ARTIGO

As revelações do Pentágono

Por Thiago Luiz Ticchetti | Edição 255 | 01 de Fevereiro de 2018

NÃO HÁ
Créditos: RAFAEL AMORIM, EXCLUSIVO PARA A REVISTA UFO

As revelações do Pentágono

O interesse do governo e da indústria armamentista dos Estados Unidos pelos discos voadores não é algo novo e nem que cause surpresa. Qualquer país que tenha os meios necessários irá investigar quem ou o que desrespeitar e invadir seu espaço aéreo. Essa é uma ação de segurança nacional e todos sabemos como tal assunto é levado a sério pelos norte-americanos. A questão é saber o que mostram os resultados dessas investigações.

Em 1952, com um discurso ambíguo, os militares do todo-poderoso Pentágono apresentaram à imprensa o famoso e polêmico Projeto Blue Book [Livro Azul] nos seguintes termos: “A Força Aérea Norte-Americana (USAF) criou o Blue Book baseado em três propósitos. O primeiro é determinar se há alguma ameaça à segurança nacional pelos chamados UFOs. O segundo é nos prevenir contra quaisquer surpresas tecnológicas. E o terceiro, talvez o mais importante, é provar a existência dos UFOs”.

O Blue Book durou de 1952 a 1970 e produziu mais de 12 mil páginas de documentos referentes à investigação de milhares de casos de avistamentos de UFOs e supostos contatos com extraterrestres. Desde então, o governo dos Estados Unidos sempre negou que ainda pesquisasse o fenômeno. Porém, quase 40 anos depois, em dezembro passado, a mentira não só foi descoberta, como foi publicada nas páginas de um dos mais respeitados e importantes jornais do mundo, o The New York Times.

Os Estados Unidos e os UFOs

Dentro do orçamento de US$ 611 bilhões destinados ao Ministério da Defesa dos Estados Unidos, encontrar US$ 22 milhões dirigidos a um pequeno projeto chamado Programa Avançado de Identificação de Ameaças Aeroespaciais (AATIP) não era uma tarefa fácil, exatamente como queria o Pentágono. Segundo funcionários do Departamento de Defesa, e de acordo com alguns documentos obtidos pelo The New York Times, durante anos o programa investigou relatos sobre UFOs sob a direção de um oficial da Inteligência militar chamado Luis Elizondo.

Após a publicação de dois artigos pelo jornal denunciando a existência do programa, o Departamento de Defesa alegou que ele teria sido encerrado em 2012. Seus patrocinadores civis, porém, dizem que ele continua até hoje e que seus documentos permanecem classificados como secretos ou ultrassecretos. Quando começou, em 2007, o programa foi estabelecido e financiado em grande parte a pedido de Harry Reid, à época senador democrata do estado de Nevada e líder da maioria no Senado norte-americano. Reid há muito tempo se interessava pelos fenômenos espaciais.

A maior parte do dinheiro destinado à investigação foi pago para a Bigelow Aerospace, empresa de pesquisa aeroespacial dirigida por Robert Bigelow, um empresário bilionário e amigo de longa data do senador, que atualmente trabalha conjuntamente com a Agência Espacial Norte-Americana (NASA) para produzir aeronaves que serão usadas no espaço no futuro. Entrevistado pelo programa de TV 60 Minutes, da Rede CBS de Televisão, em maio de 2017, Bigelow disse que estava “absolutamente convencido de que os alienígenas existem e que visitam a Terra a bordo de UFOs”. É um aficcionado pelo assunto — e também firmemente interessado na tecnologia dos UFOs para seus projetos empresariais de exploração espacial.

Arma inovadora

De acordo com o Blue Book, o interesse dos norte-americanos pelos UFOs teria começado durante a Segunda Guerra Mundial, com os relatos dos tripulantes de aviões de combate sobre estranhas esferas de luz em torno de suas aeronaves ou até mesmo passando por dentro delas. Os objetos se tornaram conhecidos como foo fighters [Combatentes tolos]. Enquanto os países do Eixo imaginavam que aquelas bolas fossem alguma inovadora arma dos Aliados, estes pensavam que eram algo feito pelo Eixo. Houve discussões nos mais altos níveis de inteligência e comando sobre os foo fighters, até que se descobriu que não eram artefatos terrestres. 

Um dos envolvidos nessas discussões era um oficial da Inteligência norte-americana, o coronel Howard McCoy. Os cientistas que investigaram os objetos não conseguiram descobrir a sua origem exata e com o final da guerra a prioridade para o assunto diminuiu. Por fim, a pesquisa se encerrou sem que uma resposta fosse obtida — ou apenas aceitando-se que eram artefatos extraterrestres, sem admitir isso à população. As tais esferas, oficialmente, foram consideradas fenômenos aéreos não identificados (FANI). Mas os avistamentos não acabaram. 

