ARTIGO

Caçadoras de UFOs na Argentina

Por A. J. Gevaerd | Edição 60 | 01 de Outubro de 1998

As caçadoras de UFOs argentinas Andréa e Silvia Perez Simondini
Créditos: ARQUIVO UFO

Caçadoras de UFOs na Argentina

Mãe e filha repartem uma experiência extraordinária na cidade de Victoria, Estado de Entre Rios, uma localidade considerada o epicentro da atividade ufológica na Argentina. Elas são Andréa e Silvia Perez Simondini, conhecidas como "caçadoras de UFOs" na região. Juntas, acumulam dezenas de observações de objetos não identificados diurnos e luzes misteriosas noturnas, fatos registrados com grande regularidade por toda a região da pequena Victoria, uma cidade de apenas 23 mil habitantes banhada pelo Rio Paraná, 330 km a noroeste de Buenos Aires.

Silvia, hoje com 58, passou a se interessar pelos UFOs após ter visto o que considera uma nave-mãe em Comodoro Rivadávia, em plena Patagônia, enquanto vivia com seu marido petroleiro. "O objeto estava bastante visível, era enorme e de repente deixou sair de seu interior cinco UFOs menores. Foi maravilhoso, e depois disso tenho dedicado minha vida a essa pesquisa". De fato, há vários anos separada e depois de ter criado seus filhos, Silvia vendeu suas propriedades em Buenos Aires e se transferiu de vez para Victoria, onde tem um pequeno bazar de presentes para garantir sua sobrevivência.

A filha Andréa ainda reside em Buenos Aires, mas não sabe por quanto tempo. "Passo boa parte de meu tempo viajando para Victoria, onde conduzo minhas pesquisas junto àqueles que observaram os fenômenos e em vigílias pela região", diz a jovem de 32 anos que trabalha na Câmara Nacional dos Deputados argentina como assessora parlamentar. Ela também tem um vasto repertório de histórias de observações de UFOs, assim como Cristian, o irmão mais velho, que reside com a mãe em Victoria. Eles compartilham com centenas de victorianos experiências inesquecíveis de objetos que cruzam o rio e até o centro da cidade.

Andréa e Silvia mantêm em pé o grupo de pesquisas Misión Ovni, hoje o mais ativo e produtivo do país. A entidade conta com inúmeros adeptos entre a população local e tem expressiva atividade pública e junto à imprensa local. Entre suas ações regulares estão as vigílias que realizam em noites amenas nos cerros da região. Nessas circunstâncias, com uma rotina de avistamentos incomum, tiveram a chance de fotografar e filmar objetos estranhos nas cercanias, em especial sobre o leito do rio e por sobre o extenso banhado que se forma à sua volta. É difícil encontrar um ribeirinho que não tenha uma história de UFOs cruzando a área para contar. "Por aqui isso é comum", disse o pescador Juan Chavez à UFO. Em maio passado, quebrando um jejum argentino de muitos anos, desde que a gloriosa Ufologia do país perdeu seu brilho com a diminuição das atividades de seus principais membros, hoje sumidos, o Misión OVNI resolveu realizar um congresso internacional de Ufologia. Para tanto, em vez de Buenos Aires, onde com certeza seria garantido um público mais expressivo, o grupo escolheu a minúscula - mas acolhedora - Victoria. Esperava-se um público em torno de mil pessoas para os três dias de evento - 23, 24 e 25 de maio - entretanto não mais que 100 compareceram.

Victoria: epicentro de manifestações ufológicas

Também pudera: a região está no centro das maiores inundações já registradas na Argentina nos últimos tempos, patrocinadas pelo El Nino. Mesmo com pequena audiência e uma chuva intensa que castigava ainda mais a cidade, o Primer Congreso Internacional de Ovnilogia de Argentina saiu-se muito bem, com quase duas dezenas de conferencistas do país revezando-se com dois estrangeiros, o físico nuclear Stanton Friedman, do Canadá, e este autor.

