ARTIGO

Avistamentos de discos voadores e abduções durante a Idade Média

Por Umberto Visani | Edição 244 | 01 de Março de 2017


Créditos: RAFAEL AMORIM

Avistamentos de discos voadores e abduções durante a Idade Média

Quando o assunto é Ufologia, há uma tendência a se colocar o célebre avistamento de Kenneth Arnold, ocorrido em 24 de junho de 1947, como o início do Fenômeno UFO propriamente dito. Por outro lado, muitas pessoas acreditam que o planeta foi visitado e até colonizado por alienígenas em seu passado remoto, imaginando que os extraterrestres que se foram há milênios retornaram apenas no século XX.

Em algumas ocasiões, alguns pesquisadores chegaram a examinar a famosa e enigmática onda de avistamentos de aeronaves misteriosas ocorrida nos anos de 1896 e 1897 nos Estados Unidos, considerando-a como o primeiro núcleo da fenomenologia ufológica. Porém, se tivessem examinado jornais, documentos e crônicas anteriores, descobririam que já estavam presentes alguns relatos com características precisas e facilmente reconhecíveis para o observador moderno. O objetivo deste texto é tirar do esquecimento toda uma série de testemunhos provenientes dos séculos XVII, XVIII e XIX, bem antes da onda dos UFOs e do início da Era Moderna dos Discos Voadores.

Vale ressaltar que os relatos que citaremos aqui não são os únicos que remontam a esses séculos. Os que escolhemos para este estudo são aqueles menos conhecidos do público. E a partir de agora vamos conhecê-los [O leitor poderá encontrar muitos relatos históricos sobre objetos voadores anômalos na obra OSNIs: Segredos dos Russos, publicada pela Biblioteca UFO em 2016 com o código LIV-036. Confira na seção Shopping UFO desta edição e no Portal UFO: ufo.com.br]. Os relatos que escolhemos para este estudo são aqueles menos conhecidos do público em geral. A partir de agora vamos conhecê-los.

Casos no século XVII

Este período da história humana observou um aumento exponencial no interesse científico pela astronomia. Galilei Galileu, Giovanne Cassini, Christiaan Huygens e muitos outros astrônomos publicaram vários testes teóricos e o assunto ganhou a atenção de muitos outros pesquisadores em áreas correlatas. Também é importante lembrarmos que a Sociedade Real de Londres para o Melhoramento do Conhecimento Natural — ou simplesmente Royal Society, como a entidade é conhecida — foi fundada em Londres, em 1660, tornando-se um expoente do pensamento científico.

Esse clima de pesquisa e estudo científico, portanto, levou a um forte interesse pelos fenômenos celestes, apoiado por uma mentalidade aberta e científica também na observação daquilo que resultava de difícil explicação e que refutava uma categorização clara. À essa visão científica na observação dos fenômenos se juntaram numerosos outros relatos de contato com entidades percebidas como estranhas ao consenso humano, que, se comparadas aos modernos casos de encontros próximos com seres extraterrestres, resultam muito semelhantes.

O primeiro relato do século XVII a apresentar elementos interessantes é aquele proveniente do reverendo Jacques Fodéré, que em 23 de janeiro de 1603, enquanto se encontrava em Besançon em visita ao Monastério de Saint Claire, assistiu a um fato anômalo. Eram 19h00 quando o reverendo notou várias pessoas se reunindo aterrorizadas pelas ruas. Ele correu para fora do monastério e viu uma forte luz avermelhada proveniente de uma espécie de nuvem de formato circular que cobria inteiramente o Monte Saint Ettiénne.

Iluminando as ruas

A luz permaneceu quase estacionária em cima do monte, para então baixar progressivamente em direção às casas da vila, iluminando as ruas. Sucessivamente, o misterioso artefato pairou por aproximadamente 15 minutos sobre a Abadia de Saint Vincent. Lentamente, ele se moveu em direção ao rio, distanciando-se cada vez mais. Todo o avistamento durou mais de três horas. Naquela noite, o céu estava totalmente livre de nuvens e todos, inclusive o reverendo, chegaram à conclusão de que haviam assistido a um “evento extraordinário”.

Dez anos mais tarde, em 1613, um caso inquietante ocorreu na Escócia, nos arredores de Perth, tendo como protagonista uma certa senhora Isobel Haldane. Esse episódio apresenta, como veremos adiante, características similares a uma ocorrência colhida pelo reverendo Robert Kirk, ministro da igreja de Aberfoyle, também na Escócia. Kirk escreveu, em 1691, a obra intitulada The Secret Commonwealth of Eles, Fauns and Fairies [O Reino Secreto dos Elfos, Faunos e Fadas], na qual descreve características, organizações e métodos dos estranhos seres que atormentavam agricultores e criadores de animais locais.