FONTE: RAFAEL AMORIM

Um dos principais motivos que levaram os Estados Unidos a investigarem os UFOs foram suas quedas e a possibilidade de utilizar sua tecnologia para fins bélicos

Em 1946, primeiro na Finlândia, depois na Suécia e finalmente no resto da Escandinávia e da Europa, as pessoas viam o que chamavam de ghost rockets [Foguetes fantasma], descritos como sendo parecidos com foguetes e alguns até semelhantes às armas V desenvolvidas pelos nazistas, mas em nada se comparando com naves espaciais e muito menos extraterrestres. As observações continuaram no final do verão daquele ano, quando vários governos escandinavos impuseram censura às notícias, e com isso as ocorrências deixaram de ser conhecidas. Até hoje se acredita que houve muito mais relatos do que se tem registro.

Os avistamentos, no entanto, interessavam muito à Inteligência norte-americana. O pensamento da época era o de que aquilo poderia ser algum tipo de armamento soviético desenvolvido a partir de uma nova tecnologia retirada da Alemanha com o fim da guerra. Anos depois, descobriu-se que os soviéticos não haviam desenvolvido tais estranhas aeronaves, mas isso não significava que o interesse por elas não fosse considerável em 1946. E o coronel McCoy foi um dos militares que receberam a tarefa de identificar os foguetes fantasma.

Começo dos estudos oficiais

No final de 1946, de acordo com pesquisas feitas pelos ufólogos norte-americanos Wendy Connors e Michael Hall, McCoy recebeu ordens para estabelecer um estudo não oficial sobre os FANIs. O coronel tinha um escritório na Base Aérea de Wright Field, com portas fechadas ao público e acesso muito restrito, e lá começou a reunir novos relatos. Um dos melhores veio da Estação Meteorológica de Richmond, no estado da Virgínia, em 01 de abril de 1947. A estação registrou uma série de avistamentos que incluíram, de acordo com os relatórios, objetos semelhantes a discos voadores. Esta informação é importante porque demonstra que já havia interesse relevante da estrutura de comando militar pelo fenômeno, mesmo antes do avistamento de Kenneth Arnold, que ocorreu no final de junho de 1947.

Quando a experiência de Arnold foi publicada pela imprensa nacional, a investigação não oficial tornou-se então oficial e passou a ser feita por militares, cientistas e até mesmo por agentes do Escritório Federal de Investigação (FBI). Em setembro de 1947, o tenente-general Nathan F. Twining, chefe do Comando de Materiais Aéreos, emitiu uma carta na qual afirmava que aqueles objetos eram reais, e não ilusões ou ficção. Twining, então, ordenou a criação de um projeto para investigar “os tais discos voadores”. 

FONTE: CNN

Luis Elizondo, ex-funcionário do Pentágono, foi quem acendeu o estopim desta imensa polêmica que rodou o planeta

Diferentemente do que pensa a maioria das pessoas e do que os meios de comunicação publicam atualmente, Twining não iniciou o Blue Book, mas o Projeto Sign [Sinal], que começou a funcionar oficialmente em 1948 — e o militar responsável pela elaboração das diretrizes e objetivos do programa foi justamente o coronel McCoy, o homem que estivera envolvido com o tema desde a Segunda Guerra Mundial.

No início, o nome do projeto foi escondido do público por trás de outra denominação, Projeto Saucer [Pires]. Muitos, se não a maioria, dos envolvidos no Sign acreditavam que estavam ocorrendo visitas de extraterrestres à Terra, e para provarem sua argumentação criaram um documento chamado Estimativa da Situação. Usando as melhores evidências disponíveis, criaram um relatório ultrassecreto que foi enviado ao general Hoyt S. Vandenberg, então elevado oficial do Exército norte-americano — na época, a Força Aérea era parte do Exército, e não uma arma à parte.

Destruído

Vandenberg não achou que as provas exibidas confirmavam que os discos voadores fossem aeronaves alienígenas e o documento teve seu sigilo liberado, e em seguida foi simplesmente destruído. Embora pareça que os militares tenham retrocedido ao desclassificar e depois destruir o relatório, a verdade é que ao agirem dessa forma nenhum registro permaneceu no sistema. Em outras palavras, a destruição direta do material exigiria que a documentação fosse apresentada ao público antes e que se provasse que ele havia sido devidamente destruído depois. Mas fazendo-se primeiro a desclassificação, nenhuma ação posterior seria necessária, uma vez que o documento já era de domínio público.

Os regulamentos da Força Aérea impediam a liberação de informações sobre um avistamento de UFO caso ele tivesse uma explicação, mas exigiam que tais informações fossem classificadas como secretas se nenhuma explicação fosse encontrada

Depois disso houve uma faxina entre os integrantes do projeto e os que permaneceram no Sign emitiram um relatório final sugerindo que não havia nada nas ditas ocorrências ufológicas que não pudesse ser explicado pela ciência convencional — e, claro, todos os que assinaram o documento Estimativa da Situação foram dispensados. Não havia mais nada a fazer e a impressão deixada era a de que a Força Aérea havia concluído seu estudo. Mas, na verdade, mais uma vez o nome do programa foi alterado e o Sign passou a chamar-se Projeto Grudge [Rancor], sendo que as investigações continuaram em sigilo e à distância do público. 