Andréa e Silvia, contando com uma boa assessoria local, fizeram um evento notável e de elevada qualidade, mas surpreenderam por um dado singular: conseguiram trazer a Victoria, vinda do Uruguai, uma comissão oficial de pesquisas ufológicas para apresentar-se no congresso. Isso nunca havia acontecido em lugar algum do mundo, mas aconteceu na Argentina, graças ao trabalho e à credibilidade das caçadoras de UFOs de Entre Rios. A Comisión Receptadora y Investigadora de Denuncias de Objetos Volantes No Identificados (Cridovni), do Uruguai, é a única entidade oficial de que se tem conhecimento hoje, no planeta, dedicada à pesquisa ufológica de forma aberta e pública - aparentemente sem nada a esconder. Fundada há duas décadas pelo próprio presidente do Uruguai, a Cridovni é composta por civis e militares e está sediada nas instalações da Força Aérea do país. Em Victoria, a entidade foi representada por quatro de seus membros, dois civis e dois militares. "Apresentamo-nos e conduzimos nossas investigações sempre em quatro, metade civis, metade militares, para garantir a neutralidade de nossas ações", declarou à Revista UFO o major Ariel Sanchéz.

Mas se foi surpresa encontrar uma comissão ufológica oficial num congresso de Ufologia, foi surpresa ainda maior constatar que a mesma, apesar de todo o esforço e de ser governamental (o que implica em verbas, pessoal, meios de transporte e locomoção etc.), tenha tão pouco a oferecer à comunidade ufológica civil. Em sua apresentação de pouco mais de uma hora, que teve introdução dos militares, fardados, e a palavra passada aos civis da Cridovni, um psicólogo e um piloto, a entidade apresentou apenas uma visão crítica e bastante cética das manifestações ufológicas ocorridas hoje em todo o mundo.

Visivelmente influenciada pelos métodos criados pelo falecido doutor Joseph Allen Hynek, consultor da Força Aérea Norte-Americana (USAF), a Cridovni tem uma sistemática de pesquisas ufológicas que se utiliza à exaustão ultrapassados critérios de avaliação de credibilidade das testemunhas e estranheza do fato em si. "O próprio Hynek, que cunhou tais métodos, já admitia antes de falecer, em 1986, que os mesmos estavam ultrapassados e que sempre foram obsoletos para se pesquisar com profundidade os discos voadores", declarou Stanton Friedman, tão estupefacto quanto este autor ao constatar que os membros da Cridovni não aceitam como reais as abduções e têm até o Caso Roswell como "improvável".

crédito: ARQUIVO UFO
 O MAIOR Ariel Sanchéz (esquerda) e o tenente Marcos Temesio, investigadores militares de UFOs da Força Aérea Uruguaia. Acima, no detalhe, Guillermo Aldunati, da
O Major Ariel Sanchéz (esquerda) e o tenente Marcos Temesio, investigadores militares de UFOs da Força Aérea Uruguaia

Instados por este articulista a apresentarem pelo menos um caso uruguaio que considerem absolutamente inegável, após fazerem uma breve explanação de seus métodos, os membros civis da Cridovni foram taxativos: "Não estamos aqui para contar estórias. Estamos aqui para mostrar nosso método de pesquisas". Além de grosseiro e evasivo, isso é o equivalente a reunir médicos oftalmologistas em um congresso para discutir seus métodos sem mostrar exemplos de como os mesmos conseguem a cura de seus pacientes. Na Ufologia, os métodos de pesquisa são tudo, mas sem conhecer sua aplicação prática, nada valem.

De qualquer forma, foi algo bastante incomum conhecer uma entidade oficial com quase duas décadas de existência e com atuação pública na América Latina. Sabemos que existem várias outras, em vários países, mas não são públicas. Uma exceção se faz apenas ao Comite de Estudios de Fenómenos Aereos Anómalos (CEFAA), instituído pelo governo chileno em 1997 para investigar oficialmente os UFOs naquele país, mas que ainda não decolou. Convidado pela Misión OVNI para participar do evento em Victoria, o CEFAA não pôde comparecer. Já a Fuerza Aerea Argentina (FAA) enviou dois representantes civis para acompanharem os fatos, embora ela não admita a existência de uma comissão.