Voltando ao caso de 1613, a senhora Isobel, como relatado no livro Ancient Criminal Trias in Scotland [Antigos Julgamentos Criminais na Escócia], de Robert Pitcairn, vivia em uma casa isolada próximo a Perth. Uma noite, durante o sono, percebeu a presença de uma entidade estranha no quarto. Inesperadamente, Isobel foi levantada à força de sua cama e levada aos limites de uma colina, que literalmente se abriu diante de seus olhos, deixando aparecer uma entrada para o que ela descreveu como sendo “o reino das fadas”. Isobel disse ter permanecido naquele local por um período que ela julgou ser de três dias, ao término dos quais um homem de barba acinzentada a conduziu para fora ensinando a ela como curar doenças e predizer o futuro.

Cabelos amarelos

Outro caso anômalo ocorreu em 1620, na Suíça, como relatado em um folheto do mesmo ano. Em 09 de abril, dois objetos, um de cor vermelha e o outro de cor amarela, apareceram e colidiram no céu. Depois de poucos minutos, surgiu uma nuvem cônica, da qual desceram muitos homens vestidos de preto e armados como guerreiros. A seguir, surgiram outras nuvens amarelas, das quais emergiram alguns seres de cabelos amarelos e testas largas. Do que se tratava é impossível dizer, porém permanece a extrema estranheza do acontecido, descrito com precisão pelos observadores.

crédito: BRITISH MUSEUM
Nesta pintura de Carlo Crivelli, A Anunciação, de 1468, pode-se ver nitidamente um UFO no céu dirigindo um raio de luz para a Virgem Maria
Nesta pintura de Carlo Crivelli, A Anunciação, de 1468, pode-se ver nitidamente um UFO no céu dirigindo um raio de luz para a Virgem Maria

De 1638 provém um caso de notável interesse, dado que parece mostrar um típico exemplo de tempo perdido, ou missing time, em presença de uma fenomenologia de clara matriz ufológica. O evento ocorreu no estado norte-americano de Massachusetts e é relatado no sábio The History of New England From 1630 To 1649 [A História de New England de 1630 a 1649], escrito pelo governador John Winthrop, que chegou ao estado em 1630, em companhia de mil imigrantes britânicos. Este é um texto historiográfico extremamente preciso, por isto a circunstância do resumo que vamos examinar é muito significativa pela credibilidade intrínseca do fato.

Força desconhecida

O avistamento ocorreu em março de 1638, quando James Everell, membro da Igreja Puritana, descrito como um homem confiável e respeitado, estava atravessando o Rio Muddy na companhia de dois amigos. De repente, uma grande massa luminosa surgiu sobre o local — a massa se movia ao longo do curso d’água e, uma particularidade interessante, quando pela parava, se iluminava de maneira ainda mais intensa, enquanto que, quando retornava o movimento, assumia uma forma mais cônica e perdia luminosidade. O objeto permaneceu no ar por cerca de duas ou três horas, movendo-se para frente e para trás sem um objetivo aparente.

Quando finalmente a luz sumiu, Everell e seus amigos se impressionaram ao ver o quanto a embarcação em que estavam havia se deslocado rio acima, como se houvesse sido empurrada por uma força desconhecida que os levou um quilômetro e meio contra a corrente. O estranho reposicionamento do barco nos leva a pensar que os três não estivessem conscientes durante a duração total do avistamento e que possa ter ocorrido um verdadeiro episódio de tempo perdido.


Isso mostra o paralelo com casos modernos de pessoas que afirmam ter observado UFOs enquanto dirigiam e que, quando deram por si, estavam a quilômetros de distância do local do avistamento. Um outro caso de incontestável interesse e credibilidade, considerando-se a fonte autoral, é aquele que teve como protagonista, em 09 de julho de 1686, o astrônomo Gottfried Kirch, na cidade de Leipzig, na Alemanha. Às 01h20 da manhã, uma bola de fogo com cauda e do diâmetro de cerca da metade da Lua apareceu no céu, permanecendo imóvel por sete minutos, o que permitiu que Kirch a examinasse com atenção. No princípio do avistamento, o artefato estava tão iluminado que se podia ler graças à luz que irradiava.

