ARTIGO

Caso José Florêncio: Uma abdução ocorrida no Brasil em 1931

Por Pablo Villarrubia Mauso | Edição 234 | 01 de Maio de 2016

O senhor Florêncio recebeu os pesquisadores e lhes deu uma descrição clara dos fatos
Créditos: PABLO VILLARRUBIA MAUSO

Caso José Florêncio: Uma abdução ocorrida no Brasil em 1931

O primeiro caso de abdução de que se tem registro na história aconteceu no Brasil, em 1957, com o agricultor Antonio Villas-Boas, em São Francisco de Salles, uma cidadezinha no estado de Minas Gerais. O caso, entretanto, só foi publicado em 1965 em uma revista norte-americana chamada Flying Saucer Review. Antes dessa publicação, outro episódio ganhou as manchetes: o Caso Betty e Barney Hill, acontecido em 1961, em uma estrada do estado norte-americano de New Hampshire.

Por causa do atraso na divulgação do caso brasileiro, muitos ufólogos consideram a experiência do casal Hill como sendo o primeiro registro de abdução da história. De qualquer forma, se considerarmos que a diferença de tempo entre os dois acontecimentos é de quatro anos, pode parecer seguro afirmar que a ação mais direta e violenta dos extraterrestres em relação aos humanos começou por volta dos anos 60. Acontece, porém, que isso não é exatamente verdade — há relatos de casos que teriam ocorrido antes de 1957, porém as testemunhas já faleceram e não há como se reabrir as investigações. Existe, no entanto, bem aqui em nosso país, o registro de um evento ocorrido em 1931 cuja testemunha, acreditem, não só está viva como foi entrevistada e confirmou sua história.

Os ufólogos que conversaram com o senhor José Florêncio foram o professor José Carlos Rocha Vieira Júnior, da cidade de Campinas, outro pesquisador paulista e este autor. Estávamos em Campinas, a segunda maior cidade de São Paulo, procurando por um homem que talvez fosse o primeiro ser humano abduzido por presumíveis entidades alienígenas na trajetória da Ufologia, justamente Florêncio. Se estivesse vivo, teria mais de 80 anos. Entrevistei-o pela última vez há tempos, em 1996. Ao chegarmos à sua antiga casa, ficou evidente que o homem já não residia mais ali. “Está abandonada”, disse desconsoladamente o professor Vieira Júnior. Após perguntarmos a vários vizinhos, recebemos uma notícia reconfortante de que Florêncio tinha se mudado para outro bairro e ainda estava vivo.

Entrevista com José Florêncio

Anotamos o endereço e nos encaminhamos imediatamente à nova residência daquele que poderia ser um personagem chave e histórico para a Ufologia Mundial. Quando chegamos à sua humilde casa, nos encontramos com seus filhos e com o protagonista de nossa busca, agora já octogenário — todos nos receberam com muita simpatia e o cativante ancião se sentia disposto e com vontade de nos contar sua estranha história ocorrida muito antes dos casos Barney e Betty Hill e Antônio Villas Boas, que, como já dissemos, são oficialmente considerados como as primeiras abduções da Ufologia Moderna.

Após nos acomodarmos, começamos a conversar com o senhor Florêncio, que passou a nos relatar sua experiência com extrema naturalidade: “Eu tinha nove anos. Isso foi em 1931 e era época de calor. Recordo-me que era um sábado e eu estava jogando futebol com alguns amigos, em um terreno baldio no bairro Cambuí, onde é hoje a esquina da Rua dos Alecrins com a Sampaio Peixoto. Éramos muito pobres naquela época e usávamos como bola uma peúga [Meia curta] que enchíamos de papéis. Seriam umas 17h00, mais ou menos. Lembro-me disso porque meu pai, àquela hora, estava em casa, pois não trabalhava naquele dia da semana”.

crédito: PABLO VILLARRUBIA MAUSO
O local de Campinas onde ocorreu a abdução, hoje. No detalhe, a casa em que vivia o senhor Florêncio na época
O local de Campinas onde ocorreu a abdução, hoje.

E continua o bom velhinho a dar seu interessante depoimento: “Já me havia despedido dos outros meninos que viviam em uma pequena favela chamada Barroquinha, quando percebi que a minha camisa se movia, se agitava com uma ventania repentina. Eu me virei e vi uma coisa em forma de prato flutuando a pouca altura do solo. Era como um prato, com uma cúpula por cima. Tinha cor escura, como chumbo e não brilhava ou refletia. Chamou minha atenção o ruído que fazia, que era suave como o motor de uma geladeira”.

