Edição 214
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Eles viriam de Urano?

Por
01 de Aug de 2014
Créditos: RAFAEL AMORIM, exclusivo para a revista ufo

Em meados de agosto de 1947, uma enigmática carta chegou à redação do jornal Diário da Tarde, de Curitiba. Um jornalista que assinava seus artigos como Lamartine decidiu publicá-la em 05 de agosto daquele ano com alguns comentários, apesar de a narrativa ser incrível. Talvez o tenha feito porque seu remetente era, aparentemente, uma pessoa culta, um topógrafo chamado José C. Higgins. Ele contou que, em 23 de julho daquele ano, estava fazendo alguns trabalhos topográficos a alguns quilômetros a oeste da Colônia Goio-Bang, localizada a nordeste de Pitanga e a sudoeste de Campo Mourão, bem no centro geométrico do Paraná, quando algo espantoso ocorreu.

Ao cruzar um descampado da região, Higgins escutou um longo assovio que o fez levantar os olhos para o céu. “Vi então algo que me deixou de cabelos em pé. Era uma estranha nave de forma circular com as bordas exatamente iguais aos de uma cápsula de remédio e que descia do espaço. Meus homens, todos simples lavradores, fugiram apavorados ante ao que viram. E eu até hoje não sei por que fiquei”. O estranho objeto voou em círculos fechados sobre o terreno até aterrissar suavemente a uns 50 m de onde o topógrafo estava. Continua Higgins: “Era surpreendente. Tinha aproximadamente 30 m de diâmetro e a grossura de um metro, além de uns 5 m de altura no total. Aquilo era atravessado por tubos em diversas direções, seis deles emitindo um ronco, mas não expeliam fumaça”.

O incrível caso ufológico relatado pelo topógrafo ocorreu a menos de um mês do início da chamada Era Moderna dos Discos Voadores, cujo marco é 24 de junho de 1947. Ou seja, nem bem começava a discussão em torno dos discos voadores no planeta e o Brasil foi local de um contato desta magnitude. Vejamos mais da descrição de Higgins em sua carta. “A parte [Do aparelho] que tocou o solo era apenas a que correspondia a pés arqueados, que se curvaram um pouco mais ao aterrissar. Parecia feito de um metal branco-acinzentado, mas diferente da prata. Enquanto observava a nave, sem tocá-la, uma parte da parede correu, mostrando uma janela coberta de cristal ou algo similar. Então vi duas ‘pessoas’ que estavam me observando curiosas”.

José C. Higgins disse então ter ouvido um ruído por baixo da borda do disco. Contou que dele se abriu uma porta por meio da qual saíram três seres vestindo um tipo de macacão transparente que os envolvia completamente, incluindo a cabeça. “Estavam inflados como uma câmara de ar comprimido em um pneu. Nas costas tinham uma mochila de metal que parecia parte integrante da vestimenta. Através do macacão dava para ver perfeitamente as pessoas vestidas com camiseta, bermudas e sandálias, que pareciam de papel brilhante”. Os tripulantes tinham um aspecto esquisito para o topógrafo: olhos muito redondos e grandes, sem sobrancelhas nem pestanas. Também eram carecas e não tinham barba — suas cabeças eram grandes e redondas e as pernas eram mais compridas do que as proporções que conhecemos. Quanto à altura, Higgins disse que eram uns 30 cm mais altos do que ele, que tinha 1,8 m de altura.

“O mais extraordinário é que pareciam irmãos gêmeos, tanto os que usavam o macacão como os outros dois que estavam atrás da janela e não usavam. Um deles segurava um tubo pequeno do mesmo metal do aparelho e apontava para mim. Percebi que falavam entre si, mas eu não os entendia. Nunca ouvi uma língua como aquela, mas era agradável e sonora”, descreveu o homem, provavelmente a primeira testemunha de um caso de contato direto com seres extraterrestres da história.

Estranho diálogo gesticulado

Mas os tripulantes do disco voador, apesar de seu avantajado porte físico, se moviam com grande agilidade, formando um triângulo ao redor do topógrafo. “O que esgrimia com o tubo me fez sinais indicando-me para que entrasse no aparelho. Ante o gesto cordial, me aproximei da porta e só pude ver um cubículo limitado por outra porta interior e a ponta de um tubo que vinha de dentro. Além disso, vi diversas claraboias que rodeavam a borda do objeto”. Higgins conta que começou a falar com eles, também com muitos gestos, perguntando-lhes aonde queriam levá-lo. Eles aparentemente compreenderam a gesticulação e aquele que lhe pareceu o chefe da tripulação fez, no chão, um ponto redondo cercado de sete círculos.