O reverendo Kirk e as fadas

Nos dias seguintes, o objeto foi visto em muitas outras cidades e, graças a dados precisos, o astrônomo conseguiu estimar sua exata posição: 25 km de distância de Leipzig e uma altitude de mais de 48 km. Em determinado momento o objeto perdeu a luminosidade e disparou obliquamente em direção ao oeste, deixando dois globos não visíveis a olho nu, mas apenas por meio de telescópio.

Como dissemos, houve numerosos casos de contatos com entidades que podem ser facilmente relacionadas aos modernos alienígenas, relatados por contatados e abduzidos durante o século XVII. Um bom material é fornecido pela já citada obra escrita pelo reverendo Robert Kirk, que elenca uma série de características muito interessantes sobre as fadas, e que nos permite colher algumas consonâncias com o moderno folclore ufológico. Segundo Kirk, as fadas têm uma natureza intermediária entre os homens e os anjos, com corpos muito leves e de consistência fluida, similares às nuvens. São visíveis sobretudo ao entardecer e podem aparecer e desaparecer quando quiserem. São inteligentes, curiosas e capazes de subtrair das pessoas tudo aquilo que desejam — ainda de acordo com o reverendo, as fadas vivem embaixo da terra, dentro de cavernas que podem ser alcançadas por meio de quaisquer aberturas no terreno.

Segundo a literatura, as fadas teriam uma natureza intermediária entre os homens e os anjos, com corpos muito leves e de consistência fluida, similares às nuvens. Seriam visíveis ao entardecer e podem aparecer e desaparecer quando quiserem

Quando a civilização humana não era desenvolvida, as fadas viviam na superfície e tinham sua própria agricultura — foi a chegada do homem que causou o progressivo desaparecimento dessas criaturas e as obrigou a se refugiarem sob a terra. Essa seria a explicação para a hostilidade para com os humanos e suas numerosas brincadeiras quando contatam nossa espécie, incluindo aí o sequestro de crianças e adultos e a destruição das colheitas. As fadas, ainda segundo Kirk, mudam de local a cada início de trimestre, uma vez que não são capazes de permanecer em um mesmo lugar e é justamente nesses períodos de mudança que os encontros com esses seres são mais frequentes. Kirk destaca como, em seu tempo na Escócia, descobriu que muitas pessoas evitavam viajar nesses períodos por medo de encontros desagradáveis.

Seus corpos são camaleônicos e permitem a elas se deslocarem pelo ar. Sua sociedade é dividida em tribos e seu povo se casa, tem filhos e sepulta os mortos. Suas casas são espaçosas e magníficas, quase sempre invisíveis aos olhos humanos. Kirk compara essa característica de invisibilidade às “ilhas encantadas”, que estão escondidas, mas sempre presentes em um plano existencial real, tangente ao nosso. É o típico tema de Agharta, o mundo subterrâneo oculto. Ainda quanto às fadas, elas falam muito pouco e quando o fazem os sons produzidos são semelhantes a assobios. Mas quando falam com os homens, são capazes de reproduzir o idioma do interlocutor, seja qual for ele. Por meio de artes mágicas, podem ser evocadas para responderem a perguntas precisas.

Lendo nas entrelinhas

Para compreender como Kirk interpretava a existência de fadas é necessário ler nas entrelinhas de sua obra a opinião que desenvolveu sobre esses seres misteriosos. Em determinado trecho, ele afirma muito claramente considerar que cada época tem seus próprios segredos a ser desvendados e que, em algum momento, o das fadas será desvendado, assim como no passado outros fenômenos aparentemente inexplicáveis foram racionalmente esclarecidos. Após mais de 300 anos, o presságio do reverendo ainda não se realizou, já que o mistério das fadas não encontrou respostas — mas isso parece ter sido suplantado e cooptado pelo mistério dos UFOs.

Como mencionado, os casos de raptos feitos por fadas foram numerosos em todo o século XVII, mas o mais significativo de todos foi aquele que aconteceu com o próprio Kirk. Um ano após a publicação de sua obra, ele teria desaparecido sem deixar vestígios. A senhora Helen McGregor, responsável pelo cemitério de Aberfoyle no qual foi sepultado o caixão do reverendo, quando conversou com o estudioso norte-americano Evans Wentz, este lhe disse que muitos comentavam que o ataúde de Kirk estaria cheio de pedras, uma vez que ele teria sido levado a um vale vizinho cheio de cavernas, nas quais habitam as fadas. O reverendo Taylor, sucessor de Kirk à época das pesquisas de Wentz, lhe disse que, após o desaparecimento do antigo amigo, as pessoas diziam que as fadas o haviam raptado porque estavam irritadas por ele ter revelado muitos dos seus segredos.