É necessário destacar que o ancião é uma pessoa afável e simples, que cursou apenas o ensino básico. Suas palavras surpreendem, principalmente porque estávamos diante de um testemunho anterior à Era Moderna dos Discos Voadores, surgida oficialmente em 1947, nos Estados Unidos. A região em que Florêncio vivia à época dos fatos fazia parte da zona rural de Campinas e se chamava Chácara Júlio Vitorino. O pai do ancião trabalhava de lixeiro na prefeitura da cidade.

“Escadinha desdobrada”

Florêncio contou que aquele estranho objeto circular o acompanhou durante vários metros, até que ele, assustado, viu o UFO chegar bem perto de si: “Quando me virei, vi um homem ao meu lado e uma escadinha desdobrada por baixo daquele aparelho. Não me recordo exatamente, pois isso aconteceu faz muito tempo, mas aquele homem não devia ter mais do que 1,60 m de altura, pois era pouco mais alto do que eu. Ele me pegou pelo ombro e me fez subir pela escadinha, para entrar no aparelho”.

Quando perguntado como era o aspecto do tal “homem”, Florêncio disse que “estava vestido com uma espécie de macacão de cor verde-oliva brilhante que lhe cobria todo o corpo. Usava umas luvas também verdes e um cinturão e botas negras. Levava um capacete colocado e tinha duas antenas curtas que saíam na altura das orelhas. Sua tez era branca, seus olhos eram como os nossos, mas muito azuis, as sobrancelhas um pouco levantadas e boca pequena. Depois, quando tirou o capacete dentro do aparelho, mostrou que possuía cabelos ruivos e o queixo comprido e fino”.

Disse Florêncio: ‘O chefe me fez abrir a boca, esticar os braços para cima e abrir as mãos, que ele tocou, sempre com as suas luvas. Reparei que todos tinham dedos muito finos. Ele abotoou a minha camisa e imediatamente encostei as costas contra a parede’

A entrevista naturalmente seguiu pelo caminho de descobrir-se o que teria havido ao então menino no interior do disco voador. E a testemunha contou que “aquele homem fechou a porta por onde havíamos entrado, girando uma espécie de roda de metal como as dos submarinos ou escotilhas dos barcos. Então comecei a gritar e a chorar, pois queria sair dali. Daí apareceram outros dois homens vestidos iguaizinhos ao primeiro, que naquela hora tirou seu capacete e tratou de me acalmar, me dando umas palmadinhas suaves no rosto”.

Quanto à aparência do extraterrestre, Florêncio lembra-se que ele tinha a cabeça coberta por uma espécie de gorro ajustado como os que se usam em natação, mas os outros não. “Havia quatro poltronas no aparelho, uma para cada um deles, todas de cor azul. Em uma das poltronas encontrava-se sentada outra pessoa, a quarta, diante de um painel. Pareceu-me tratar-se de uma mulher e lhe digo porque — ela tirou o capacete e mostrou um cabelo comprido e ruivo. Ela também tentou me acalmar, acariciando meu rosto com sua mão. Os outros dois homens não tiraram o capacete e ninguém removeu as luvas”, afirmou ele.

Florêncio disse também que no interior da nave havia uma luz amarela fixa no centro do teto que iluminava todo o local. “Ao centro, sobre o piso, havia uma mesa com um painel cheio de botões com luzes de cor vermelho, verde, amarelo, roxo e quase todos piscando alternadamente. Havia algo parecido com uma tela, como uma televisão, e vários relógios”, explicou a testemunha. E complementou: “Não vi volantes como nos carros, mas sim várias poltronas. O chão do UFO era de aspecto metálico, aos quadros, como um tabuleiro de xadrez, de cor amarelo-clara. Dei-me conta de que o homem que me capturou devia ser o chefe deles, pois parecia ser quem dava as ordens”.

Exames a bordo da nave

Quando questionado sobre em que idioma falavam, José Florêncio explicou que não conseguia entendê-los: “Era como se falassem em alemão, de que nada entendo. Conversavam entre eles em tom baixo. Em seguida me levaram para outro lado do aparelho, e ali me aproximaram de uma parede. O suposto chefe desabotoou a camisa que eu tinha vestido. Ele colocou seu ouvido nas minhas costas, mas antes a cobriu com uma toalha verde, que me dava a sensação de ser de seda e era fria, quase gelada. Também examinou, sempre com o ouvido, meu peito e o coração, enquanto outro dos homens me segurava por trás”.