Os seres vestiam um tipo de macacão transparente que os envolvia completamente, incluindo a cabeça. Estavam inflados como uma câmara de ar comprimido. Nas costas tinham uma mochila de metal que parecia parte integrante da vestimenta

Mostrando o Sol no céu, o chefe apontou para o ponto central e depois para o sétimo círculo, indicando ele e o aparelho alternadamente. Higgins emudeceu ante aquela situação e refletiu: fugir era impossível, pois eles eram mais fortes física e numericamente. “Tive uma ideia. Entendi que eles evitavam ficar expostos ao Sol. Deste modo, me dirigi para a sombra e, tirando minha carteira do bolso, lhes mostrei um retrato de minha esposa e sugeri que iria buscá-la. Eles não me detiveram. E enquanto dava graças a Deus, entrei em um matagal e fiquei escondido observando. Eles brincavam como crianças apoiando-se uns nos outros e jogando pedras de tamanho descomunal. Depois de quase meia hora, olharam demoradamente ao redor, entraram no aparelho e esse subiu com o mesmo assovio, dirigindo-se para o norte e até desaparecer nas nuvens”.

José C. Higgins concluiu sua carta ao jornal dizendo que jamais saberia se eram homens ou mulheres, mas que se recordava das palavras que pronunciaram: “Álamo” e “Orque”, a primeira designando o Sol e a segunda o sétimo círculo traçado no chão. “Se tivesse subido a bordo do aparelho, sabe Deus por onde estaria viajando agora! Teria sido um sonho? Teria sido realidade?”, finalizou a missiva.

Humanoides da América do Sul

A publicação e tradução da carta do topógrafo José C. Higgins deu a volta ao mundo nos anos 50, a partir de um artigo escrito pelo jornalista João Martins, de O Cruzeiro, a principal revista semanal daquela época e que dedicava generosos espaços para tratar de avistamentos ufológicos. Com certeza, alguém lhe havia enviado o recorte do jornal Diário da Tarde. Martins ressaltava a importância do sétimo círculo assinalado pelo humanoide, talvez a sétima órbita do nosso Sistema Solar, equivalente à do planeta Urano, situado a 3.000 milhões de quilômetros da Terra — com um diâmetro de 51.000 km, mais de quatro vezes o do nosso planeta, é um mundo formado por uma variedade de gases. A única possibilidade de vida lá se concentraria em dois de seus satélites, Titânia e Oberon. Ambos com 1.500 km de diâmetro, as luas teriam um oceano gelo e talvez uma tênue atmosfera de dióxido de carbono.

Há alguns anos, este autor foi à hemeroteca de Curitiba e localizou o artigo de Lamartine, e assim pôde tirar dúvidas a respeito da origem da reportagem de João Martins. Seria a carta autêntica? Existiu o engenheiro ou topógrafo José C. Higgins? Ante a ausência de investigações in loco do caso na época, decidiu-se ir ao município de Luiziana, no interior do Paraná, juntamente com o veterano ufólogo e professor universitário Carlos Alberto Machado, fazer uma tentativa de levantar novos fatos sobre aquela ocorrência. Luiziana era o local mais próximo da Colônia Goio-Bang. Na empreitada foi instrumental a ajuda do secretário de Cultura da cidade, José de Souza Santos, e de uma funcionária daquele órgão, Olga Costin Guedes, então com de 60 anos de idade. Ela era filha de Leonor Walter Costin, que havia falecido em 2005 com 88 anos.

Olga logo antecipou o que poderia se encontrar nesta investigação de campo. “Minha mãe sempre me contava a história de uma coisa que desceu do céu, da qual saíram três homens muito altos, carecas, sem sobrancelhas e de cabeças redondas. Eles vestiam macacões transparentes cheios de ar e deixaram sinais no chão”, contou. Disse que os trabalhadores estavam com “um tal engenheiro José” quando viram o objeto, mas fugiram correndo assustados. Já o engenheiro ficou e viu que os estranhos recolhiam coisas do chão, depois indo embora. “Era a história que minha mãe contou a nós, suas filhas. Diziam aqui na região que eram pessoas de outro mundo. Eu e minha irmã sempre tivemos medo daquilo”, finalizou a humilde funcionária.