Apesar do esforço de Andréa e Silvia em se fazer um debate sobre os rumos da Ufologia no mundo, o tom do congresso foi bastante restritivo, já que boa parte da Ufologia Argentina assume uma postura de visível ceticismo quanto a fatos já amplamente aceitos em todas as partes do mundo - as abduções principalmente. Por exemplo, o Centro de Investigación de Fenómenos Ovni (CIFO), de Rosário, um dos mais expressivos do país, advoga a teoria de que as abduções sejam experiências reais, porém sem qualquer ligação com extraterrestres. "Abduções são períodos em que as pessoas passam por alterações de consciência, tais como processos xamânicos, mas que não se relacionam a extraterrestres", diz o psicólogo Nestor Berlanda, diretor do grupo.

Desponta uma nova geração na Ufologia Argentina

Apesar disso, uma parte remanescente da gloriosa Ufologia Argentina, representada no evento principalmente pelo veterano Guillermo Aldunati, encontra reforço numa nova geração que está surgindo bastante ativa e competente. Esses novos ufólogos argentinos não são tão novos assim, mas podem conduzir o país de volta ao estágio de atividade investigativa que o país tinha nos tempos áureos da Federación Argentina de Estudios de Fenómenos Espaciales (FAECE). Entre eles, Pablo Wankracout e Carlos Iurchuk são os mais destacados. Wankracout, diretor do Projecto Aurora, atua na região uruguaia onde UFOs são bastante comuns. E Iurchuk tem intensa atividade investigativa em Bahia Blanca, no litoral.

Ver vasto segmento da Ufologia num país vizinho tratar do próprio tema de suas investigações com tamanho ceticismo dá a impressão de que a pesquisa ufológica lá está andando para trás. Enquanto a tendência mundial hoje é tentar encontrar as respostas para o Fenômeno UFO através das cada vez mais incessantes abduções, os grupos ufológicos mais expressivos da Argentina tentam o contrário: excluí-las da categoria de manifestações verdadeiras de seres extraterrestres em nosso planeta. Apesar disso, o esforço de Andréa e Silvia Simondini pode ser decisivo para a retomada do crescimento da Ufologia no país e ter um impacto positivo que represente uma união de estudiosos da América Latina em busca de uma resposta comum e satisfatória a todos.

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Sobre o Autor

A. J. Gevaerd

A. J. Gevaerd nasceu em Maringá (PR), em 1962, e foi professor de química até 1986, quando abandonou a profissão para se dedicar exclusivamente à Ufologia. Em 1983, fundou o Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores (CBPDV), a maior entidade do gênero em todo o mundo, com mais de 3.000 associados. Em 1985, Gevaerd fundou a Revista UFO, única publicação sobre Ufologia no país, com 25 anos de existência, e a mais antiga em circulação em todo o mundo. O editor interessou-se por Ufologia ainda muito jovem, com 11 anos, ouvindo histórias de observação de naves e contatos com seres extraterrestres, e começou suas atividades na Ufologia imediatamente, fazendo suas primeiras investigações e vigílias. Fez sua primeira palestra sobre UFOs no colégio em que estudava, aos 15 anos, e de lá para cá realizou mais de 2.000 em todo o Brasil. A partir de 1989, começou a se apresentar também no exterior, tendo realizado pesquisas e mais de 600 palestras em 54 países. É diretor no país, desde 1986, da Mutual UFO Network (MUFON), e, desde 1991, do Annual International UFO Congress, um dos eventos de Ufologia mais concorridos da atualidade. Foi um dos idealizadores da campanha pioneira UFOs: Liberdade de Informação Já, lançada em 2004 pela Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU), da qual é coordenador. O pesquisador tem participação ativa em praticamente todos os círculos mundiais onde o Fenômeno UFO é tratado com seriedade, participando de eventos, debates, programas, campanhas etc.

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