Casos no século XVIII

Quando olhamos para os tempos passados, vemos que nos anos 1700 o cenário não era diferente de hoje. O século das luzes verificou um enorme crescimento no interesse pela pesquisa de novos planetas e pela observação do céu por parte dos astrônomos profissionais e simples amadores. Foi justamente no curso dessas observações que ocorreram vários avistamentos de objetos anômalos. E é interessante notar como, na época o mundo científico tinha uma abertura mental muito maior se comparada àquela mostrada hoje em dia. De fato, não havia nenhuma abordagem apriorística quanto a avistamentos ufológicos e certos fenômenos eram escrupulosamente apresentados, sem que as pessoas dissessem que aquilo não devia e nem poderia existir. Mas, além das observações científicas, houve também muitos casos que se assemelham às modernas abduções.

Em um dia de agosto de 1700, em uma vila finlandesa chamada Sahalahti, um ferreiro ancião de nome Tiittu foi caminhar na floresta que circundava sua casa. Outros habitantes da vila, no mesmo dia, observaram um grande objeto em forma de disco voar sobre as ruas para então se dirigir à casa de Tiittu e em direção à floresta — os moradores estavam aterrorizados pela visão do veículo, pensando se tratar de um sinal iminente do fim do mundo. Desde aquele dia, Tiittu não retornou mais para a vila e seus amigos ligaram os dois eventos, acreditando que o estranho artefato em forma de disco o havia levado embora. Seu filho, desesperado, percorreu a floresta em todas as direções, sem encontrar vestígios do pai desaparecido. Durante as buscas, porém, ele teve um encontro altamente misterioso e inquietante.

crédito: NATIONAL GEOGRAPHIC
Esta pintura, chamada A Glorificação da Eucaristia, foi feita por Ventura Salimbeni por volta de 1600. Está exposta em um museu italiano
Esta pintura, chamada A Glorificação da Eucaristia, foi feita por Ventura Salimbeni por volta de 1600. Está exposta em um museu italiano

Um ser que lembrava um urso, mas que não era um animal, já que podia falar, lhe disse em finlandês perfeito: “Não tenha medo. Você está buscando em vão por seu pai. Aquela nave celeste levou seu pai para o alto, para outro mundo, melhor do que este e onde vive uma raça muito mais avançada do que a sua. Seu pai está bem e não sente saudades de casa”. Depois dessa frase enigmática o “urso” desapareceu e o filho de Tiittu ordenou que as buscas tivessem fim.


As pessoas do lugar falaram por anos sobre o episódio, que o padre da vila dizia se tratar de um caso perpetrado pelas “artes mágicas” de alguém. A semelhança com relatos de encontros ufológicos é evidente neste episódio. O desaparecimento de uma pessoa após a passagem de um veículo desconhecido observado por várias outras, com sucessivo encontro de entidades enigmáticas que tranquilizam as testemunhas com mensagens que hoje definiríamos como “estilo Nova Era”, mas que evidentemente eram típicas também na “Velha Era”.

Um caminho desconhecido

Outro caso célebre de rapto provém da vizinha Suécia. A fonte é certa e coesa, tratando-se de um registro da igreja de Ramsberg, escrito à mão pelo reverendo Klaus Vigelius e atualmente guardado em Uppsala. O relato diz que na noite de 16 de setembro de 1759, Kacob Jacobsson, um jovem de 22 anos, tinha levado um pacote de alimento ao padre, enviado por um conhecido nos arredores de Lonmora. Retornando para casa, tão logo tirou da água o barco com o qual havia cruzado o lago para chegar à igreja, um “caminho” desconhecido surgiu à sua frente.

Curioso, o jovem seguiu pelo tal caminho e, após dar alguns passos, “se apresentou à sua vista uma grande casa de madeiras vermelhas. Sem se dar conta do modo como nela entrou, o rapaz se percebeu dentro da casa, sentado em um banquinho, em um grande quarto. De fronte a ele se encontrava um homem muito pequeno, com cabelo vermelho e, ao lado da mesa, pequenos seres que corriam para frente e para trás pelo cômodo. Pareciam em tudo humanos, tirando a estatura, que era extremamente pequena. Levemente mais alta, uma senhora de bom aspecto que lhe ofereceu algo para comer e beber, que ele recusou educadamente”, registra o relato.