Alta incidência ufológica

O que logo se descobriu é que a origem daquele estranho caso ufológico era ali mesmo, no atual município de Luiziana, antigamente pertencente a Campo Mourão e onde um dia existiu a Colônia Goio-Bang, um local de exploração agrícola. Olga reservava outra surpresa: “Faz uns 15 anos eu estava com outras cinco pessoas, aqui mesmo na cidade, e vimos no céu uma coisa voando com forma de meia Lua, mas com a parte reta na horizontal e a curva para baixo. Dirigia-se ao chão. Era tão grande como a Lua e brilhava muito. Não sabíamos o que era aquilo”, comentou encolhendo os ombros.

crédito: JPL
Sétimo a partir do Sol, o terceiro maior e o quarto mais massivo dos oito planetas do Sistema Solar. Foi nomeado em homenagem ao deus grego do céu, Urano, pai de Chronos (Saturno) e o avô de Zeus. Acredita-se haver um oceano parcialmente líquido na superfície.
Sétimo a partir do Sol, o terceiro maior e o quarto mais massivo dos oito planetas do Sistema Solar. Foi nomeado em homenagem ao deus grego do céu, Urano, pai de Chronos (Saturno) e o avô de Zeus. Acredita-se haver um oceano parcialmente líquido na superfície.

Graças ao apoio do secretário de Cultura, pôde-se ir de carro até a área onde havia ocorrido a suposta aterrissagem do disco voador, em julho de1947. Durante o percurso, o motorista José Alziro contou que seu irmão tinha trabalhado com um topógrafo em 1947, quando tinha 17 anos. “Meu irmão também escutou a história dos homens altos. Mas ele já morreu e não pode dar mais detalhes”, disse, desculpando-se. O carro foi por uma área rural cultivada, sobre uma estrada de terra avermelhada. Fizemos uma parada na casa da irmã de Olga, Laura Costin, que nos contou o mesmo que Olga, mas adicionou outra história curiosa: “Faz alguns meses que voltei a ver a ‘Mãe do Ouro’ aqui. Trata-se de uma luz do tamanho de uma bola de futebol que costuma aparecer diretamente no céu e que vai descendo em linha reta, até desaparecer atrás do matagal. Quando desce, costuma clarear tudo”, disse a mulher, mostrando um matagal a uns 30 m da casa.

Saindo da casa rural de Laura Costin, juntamente com Olga, foi-se ao cemitério dos colonos da região e logo até um enclave misterioso, a tal Colônia Goio-Bang. O lugar é ermo e tem fama de ser saudável por causa das águas de seus rios e nascentes, usadas no século XIX para curar as feridas dos soldados que marcharam para lutar contra os paraguaios na famosa Guerra da Tripla Aliança (1864-1870). “Na mesma data em que ocorreu aquilo com os homens vindos do espaço, três meninos viram, aqui mesmo, perto da fonte, uma espécie de boneca grande que caminhava flutuando sobre as águas de um charco que não existe mais, porque secou. Também me contaram que um casal viu as águas do riacho que formava o charco se converterem em sangue, ou um líquido de cor muito vermelha. Outros observaram uma espécie de coroa brilhante que desceu do céu”, disse Laura.

Algo caiu do céu em 1934

Quando se chegou à área onde havia descido o UFO em 1947, o que se via era apenas um amplo campo semeado sobre um terreno ondulado e aberto sob um amplo céu azul. “Foi aqui”, insistia Olga Costin, “que minha mãe contava que aquilo ocorreu”. Foi inevitável olhar para o céu e imaginar que um disco voador com três gigantes um dia tivesse pousado ali. Que emoção não teria sentido José C. Higgins ao ser um dos primeiros seres humanos a ter contato direto e diálogo com seres de outros mundos? Talvez de Urano?

Ao regressar a Luiziana, o senhor Conrado Teixeira, colono de 86 anos pioneiro na região, abordou a equipe de investigadores para relatar uma experiência que também vivera, dando cada vez mais a impressão de que o local tem elevada incidência ufológica. Teixeira se recordava da época em que em Campina do Amoral — área onde estava a Colônia Goio-Bang — só se andava em carros puxados por burros. “Trabalhei para um topógrafo chamado Casimiro. Ele me disse que um dia, na Fazenda São José, a 5 km daqui, seus instrumentos topográficos deixaram misteriosamente de funcionar, voltando à normalidade quando os mudou de lugar. Ele nunca entendeu como aquilo ocorreu”, disse o colono. Já na própria fazenda de Teixeira, a 3 km de Luiziana, aparecia uma espécie de fogo ou luz de cor amarela que mudava para vermelho. “Quando se movia, as folhas dos arbustos e das árvores se agitavam violentamente. As pessoas diziam que ali existiam potes ou urnas dos índios”, recordou-se.