Florêncio disse ainda que o extraterrestre também examinou seus dedos dos pés, das mãos e seus olhos. “Além disso, ele me fez abrir a boca, esticar os braços para cima e abrir as mãos, que ele tocou, sempre com as suas luvas. Reparei que todos tinham dedos muito finos. Ele abotoou a minha camisa e imediatamente encostei as costas contra a parede. Naquele momento, ele estalou os dedos e vi que da parede saíam como que umas pinças que me seguraram e apertaram na testa e na cintura. E eram tiras, como as de um cinturão grosso. Não podia sair dali, não podia mover-me. Estava preso”.

Em alguns escritos antigos que pudemos consultar em sua casa, José Florêncio deixou registrado que debaixo de seus pés descalços havia um tapete de cor negra e de textura parecida com borracha. Ele também escreveu que a mulher permanecia ao lado do suposto chefe, comandante do veículo, aparentemente fazendo apontamentos dos dados que lhe ditava enquanto fazia os exames em Florêncio — os outros dois homens permaneciam próximos, observando a situação com um leve sorriso no rosto.

crédito: PABLO VILLARRUBIA MAUSO
A casa em que vivia o senhor Florêncio na época
A casa em que vivia o senhor Florêncio na época

“Depois aconteceu uma coisa curiosa”, disse Florêncio. “No centro do aparelho havia uma espécie de tubo. O suposto líder, o comandante, estalou novamente os dedos e outro homem trouxe algo como uma lata de cor de chumbo que estava embutida na parede — nada tinha rebites. Em seguida, despejou seu conteúdo dentro do tubo, tendo-o destapado antes — era um líquido viscoso de cor cinza como mercúrio”. Florêncio então explicou que, depois de colocarem o líquido no tubo, os quatro extraterrestres se sentaram e a partir daquele momento ele percebeu que o objeto se movia “como se estivesse subindo dentro de um elevador, muito rápido”. Ele também disse que o ruído parecido com o motor de uma geladeira aumentou sensivelmente. “Pude ver pela janela que subíamos e baixávamos. Eu via cavalos e vacas que corriam sobre o pasto. Também vi, de cima, a Lagoa Taquaral e em seguida uma olaria que existia perto das vias da Ferrovia Mogiana”.

E segue o octogenário de excelente memória: “De repente, o céu escureceu, tornando-se lilás, e vi uns pontinhos luminosos que se pareciam com vagalumes. Em uma espécie de tela em um painel apareceram duas bolas contra um fundo escuro e, em seguida, outras quatro — umas eram luminosas como a Lua e outras de cor castanha, cor de Terra”. José Florêncio não soube precisar quanto tempo depois os tripulantes soltaram os cinturões que o prendiam à parede nem quando regressou ao nosso planeta.

O ancião revelou que já era bem tarde da noite quando o comandante do UFO desceu as escadas da nave com ele, enquanto os outros dois ficaram esperando do lado de fora da porta do aparelho, sobre uma plataforma que rodeava a nave. Quando Florêncio pisou no solo, o comandante deu umas palmadinhas em seu rosto, que o menino entendeu como um sinal de que ele podia ir embora. Em seguida o extraterrestre subiu para a plataforma e ao sinal de um estalar de dedos a escada se recolheu sozinha.

“Havíamos aterrissado no mesmo lugar de onde eles me recolheram, perto do local onde jogávamos futebol. Pensei em correr, mas me acalmei e voltei caminhando até minha casa, a menos de 500 m de distância. No entanto, o aparelho ficou ali, flutuando no ar, e projetou um raio de luz fluorescente que iluminou meu caminho de volta”, explicou ele. Mais tarde, o menino Florêncio soube que havia chegado à sua casa a 01h00.

Florêncio no hospital

Quando abriu a porta, virou-se para ver se o UFO continuava ali, mas ele já havia partido. Dentro de casa, encontrou-se com seus pais, que estavam preocupadíssimos — o pai, muito nervoso, repreendeu-o e deu-lhe uma surra por ter chegado tão tarde e não ter dado notícias de seu paradeiro. “Contei-lhe a história, mas ele não acreditou. Por isso me pegou. Meus pais me disseram que eu tinha enlouquecido. Deitei-me, cansado e nervoso. Não comi nada. Tive pesadelos naquela noite, sonhava que aqueles homens voltavam para me levar novamente”.

