após o líder de tal seita ter sido acusado de falcatruas – inclusive, com sua imagem como embusteiro sido veiculada pela imprensa. Ao indagar sua conhecida sobre como se sentia com tal situação, a resposta foi, no mínimo, digna de análise: “Não estou mais com ele. Mas em compensação, encontrei um outro grupo que é maravilhoso e você tem que conhecer”.

Processo gradual — No segundo caso apresentado, assim como no primeiro, o envolvimento da família é essencial. Ela tem que estar atenta ao que se passa logo no início da aproximação da pessoa com o referido culto, suas características e objetivos. Caso o reconhecimento de tal movimento como sendo perigoso se dê muito tarde, será necessário um trabalhoso processo de ajuda dos familiares no sentido de mostrar ao adepto que a realidade é diferente daquilo que ele pensa ser. Dar apoio emocional e se colocar à disposição para ouvir o que o seguidor tem a dizer são atitudes essenciais no primeiro instante. Num processo gradual, deve-se tentar afastá-lo fisicamente do grupo, sugerindo viagens ou passeios que dispersem um pouco sua atenção em relação à rotina da comunidade e assim, aos poucos, ir quebrando a lealdade que o seguidor nutre em relação ao líder e ao grupo. Em um estágio mais adiante se pode contestar as posições e atitudes do líder sem, no entanto, entrar em conflito com a vítima. Não se espante, caro leitor, caso note na situação apresentada alguma semelhança com a dependência de drogas. O processo é realmente muito parecido.

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Sobre o Autor

Vanderlei D\'Agostinho

É professor de inglês e Tai Chi Chuan.

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