Os seres lhe perguntaram se ele queria permanecer ali, mas o jovem respondeu que não, pedindo para retornar para seus pais. Naquele momento, o pequeno homem de cabelo vermelho gritou: “Leve-o embora. Ele tem uma boca muito feia!” Um instante depois, Jacobsson se viu de novo próximo a seu barco — assustado e temendo encontrar a entidade vista pouco antes, correu para casa, onde o esperavam os pais preocupadíssimos. De fato, diferentemente do que foi percebido pelo jovem, ele não ficara fora apenas algumas horas, mas quatro dias. O reverendo Vigelius, que escreveu este relato, conhecia pessoalmente a família e o rapaz, e por isto testemunhou que se tratava de pessoa absolutamente equilibrada. Como em muitos casos de contatos com entidades não humanas, o tempo correu de modo diferente, de maneira ainda mais evidente e ampla quando em comparação ao que ocorre hoje em dia aos abduzidos, que afirmam que ao ter sido raptados por alienígenas perdem algumas horas de suas vidas.

Veículos não identificados

A casuística do século XVII também mostra vários testemunhos concernentes a objetos voadores que, considerando-se a época e dado o desenvolvimento quase que nulo da ciência aeronáutica, não eram identificáveis. Como relatado pelo reverendo John Morton em sua obra Natural History of Northamptonshire [História Natural de Northamptonshire], em 18 de dezembro de 1707, na costa meridional da Inglaterra, um homem chamado Charles Kirkham e algumas pessoas em sua companhia viram um enorme cilindro com luzes seguido por uma estranha nuvem. Ambos se moviam baixo no horizonte, alterando a própria luminosidade de maneira inexplicável. A observação durou cerca de 30 segundos e, sucessivamente, os dois artefatos desapareceram da vista.

Ainda mais interessante e embasado em provas cruzadas é um evento ocorrido em 02 de abril de 1716 nos arredores de Tallin, próximo ao Mar Báltico. Os relatos provêm de fontes diversas, inclusive de alguns documentos oficiais da época e de diários de bordo de alguns navios de passagem pelo local. Eram 21h00 quando uma nuvem negra apareceu no céu. Ela tinha uma base ampla e pontiaguda no topo e se movia na vertical velozmente. Pouco depois do surgimento da insólita nuvem apareceu, segundo as testemunhas, “um grande cometa cintilante”, também em movimento vertical. No mesmo momento, uma segunda nuvem negra apareceu ao norte e se dirigiu à primeira, ficando uma embaixo a outra. Depois de alguns minutos, a segunda nuvem se encontrou com a primeira produzindo uma explosão e muita fumaça, que cobriu a área por mais de 15 minutos.

O fenômeno dos discos voadores é algo muito enganador, cujos autores tendem constantemente a lançar cortinas de fumaça para se esconderem atrás dela, pois assim conseguem agir tranquilamente, com fins que ainda desconhecemos completamente

Três anos depois, em 19 de março de 1719, houve outro avistamento notável, sobretudo para o entendimento específico das testemunhas. Às 20h15, um objeto muito brilhante de cores azul e branco atravessou o céu acima de Oxford, vindo do oeste — sua velocidade era muito baixa, o que exclui a possibilidade de que fosse um meteoro. Entre os testemunhos, está o do vice-presidente da Royal Society, o físico Hans Sloane. E esse não foi o único caso observado por expoentes daquela entidade.

Em 16 de dezembro de 1743, um correspondente da prestigiosa associação londrina escreveu um relato de absoluto interesse, que reproduzimos a seguir. “Eu estava tornando a casa em Westminster, depois de ter ido à Royal Society. Eram 20h40 e eu me encontrava em Saint James Park quando vi uma luz surgir além das árvores, em direção sudoeste. Atingindo um ângulo de 20° no horizonte, começou um movimento paralelo, mas em forma de onda, em direção a nordeste. Parecia tão próxima que pensei que estivesse passando sobre a Queen’s Square, mas então perdi contato visual quando ela estava sobre Haymarket. Seu movimento era tão lento que pude vê-la por mais de meio minuto”. Em seguida ao avistamento, a testemunha fez um esboço muito detalhado, acompanhado de uma descrição bem precisa de um artefato alongado do qual, por trás, saíam chamas e fumaça, o que demonstra sua provável origem artificial.