crédito: Carlos Machado

Outro pioneiro de Campina do Amoral é Antônio Alves da Rocha, que nasceu em 1923 e é descendente de espanhóis e portugueses. Ele também contou algo sobre o suposto pouso de 1947: “Conheci os últimos índios que habitaram a área e lembro-me de um topógrafo chamado Casimiro, mas não me lembro desse José C. Higgins...” Ao ser questionado sobre algo que tenha descido do céu naquela época, Rocha disse que os índios e moradores da época falavam que um dia havia aterrissado ali um tipo estranho de “avião”. “Não sei o que era. Mas, no entanto, posso contar que, em 1934, quando era menino, presenciei algo incomum no rancho do meu pai. Era uma bola de fogo que caiu do céu deixando uma longa cauda de fumaça. Em seguida ouvi uma explosão, a terra tremeu e as garrafas caíram das prateleiras da cozinha”. A esposa de Rocha, Edithe, também se lembrou daquela explosão. “Mas o esquisito é que ninguém encontrou nem rastro daquela bola de fogo”, disse.

Revoada de UFOs em 1947

A história de José C. Higgins coincide no tempo com o famoso Caso Roswell, dos Estados Unidos, ocorrido em 02 de julho de 1947. Foi apenas poucos dias antes, em 24 de junho, que o piloto norte-americano Kenneth Arnold tinha visto uma esquadrilha de discos voadores sobre o Monte Rainier, no estado de Washington, dando início à Era Moderna dos Discos Voadores. Poderia o caso que aconteceu na Colônia de Goio-Bang ser uma versão brasileira daquelas experiências? É real o caso relatado ao jornal Diário da Tarde, que Lamartine publicou? Ainda não temos como saber, mas são muitos detalhes para ignorar. E some-se a isso o fato de que o falecido ufólogo Osni Schwartz, que fez parte da Equipe UFO nos anos 80, localizou José C. Higgins e recebeu dele uma carta. Mas não se sabe o paradeiro desta missiva e nem o que teria lhe contado Higgins.

O mesmo jornal Diário da Tarde anunciou na sexta-feira, 01 de agosto de 1947, que dois discos voadores também haviam sido vistos em Caviúna, interior do Paraná, um dia antes do contato de José C. Higgins. “Os objetos viajavam pelo espaço a uma enorme velocidade e mantinham uma luminosidade opalina, que aumentava e diminuía a cada instante”, relatou o jornal. Na mesma época aparecia em Cajuru, já perto de Curitiba, um objeto voador em forma de avião sem motor e brilhando como o Sol, como se fosse de prata — depois de fazer algumas evoluções no céu, desapareceu por completo,
segundo informou um guarda civil.


E em meados de agosto daquele ano, também em Curitiba, uma mulher de uma família tradicional observou um objeto discoide que brilhava refletindo o Sol como prata ou alumínio. A parte superior, ao contrário, era escura. O mesmo objeto foi visto por várias testemunhas. Já na cidade de Morretes, a 60 km de Curitiba e rotineiramente área de grande incidência ufológica, várias pessoas também observaram um disco voador naquela época, que se deslocava para o norte a grande velocidade — entre as testemunhas, havia várias autoridades da cidade. Sem dúvida, o Paraná parecia estar nos planos de nossos visitantes extraterrestres naqueles anos.

Os seres brincavam como crianças apoiando-se uns nos outros e jogando pedras de tamanho descomunal. Depois de quase meia hora, olharam demoradamente ao redor, entraram no aparelho e esse subiu com o mesmo assovio com que desceu

O Caso José C. Higgins também serviu de inspiração para um clássico da ficção científica ibero-americana, a novela Os Visitantes do Espaço [1963], do escritor brasileiro Jerônymo Monteiro. Mas o autor situa o acontecimento não no Paraná, e sim em Goiás, e os extraterrestres não viriam de Urano, mas do satélite Io, de Jupiter. Ele os descreveu como seres luminosos e repugnantes, de forma cilíndrica e repletos de tentáculos. Não tinham olhos, boca ou nariz. Suas intenções eram tirar de nossa atmosfera um pouco de hidrogênio, elemento vital para sua sobrevivência — os terráqueos reagiram à invasão, mas o desfecho não foi bom para nossa espécie.

Já o pioneiro ufólogo inglês Gordon Creighton, que publicou o Caso José C. Higgins em sua revista Flying Saucer Review, nos anos 60, declarou que o UFO que pousou em Goio-Bang parecia-se com outro avistado no episódio conhecido como Caso Ilha da Trindade, também no Brasil, mas em 1958, com a forma discoide como um anel, tal como o planeta Saturno [Veja edição UFO 082, agora disponível na íntegra em ufo.com.br]. Algo semelhante também teria ocorrido em um avistamento ufológico em Montequinto, Espanha, igualmente em julho de 1947. E o ufólogo sueco Hakan Blonqvist assegura que houve um acontecimento parecido em seu país, em outubro de 1965.

Uma infinidade de mundos alienígenas

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