Edição 78
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Ashtar Sheran, um alien ou uma lenda urbana?

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01 de Jun de 2014
Seria a explicação para a ampla e complexa questão envolvendo Ashtar Sheran tão simples assim? Certamente, não. O tema merece estudos psicológicos, sociológicos e outros, além de ufológicos
Créditos: jAMES porto

Resisto a acreditar em quer que seja, que tente me convencer, por meio de argumentos ou ações, de sua capacidade de fazer milagres ou realizar utopias. É com este espírito crítico e pragmático que vejo surgirem estranhos grupos que se aproveitam descaradamente de um fenômeno real, e cujos líderes arrastam multidões de desavisados e enriquecem vendendo ilusões ufológicas. Independentemente desse estado de coisas, a psicologia da Gestalt pode ajudar em muito na interpretação de fenômenos reais. Uma Gestalt é uma forma de ver o irredutível.

É uma essência que está relacionada às estruturas básicas, indivisíveis, e desaparece se o todo é fragmentado em seus componentes. A teoria da Gestalt foi formulada no final do século XIX simultaneamente na Alemanha e na Áustria. Muitas vezes recorremos empiricamente aos seus métodos para melhor domínio da sensibilidade crítica em torno de determinada matéria.

A capacidade do ufólogo em selecionar a informação correta, por exemplo, é um princípio fundamental para que possa atingir plenamente os seus objetivos. No mundo da Ufologia, sonhar pode ajudar a trazer o conhecimento específico para o campo concreto de pesquisas. O desenvolvimento do juízo moral nos faz atentar justamente para as novas transformações pelas quais o planeta Terra está atravessando. Uma nova reorganização se faz necessária neste novo milênio. Em meio à nova geração de ufólogos, surge um debate que apela para uma nova postura e uma certa coerência no pensamento dos jovens. É como se esse pensamento fosse um gestor das verdadeiras dinâmicas de emancipação de uma nova pesquisa que tenta postular a validade ufológica. Vejo que novos vanguardistas surgem nesse campo de pesquisas e que serão eles os futuros herdeiros que legitimarão posições e, quem sabe, as novas doutrinas que deverão contribuir para que a Ufologia se torne reconhecida, enfim, como uma ciência social.

A Ufologia estará aberta às transformações que se darão no futuro — aliás, como sempre esteve — e cumprirá um papel fundamental na reorganização dos preceitos científicos, insurgindo como uma catalisadora de novos conhecimentos. Ela irá ainda conduzir a humanidade a novos processos de libertação religiosa e mística, os quais redundarão na reedição de velhos paradigmas sob a luz de novas realidades. Mas, para que tudo isso de fato ocorra, faz-se necessária a tomada de ações imediatas, entre elas o arredamento de crenças, lendas e superstições que apenas conspurcam e atravancam aqueles que procuram desenvolver um trabalho sério e diligente. É absolutamente inadmissível que extravagâncias como a de que um suposto ser extraterrestre no comando de uma frota intergaláctica estacionada sabe-se lá onde à espera de nossa autodestruição para promover o resgate de escolhidos, sejam aceitas por mentes razoavelmente sadias e equilibradas e que cultivam bom-senso.

Mentalidade anticientífica

Ouso afirmar que esses absurdos, embora já firmemente enraizados na tradição ufológica, não permitem que avancemos e até nos fazem retroceder a um tipo de mentalidade pré-lógica, anticientífica e contrária à razão. Só a ciência nos garante as bases necessárias para a reformulação dela mesma, se for o caso. Destarte, insisto em afirmar que a Ufologia caminha para novas compreensões, e os ufólogos terão de rever a maior parte de seus conceitos, leis e doutrinas. Daí o encargo obrigatório do aperfeiçoamento constante para o completo domínio dos conteúdos, das metodologias e das técnicas. O ufólogo dever ser um indivíduo bem formado e permanentemente atualizado, cabendo-lhe ao menos acompanhar as principais publicações científicas e acadêmicas. Essas são exigências plenamente justificáveis, considerando que a pesquisa ufológica requer um conhecimento multidisciplinar e versátil. Não podemos compactuar com a mediocridade, o superficialismo, a mistificação, o vedetismo, o egocentrismo ou qualquer tipo de devaneio ou surto psicótico. Cumpre-nos desenvolver um trabalho sério, paciente e persistente, sem pestanejar ou fazer concessões, livre de ilusões ou expectativas de salvação.

crédito: RAFAEL AMORIM

Não obstante, não devemos deixar de lado o aperfeiçoamento de nossos aspectos morais e espirituais para assim, quem sabe um dia, merecermos a honra e o privilégio de sermos contatados em definitivo por civilizações mais antigas, experientes e adiantadas do cosmos. Enquanto isso não acontece, prosseguimos insistindo na pesquisa ufológica, auxiliados por disciplinas como a física, a mecânica, a biologia, a astrofísica, a sociologia, a matemática e outras áreas do conhecimento humano. As pesquisas de campo e as vigílias configuram ações vitais para o recolhimento de informações, mas não se constituem em fins em si mesmos, pois precisam ser submetidas a rigorosas verificações e análises posteriores. Ao que tudo indica, os seres que nos visitam não estão interessados ou não se importam em satisfazer nossas naturais curiosidades com relação a eles. Isso sem mencionar o incompreensível acobertamento mundial adotado pelos governos que certamente sabem a verdade acerca dessa realidade.