Estranho objeto perto do Sol

O caso a seguir é bem documentado e bastante conhecido. Em agosto de 1762, duas testemunhas em locais distintos, uma no Observatório de Basileia e outra no Observatório de Solothurn, ambos na Suíça, viram por mais de um mês um inexplicável objeto nos arredores do Sol. O senhor Juergen Rostan, astrônomo e membro da Sociedade Médica da Basileia, enquanto estava examinando o Sol no Observatório da Basileia, utilizando um quadrante para verificar o meridiano, notou que o Sol produzia uma luz levemente mais opaca. Em um primeiro momento, Rostan atribuiu ao fato aos vapores intensos do Lago Lemano, produzidos por um calor elevado. Todavia, apontando o telescópio em direção ao astro, percebeu que estava ocorrendo uma espécie de pequeno eclipse, com um corpo desconhecido que, em cerca de duas horas e meia, tinha ocupado uma parte do disco solar.

Dias depois, o estranho corpo se movera de uma extremidade a outra do disco, a uma velocidade que era a metade daquele com que se movem as manchas solares normais. Em 07 de setembro, cerca de um mês depois, alcançada a extremidade ocidental do Sol, o objeto desapareceu. Rostan manteve um controle diário sobre o fenômeno, enviando um detalhado relato para a Academia de Ciências de Paris, juntamente com um desenho obtido por meio de uma câmera escura.

Conjuntamente, o mesmo fenômeno era visto nos arredores de Solothurn pelo senhor Alain Coste — tinha as mesmas características, exceto pelas dimensões, que pareciam levemente menores. Ambos os observadores excluíram a possibilidade de se tratar de uma mancha solar devido ao seu lento movimento. Também não se tratava de um planeta ou de um cometa. Nenhum dos dois entendeu o que poderia ser aquilo e, para tornar o fenômeno mais inexplicável e inquietante, no Observatório de Paris o doutor James Messier, que havia sido contatado pelos dois, não conseguia ver o artefato. Em novembro do mesmo ano, um homem chamado Johan Lichtenberg viu, a olho nu, uma grande mancha de cerca de 1/12 do diâmetro do Sol atravessar o disco solar em não mais do que três horas.

Casos do século XIX


Assim como nos séculos anteriores, os anos 1800 também registraram estranhos avistamentos e contatos que guardam estreita semelhança com os modernos episódios ufológicos. Em 08 de outubro de 1801, o jornal Times relatou que um objeto muito luminoso, cruciforme, foi observado no céu entre 05h00 e 06h00, acompanhado por outros dois menores — todos os três se moviam para o sul em velocidade constante. Devido à época e as características mostradas, eles não podiam ser artefatos voadores criados pelo homem.

Em Quedlinburg, na Alemanha, em 07 de fevereiro de 1802, o astrônomo Wan Fritsch observou um incomum objeto escuro que atravessava o disco solar com movimento não linear e com acelerações inexplicáveis. Outro astrônomo, o célebre W. R. Brooks, diretor do Observatório Smith, quatro anos depois, em 27 de junho de 1806, na cidadezinha de Geneva, no estado norte-americano de Nova York, registrou a passagem de um longo objeto escuro que cruzou a Lua em três segundos. Brooks estava examinando a superfície lunar com um telescópio de duas polegadas, que produzia uma ampliação de 44 vezes, e o tamanho do artefato era em torno de um terço do tamanho da Lua. Ambos os testemunhos são de grande interesse por terem sido fornecidos por astrônomos, ou seja, pessoas com uma preparação indiscutível e que sabiam perfeitamente distinguir fenômenos anômalos daqueles que eram naturais e conhecidos.

A primeira década do século XIX, de acordo com os dois relatórios que examinamos, foram anos de alta incidência de anomalias nos Estados Unidos. Em 07 de agosto de 1806, em Rutherford, no estado da Carolina do Norte, a senhora Patsy Reaves contou que sua filha Elizabeth, de oito anos, estava em uma plantação de algodão próxima da sua casa, por volta das 18h00, quando viu um homenzinho no Monte Chimney tentando rolar algumas pedras. A pequena Elizabeth contou o que via para seu irmão, Morgan, de 11 anos, o qual, antes incrédulo, notou que não só havia pessoas no local como também havia milhares de objetos voadores no céu — que foram vistos também por uma senhora e uma menina, que correram para chamar Patsy Reaves a fim de avisá-la sobre o que estava acontecendo.

