Edição 36
DESTAQUE

Em busca de novas realidades

Por
01 de Sep de 2005
Créditos: Daniel F. Gevaerd

O primeiro vôo espacial tripulado para a Lua ocorreu no ano de 1971, quando a nave Stardust, comandada pelo astronauta Perry Rhodan, decolou movida por seu primeiro estágio de propulsão química. A seguir, acionou o segundo estágio com propulsão nuclear, a fim de que a espaçonave principal (vagamente semelhante ao conhecido Space Shuttle), também com propulsão nuclear, chegasse ao nosso satélite natural.

Os fatos descritos acima são apresentados nas páginas da extensa e cultuada série alemã de livros Perry Rhodan, criada na primeira metade dos anos 60. Essa série foi pioneira em muitos dos aspectos da Ficção Científica, como as viagens com velocidades superiores a da luz utilizando-se dos hipersaltos (antes da velocidade de dobra de Jornada nas Estrelas), a formação de um exército de pessoas dotadas de capacidades paranormais, muito antes dos mutantes X-Men, e incontáveis outros temas.

A escolha por iniciar esta edição de UFO Especial com o tema Ficção Científica, fazendo essa descrição, objetiva mostrar um dos vários exemplos de como nossa realidade acaba não apenas cumprindo o que a ficção antecipa em seus romances, contos, seriados ou filmes, mas também como tais profecias terminam sendo superadas pelos avanços reais do conhecimento humano! No tema viagem a Lua, o vôo da Apollo 11, nave pioneira na conquista de nosso satélite natural, ocorreu dois anos antes que o da Stardust da ficção, em 1969, e com meios muitíssimo mais modestos, utilizando-se apenas de foguetes de propulsão química.

Já disse o cineasta Steven Spielberg, a Ficção Científica é o gênero mais livre de todos e, exatamente por isso, explora inumeráveis facetas do ser humano e de suas atividades, seus desejos, terrores, valores e esperanças. Fazendo isso, celebra antes de tudo o gênio, a imaginação e a busca de nossa espécie pelo saber e conhecimento que, em um tempo tão curto pelos padrões cósmicos, e através da obra de incontáveis cientistas, artistas e pensadores de todos os cantos do mundo, ao longo da história humana, já nos levou a questionamentos profundos sobre o universo e nosso lugar no mesmo.

Protesto contra o rigor dogmático — A origem do gênero perde-se nos momentos históricos, mas é consenso que uma das obras pioneiras mais importantes é O Somnium, de Johannes Kepler, o sábio que, entre os séculos XVI e XVII, elaborou as três leis do movimento planetário que levam seu nome. No romance, ele narra uma viagem a Lua, ao mesmo tempo argumentando que, em um sonho, tudo é possível. Era também um protesto contra o rigor dogmático, a falta de liberdade de pensamento e a expressão que existiam na época, comprovando outra característica fundamental da Ficção Científica, a crítica social. De qualquer forma, a proposta de realizar uma edição de UFO Especial tratando do tema Ficção Científica nada tem de contraditória, pois um dos pilares do gênero sempre foi o contato com seres estranhos e a viagem a planetas distantes, levando ao extremo o desejo da humanidade de explorar novos mundos, audaciosamente indo onde ninguém jamais esteve. É claro que o leitor atento verá nessa última frase uma citação a um dos mais brilhantes e bem sucedidos universos da Ficção Científica, Jornada nas Estrelas. Que será, evidentemente, objeto de um dos artigos seguintes.

Por agora, podemos afirmar que a face mais especial e otimista dessa inigualável criação de Gene Roddenberry é o fato de mostrar que a humanidade, em sua busca contínua pelo conhecimento, e apesar da Terceira Guerra Mundial (que ocorreu nesse universo), deu certo, evoluindo para uma mentalidade em que a desunião, egoísmo, ganância, futilidade e o preconceito foram superados. O desafio passou a ser aperfeiçoar-se pessoalmente e a sociedade em que se vive. Será por essa visão utópica, e alguns dirão ingênua, que o programa ainda hoje sofre tantos ataques vazios?

Ao longo da história, o enfoque dado aos alienígenas mudou tremendamente dentro da Ficção Científica, obviamente espelhando os acontecimentos sociais de cada época. Os extraterrestres já foram maus, utilizados como paródia do perigo comunista na época da Guerra Fria, ou bons, expressando o sincero desejo de conforto de muitos, angustiados pela estressante rotina moderna. É interessante ver que, em tempos de conflagração como os atuais, para não dizer também de paranóia, a maioria das produções voltou a exibir ETs agressivos. Isso é o que torna interessante uma produção como Taken, também comentada em edições de UFO, em que os aliens são muito próximos a nós terrestres, como seres buscando conhecimento e sua própria razão de ser.

Comodidade de idéias preconcebidas — A intenção desta edição de UFO Especial, mais que apenas comparar Ufologia e Ficção Científica, ou descrever o enfoque dado aos alienígenas em tantas obras, é bem distinta dessa idéia simplista. Pois ambas, tanto o gênero artístico representado pela Ficção Científica, quanto o conjunto de conhecimentos com vocação para ciência que é a Ufologia, são antes de tudo elementos da cultura terrestre caracterizados por confrontar e abalar as bases da mesma. Ufologia e Ficção Científica são contestadoras e nada fáceis para mentes não “iniciadas”. Seguramente, não são para aqueles interessados apenas num breve conforto das angústias deste princípio de século. Já dizia Charles Darwin que a ignorância produz confiança com mais freqüência que o conhecimento.

O fato dos temas serem tão combatidos mostra o quanto incomoda aqueles que preferem a comodidade das idéias preconcebidas e as certezas do que vêem como “normal”. Sempre foi assim na história humana, o diferente, contestador e que exerce seu direito de pensar de forma independente é sempre, via de regra, perigoso, até mesmo subversivo! É muito mais fácil e rápido, sem falar conveniente, que se aceite as opiniões e dogmas prontos. Questionar e pensar estão, infelizmente, “fora de moda”. Confrontando o pensamento comodista, esta edição traz uma variada gama de assuntos, pois também como a Ufologia, a Ficção Científica reúne uma série de disciplinas em suas obras, como o leitor poderá conferir nas páginas seguintes.

O objetivo final, sem dúvida, é demonstrar que, ao contrário do que os críticos mais apressados afirmam, os princípios e valores da Ficção Científica aplicam-se, sim, ao dia a dia da sociedade! Muito do que se discutirá nas páginas a seguir aplica-se também a pesquisa ufológica. E é importante em tempos tão turbulentos, quando parece que o senso crítico está se perdendo, que não apenas a Ufologia, mas a própria sociedade, reflita a respeito de tantos universos, cuja atribuição primeira, como o foi desde os primórdios da Ficção Científica, seja nos instigar e fazer pensar. Deixo aqui um agradecimento especial aos colegas e amigos que deram sua contribuição para esta edição de UFO Especial.

Ficção Científica e Ufologia: até que ponto uma influencia a outra?

Já está no ar a Edição 36 da Revista UFO. Aproveite!

Sep de 2005

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