Apesar de atrapalhada por tantas lendas urbanas, a Ufologia caminha célere para o estabelecimento de uma nova consciência social capaz de mobilizar toda a humanidade para ações concretas, compromissadas com a construção de novos saberes que finalmente a libertarão do jugo e dos grilhões da mentira, da ignorância e da obscuridade, colocados ao longo de séculos por classes, grupos, partidos, instituições e poderes movidos por interesses mesquinhos e espúrios de toda ordem, inclusive religiosos. Hoje vemos nitidamente que nunca passaram de vendilhões do templo, mercenários, gananciosos e egoístas, promotores e sustentáculos de torpes indústrias de captação do vil metal a exercerem o controle por meio da disseminação e estimulação de falsas crenças, superstições e fanatismos. “Grandes e pequenas religiões, grandes negócios”, essa é a triste realidade.

Novo clima cultural

Sem se aperceberem disso, muitos grupos místicos, esotéricos e até supostamente científicos — que de científicos mesmo nada possuem, a não ser a nomenclatura — estão fazendo o jogo dos que se locupletam no poder, servindo-os graciosamente. A Ufologia precisa é de intelectuais e cientistas legítimos, imbuídos de atitudes críticas, racionais e equilibradas, e não de chefes de “gangues ufológicas”. Toda ação de dominação, de exploração, autoritarismo ou fanatismo, é centrada na personalidade egoica de um chefe supremo que tudo sabe e decide, ou em um dogma inconteste. Este é o momento em que vive a Ufologia, infelizmente. Oxalá seja apenas uma passagem, uma transição, pois nessa toada pouco restará de aproveitável. Estamos imersos em uma realidade assustadora, talvez a de maior violência na história. Relações de dominação, exploração e agressão nunca foram tão cultivadas. Daí classificarmos esses radicais como desumanizadores do homem. Posições sectárias devem ser expurgadas de nosso meio.

Apesar de atrapalhada por tantas lendas urbanas, a Ufologia caminha célere para o estabelecimento de uma nova consciência social capaz de mobilizar toda a humanidade para ações concretas, compromissadas com a construção de novos saberes

A Ufologia nasceu originalmente como um contraponto à falta de abertura em outras áreas, anunciando um novo clima cultural que começava então a vicejar e que redundaria nos movimentos libertários das décadas seguintes. O espaço que conquistou e vem conquistando, graças ao esforço diligente e descompromissado de muitos que nunca fizeram questão de aparecer, insufla-nos a esperança de que um dia deixará de ser um mero hobby de fim de semana, um passatempo ou uma curiosidade para se integrar ao rol das ciências reconhecidas e que ocupam departamentos em universidades. O povo em geral também pode ter muita participação nisso, seja como apoiador ou mais um interessado em de alguma forma colaborar para que a Ufologia ganhe em credibilidade e deixe de ser uma “congregação de um bando de alucinados”. O sociólogo Fernando de Azevedo, autor de compêndios clássicos, como A Cultura Brasileira [Melhoramentos, 1958], definia a passagem de uma fase a outra como “limitada sobre si mesma, estando situada além de sua esfera física”. A transitividade é a forma como se manifestam as modificações à nossa visão. Com pés no chão, paciência, persistência, equilíbrio, bom-senso, espiritualidade e ética, chegaremos a uma Ufologia reconhecida e séria.

O que pensar de Ashtar Sheran: uma fantasia ou realidade?

A priori, não se deveria titubear, vacilar. Ashtar Sheran, do ponto de vista científico, só poderia ser uma fraude, criação fantasiosa de mentes indolentes, facilmente influenciáveis, vocacionadas para o misticismo, a espiritualidade e a mediunidade. Infelizmente, muitos ufólogos, impacientes com o pragmatismo e a aparente falta de resultados da Ufologia Científica, têm debandado para a Ufologia Esotérica, Mística ou Espiritualista. Isso é até certo ponto compreensível, diria até aceitável, já que essa ala não impõe limites e só lida com certezas agradáveis, como a de que o comandante intergaláctico é indubitavelmente o representante de uma raça de super-homens encarregados de proteger e salvar a Terra. Sempre acreditei incondicionalmente de que estamos sendo maciçamente visitados por extraterrestres desde os tempos imemoriais. Será que estaria cometendo algum pecado capital perante a comunidade ufológica admitindo isso abertamente? Assim, não seria de bom alvitre negar a priori a possibilidade da existência de Ashtar Sheran.

A Ufologia clássica, ou seja, aquela mais tradicional — que se dedica a investigar casos de contatos imediatos —, categorizou os seres que nos visitam em grupos definidos pelas letras gregas alpha, beta, gama, delta, ômega e sigma. Nessa exótica galeria tipológica, os seres beta são os que mais nos chamam a atenção devido à sua similitude com nós, humanos. Suas características físicas, tais como compleição e fisionomia, bem como seu padrão de comportamento, parecem confirmar a teoria de que os deuses do passado, ou seja, eles mesmos, teriam nos criado mediante técnicas de engenharia genética.

O biótipo de Ashtar Sheran converge para uma série de pressupostos e coincidências, entre elas a famigerada ideia de eugenia, tantas vezes defendida por grupos racistas. De minha parte, defendo que as espécies são as mesmas, em nada diferindo, exceto pelo uniforme espacial, aliás nada especial. Já a necessidade do uso ou não de uniforme pelos extraterrestres é outra questão. Talvez seja melhor para todos nós ufólogos e estudiosos desse complexo e polêmico assunto, que adotemos uma postura tolerante, de respeito às diferentes visões. Não devemos jamais recorrer aos expedientes que tantos prejuízos trouxeram no passado, como a censura e a segregação, tampouco julgar nada antecipadamente, pois a evolução do conhecimento depende do quanto estamos receptivos a novas ideias. — Gener Silva

O que é lenda e o que é realidade sobre Ashtar?

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Jun de 2014

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