Espetáculo surpreendente

Patsy, espantada, dirigiu-se para o Monte Chimney. Surpresa maior ela deve ter tido quando viu que lá havia um grande número de pessoas, cujo aspecto lembrava o de homens comuns, mas com algumas diferenças. Eles não tinham distinção aparente de sexo e eram de tamanhos bem diferentes uns dos outros, desde muito pequenos a personagens extremamente altos e corpulentos, todos vestidos com uma espécie de traje branco e capazes de levitar alguns metros. Patsy permaneceu mais de uma hora observando a aglomeração daqueles seres indefinidos.

Para ter mais testemunhas daquilo que estava vendo, mandou chamar um amigo seu, de nome Robert Siercy. No primeiro momento, ele relutou em sair de casa, pensando que fosse uma brincadeira. Porém, quando uma segunda pessoa foi chamá-lo para contar-lhe sobre o estranho fenômeno, ele finalmente se convenceu e foi até o local. O espetáculo que o esperava era surpreendente, segundo suas declarações. “Estava cheio de figuras humanoides brancas e luminosas, em um número que eu nunca tinha visto com seres humanos”, disse. Em determinado momento, a inusitada multidão se deslocou para o lado visível da montanha, para depois desaparecer de vista, deixando uma impressão agradável na mente das testemunhas, mas acompanhada de um certo cansaço físico.

Diante de um relato como esse é essencial, em primeiro lugar, investigar a fonte. A história apareceu no Statesville Landmark, jornal da Carolina do Norte, em 15 de junho de 1883. O relato foi feito em 07 de agosto de 1806 e apresentado a J. Gates, diretor do jornal Raleigh Register and State Gazette, e foi publicado no mês de setembro do mesmo ano. Trata-se de uma história interessante, que denota vários aspectos misteriosos, mas, ao mesmo tempo, típicos do cenário ufológico.

Outros casos interessantes

Menos vistoso, mas igualmente de indubitável interesse, foi um avistamento ocorrido dois anos mais tarde no estado do Maine. Soubemos sobre o caso graças ao trabalho da doutora Judith Becker Ranlett, que, enquanto estudava o diário da tataravó do seu marido, encontrou um trecho inquietante. De acordo com o relato da senhora, em 22 de agosto de 1808, por volta das 22h00, “eu vi aparecer algo estranho. Era uma luz que vinha do leste. Primeiro pensei que fosse um meteoro, mas, por seu movimento, compreendi que não podia ser. Parecia que se movia rápido como a luz e estar na atmosfera, mas desceu até o chão e se manteve em altitude constante, às vezes subindo, às vezes descendo”, escreveu.

De acordo com seu relato, fica claro que aquilo não se tratou de um fenômeno natural, mas de algo diferente, ocorrendo em uma época quando não existiam protótipos terrestres capazes de realizar tais manobras. Além do mais, essa ocorrência provém de uma pesquisa cujas intenções nada tinham a ver com Ufologia — aliás, o assunto era totalmente estranho à Judith. Como se pode ver, o século XIX, diferentemente do que se possa pensar, também é rico em relatos de contatos com entidades percebidas como não humanas.

crédito: L'OSSERVATORE
A pintura A Madonna com Saint Giovannino, do século XV, feita por Felipo Lippi, é uma das muitas em que há um UFO na presença da Virgem
A pintura A Madonna com Saint Giovannino, do século XV, feita por Felipo Lippi, é uma das muitas em que há um UFO na presença da Virgem

Em março de 1828, nas proximidades do Monte Wingen, na Austrália, um objeto prateado em forma de charuto foi visto aterrissando em um lado da elevação, provocando o incêndio da vegetação e a morte do gado. Diz-se, também, que nos dias seguintes apareceram “estrangeiros” de grande estatura na cidade, que entravam nas lojas indicando com o dedo a mercadoria de seu interesse. O fato causou considerável consternação e a ele foram ligados desaparecimentos incomuns de cães e outros animais domésticos.

Quase 40 anos depois, em 25 de julho de 1868, outro episódio de contornos ainda mais enigmáticos ocorreu em Parrammatta, também na Austrália. O senhor Frederick William Birmingham, engenheiro e vereador, estava sentado na varanda da sua casa de campo quando viu aquilo que depois descreveria como “uma arca voadora”. Tentando admirar a aeronave, em certo momento Birmingham percebeu que não estava sozinho — e ouviu uma voz que lhe dizia que o que via era “uma máquina para se mover no ar”. Nesse meio tempo, a máquina estava descendo ao chão e a voz, que ele não sabia de onde provinha, perguntou a Frederick se ele queria subir a bordo para dar uma volta. Ele, curioso, concordou.