No dia seguinte, a caminho da escola, o menino Florêncio deteve-se no terreno baldio onde aparecera o UFO. Notou que o chão de terra se apresentava “escovado” em formato redondo. Quanto tempo esteve a bordo? Deram-lhe algo para comer lá dentro?, perguntamos ao abduzido. Florêncio respondeu que se fosse contar o tempo normal seriam umas oito horas, mas que para ele “não foi mais de uma hora a duração de tudo. Não me deram nada de comer ou beber”, respondeu. Quando questionado se tivera alguma sequela física devido ao encontro com os ETs, José Florêncio respondeu afirmativamente:

“Creio que duas semanas depois me internaram na Santa Casa de Misericórdia de Campinas. Tinha várias feridinhas espalhadas por todo o corpo e a pele ficou amarela dos ombros para baixo. Nenhuma ferida na cabeça ou no rosto. Pareciam picadas de insetos e eu me coçava muito. O médico do hospital, doutor Ronaldo, disse que era ancilostomíase, uma infeção intestinal provocada por um verme parasitário. Como minha mãe trabalhava ali no hospital como lavadeira, fiquei internado quase um mês. Fui medicado com as pílulas do doutor Ross e com Biotônico Fontoura. As feridas foram secando e desapareceram sem deixar marca”.

Uma vez recuperado, o menino ganhou o carinho e a confiança dos médicos e demais enfermeiras da Santa Casa e ficou ali por quatro meses, ajudando-os a servir bebidas quentes aos pacientes, em troca de um pequeno salário. José Florêncio, depois daquela traumática abdução, nunca mais falou com ninguém sobre a sua história — a reprimenda dos pais e sua consequente vergonha o impediram de contar a outras pessoas, até que, em 1958, decidiu procurar um jornalista de Campinas, Cataldo Bove, já falecido, que escrevia artigos sobre Ufologia no jornal Diário do Povo.

Bove ficou assombrado com a história de José Florêncio. Consciente da importância do caso, escreveu um artigo 10 anos depois, em 1968, mas a matéria não teve repercussão em âmbito nacional até que, em 1996, o professor José Carlos Rocha Vieira Júnior recuperou o caso, entrevistando a testemunha. Apenas em 2008 Vieira Júnior publicou um resumo do caso na internet. Em 1958, José Florêncio vivia no bairro Chácara da Barra, em Campinas, perto do distrito de Sousas, com sua esposa e seu filho Jorge. Em um entardecer, cerca de 18h30, ele e a família viram uma bola vermelha que cruzava o céu e que rapidamente mudou de direção. Em seguida, ouviram o ruído de uma grande explosão e o firmamento se iluminou.

Vejam o que disse ele a respeito deste incidente: “Pensei que algo havia caído sobre uma plantação de café próxima. Curioso, quis ir até lá para ver o que havia explodido, mas minha esposa, muito agitada, não me deixou ir. Porém, ao amanhecer, às 06h30, levantei-me e fui até à fazenda de café e encontrei ali um pedaço de metal diferente, que parecia chumbo. Coloquei-o em uma caixinha e levei-o ao jornalista Cataldo Bove, que escrevia sobre os discos voadores e tinha um programa de rádio em Campinas”, contou a testemunha.

Prova desaparecida

O pedaço metálico media uns 10 cm de comprimento e Florêncio cortou-o pela metade. Deu uma parte ao jornalista e a outra ele guardou. “Cataldo Bove me disse que aquilo poderia ser perigoso, radioativo. Então escondi o pedaço que eu conservava fora de casa”. Quando perguntado sobre o que aconteceu ao pedaço que guardou, Florêncio explicou que o deixou no pátio de sua casa e que, quando foi buscá-lo, ele havia desaparecido. “Cataldo e outros dois conhecidos dele me acompanharam até à plantação de café, mas não encontramos nenhum outro pedaço de metal no lugar. Mas tem um detalhe que quero contar — existia uma palmeira perto de onde encontrei o metal, que depois daquela explosão foi morrendo pouco a pouco”.

É interessante notar que Florêncio não é a única testemunha que alega que algo vindo de um UFO simplesmente desapareceu. Segundo um artigo publicado em 18 de fevereiro de 1972 por Cataldo Bove, ele e um amigo voltaram ao terreno naquele mesmo ano com um contador Geiger, quando encontraram uma rocha radioativa com elementos metálicos. Após uma inspeção rápida, foi dito que possuía uma base férrea, com traços de zinco, chumbo e cobalto. Considerou-se analisá-lo em laboratório, mas nada mais se soube a seu respeito.

De qualquer forma e seja como for, só o fato de haver no Brasil a testemunha de uma abdução ocorrida em 1931, com a memória perfeita e disposta a contar sua história, é algo fabuloso, principalmente porque mostra que os extraterrestres sempre tiveram interesse em nossa espécie e que para eles pouco importa a origem, a idade, o sexo ou a posição social do abduzido. Talvez eles nos vejam como uma espécie única, coisa que nós até hoje não conseguimos fazer.

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Sobre o Autor

Pablo Villarrubia Mauso

Jornalista, mestre em jornalismo arqueológico, ufólogo e consultor da Revista UFO.

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