Figura de contornos exóticos

Naquele momento, uma força invisível o levantou suavemente do chão, levando-o até o artefato, onde o senhor Birmingham pôde notar que a voz vinha de uma figura disforme e de contornos esbranquiçados. A bordo, ele esteve em uma espécie de cabine de pilotagem cheia de alavancas. O ser entregou-lhe folhas que continham um projeto para a construção de uma máquina voadora e, em seguida, a mesma força que o levara a bordo o fez voltar à Terra. Esse episódio anômalo não foi o primeiro na vida do senhor Birmingham, e nem o último. Alguns anos antes ele vira no céu alguns “rostos” acompanhados depois por fenômenos poltergeist. Em 1872, quatro anos depois da experiência, Birmingham viu três nuvens de formas peculiares no céu, capazes de se deslocarem de maneira errática, com desaceleração e aceleração repentinas, um comportamento extremamente anômalo para nuvens comuns.

O episódio narrado acima representa uma espécie de omen, ou presságio, do que teria acontecido no final do século XIX, nos Estados Unidos, com uma onda ufológica que ocorreu repentinamente, e mostra que no decorrer do século XIX houve uma longa série de precedentes, o mais evidente deles acontecido em 10 de outubro de 1879, em Dubuque, no estado de Iowa. Muitas pessoas da localidade, que acordavam cedo, viram o que parecia um grande balão que se movia sobre a cidadezinha. O objeto permaneceu visível por mais de uma hora, para depois desaparecer no horizonte. Como em outras ocasiões, o UFO foi capaz de mudar de altitude e velocidade de maneira repentina, diferentemente do que um verdadeiro balão poderia fazer. Dez dias antes, o balão Pathfinder, pilotado pelo professor John Wise, saíra da cidadezinha de Louisiana, no estado do Missouri, mas caiu no Lago Michigan. Portanto, não foi ele quem motivou o avistamento.

O primeiro disco voador?

Ainda sob a ótica histórica, desde o início o termo mais popular para referir-se aos UFOs foi disco voador, utilizado pela primeira vez pelos jornalistas para indicar o que havia sido observado por Kenneth Arnold, naquele famoso 24 de junho de 1947. Mas temos realmente certeza de que essa foi a primeira utilização do termo? Em torno de 70 anos antes, em 25 de janeiro de 1878, um agricultor de Denison, aldeia do estado do Texas, foi testemunha de algo totalmente fora do comum e que o tocou profundamente.

Como relatado pelo jornal Denison Daily News de 25 de janeiro de 1878, John Martin, um jovem agricultor, estava indo caçar quando a sua atenção foi atraída para um objeto escuro que se destacava no céu. O artefato, devido ao seu formato, lembrava um prato, era de tamanho considerável e movia-se em velocidade constante. Segundo Martin, era impossível que fosse um balão comum. Portanto, concluía ele para os jornalistas que o entrevistaram, o fato de se excluir que se tratava de um balão, mostrava que a comunidade científica precisava assumir a responsabilidade sobre o que fora observado.

Aeronaves anômalas observadas por pessoas confiáveis, tais como astrônomos, além de luzes noturnas, discos diurnos, esferas voadoras, bem como figuras humanoides, espíritos diáfanos, fenômenos poltergeist, desparecimento de gado, vegetação devastada por aterrissagens etc, esses parecem tópicos tirados de um índice analítico de algum ensaio ufológico recente, mas não é. Esses fenômenos não têm acontecido apenas nos últimos 70 anos, mas muito antes, nos séculos XVII, XVIII, e XIX, épocas em que qualquer aeronave que voasse dando provas de certas capacidades de velocidade era certamente não identificada, pois a técnica aeronáutica então não existia ou estava em seu início.

Além disso, pessoas foram abordadas durante estes séculos por seres de aspecto diáfano e com finalidades evasivas, não muito distantes da iconografia moderna feita de visitantes alienígenas provenientes de outros mundos. Portanto, o fenômeno é igual em linhas gerais, mas profundamente diferente em seu aspecto externo. Um fenômeno enganador, cujos autores tendem constantemente a lançar cortinas de fumaça para se esconderem por trás dela, pois assim conseguem agir tranquilamente, com fins que ainda nos escapam completamente.

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Umberto Visani

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