Em certo momento o Grudge produziu um longo relatório final, que novamente sugeria que os UFOs podiam ser convencionalmente explicados, ??mesmo que houvesse um grande número de avistamentos de objetos que não foram identificados. Tudo bem ao gosto da Força Aérea. Enfim, o projeto foi praticamente esquecido e mais tarde se transformou no mais conhecido estudo de todos, ao menos até a presente data. O Grudge, então, evoluiu para o Projeto Blue Book, com interesse renovado após uma série de avistamentos de UFOs registrados em radar. 

Dados sólidos

Por cerca de 18 meses, a partir do verão de 1952, houve um esforço para se reunir informações sólidas e investigar os relatos de forma imparcial. Mas os velhos hábitos voltaram a imperar e o projeto tornou-se muito mais um trabalho de relações públicas do que de objetivo científico. Os regulamentos da Força Aérea, em particular o AFR 80-17, impediam a liberação de informações sobre um avistamento de UFO caso ele tivesse uma explicação plausível, mas exigiam que tais informações fossem classificadas como secretas ou ultrassecretas se nenhuma explicação fosse encontrada. As perguntas sobre esses avistamentos inexplicados eram, então, dirigidas a uma autoridade superior — e parece que este ritual processual permanece até os dias atuais.

Aqui vale a pena ressaltar que em janeiro de 1953 a Agência Central de Inteligência (CIA) promoveu um programa chamado Painel Robertson, no qual um grupo de cientistas se reuniu para estudar o Fenômeno UFO. As conclusões, e provavelmente também o relatório final, já existiam antes do encerramento das sessões do colegiado — e sua recomendação, já bem aguardada, claro, foi a de que não havia nada de extraterrestre nos UFOs e que uma ação para encerrar o assunto deveria ser colocado em prática. 

FONTE: USA TODAY

Praticamente todas as agências de segurança e inteligência dos Estados Unidos se envolveram nas discussões, a exemplo da CIA

Em outubro de 1957, de acordo com a documentação encontrada nos arquivos do Blue Book, foi criado outro projeto igualmente secreto, o Moon Dust [Poeira Lunar], cuja missão era recuperar restos de materiais espaciais, tanto de origem terrestre quanto de origem desconhecida, ou seja, extraterrestre. Esse programa teve em suas mãos a responsabilidade de investigar os UFOs acidentados em nosso planeta. Sabemos disso devido aos documentos liberados pela Lei de Liberdade de Informação (FOIA) norte-americana. 

Durante a década de 60, a Universidade do Colorado, tendo à frente o doutor Edward U. Condon, aceitou uma nova proposta da Força Aérea Norte-Americana (USAF) para investigar os UFOs. Surgia então o Comitê Condon. Embora seja dito que a investigação tenha sido imparcial, hoje sabemos que ela foi tudo menos isso. O tenente-coronel Robert Tippler forneceu instruções ao doutor Condon, sugerindo que os militares não consideravam os UFOs uma ameaça para a segurança nacional, que não havia nada de interesse científico nos relatos de avistamentos e que a Força Aérea havia feito um bom trabalho investigando os casos antes, dando-os como explicados. Assim, o programa foi encerrado e não houve mais investigações ufológicas sancionadas pelo governo dos Estados Unidos desde então — pelo menos não de conhecimento público.

As mentiras

A documentação disponibilizada através da FOIA provou que o Moon Dust continuou mesmo após o encerramento do Blue Book. Mesmo assim, em 1985, respondendo ao senador norte-americano Jeff Bingaman, a Força Aérea informou que tal projeto nunca havia existido. Mas havia muitos documentos provando o contrário, boa parte deles nas mãos de ufólogos, e quando eles foram apresentados ao Departamento de Estado, a Força Aérea mudou a resposta, alegando que o projeto existira, mas que nunca saíra do papel.

Mais uma vez, novos documentos vazaram comprovando que os militares estavam mentindo. Salientamos que os integrantes do Moon Dust, ao que parece, não conseguiram obter nenhum material espacial, seja de origem terrestre quanto extraterrestre — mas o importante aqui é saber que o projeto existiu, que foi implantado e que, quando inquirida, a Força Aérea Norte-Americana (USAF) negou tudo, em flagrante ilegalidade.

Em 1985, Robert Todd, um cético a respeito da fenomenologia ufológica, apresentou um pedido por meio da FOIA perguntando à Força Aérea sobre o novo nome dado ao Moon Dust. Em resposta, Todd foi informado de que essa nova denominação estava sob sigilo e que não poderia ser divulgada. Em outras palavras, também não negaram que o projeto existiu, apenas que seu nome havia mudado e que não poderia ser informado.

FONTE: OEING

Aviões militares F-18 dos Estados Unidos semelhantes aos que teriam sido usados em perseguições a discos voadores

Mas o que tudo isso tem a ver com a publicação feita pelo The New York Times em dezembro passado? Simplesmente nos mostra uma longa lista de afirmações mentirosas feitas pelos órgãos militares e governamentais em relação às suas investigações do Fenômeno UFO. Isso demonstra que mesmo a mais resistente caixa-preta apresenta rachaduras e que seus segredos — desde há muito tempo ignorados pela mídia convencional — sempre acabam chegando ao conhecimento público.

Agora descobrimos que US$ 22 milhões foram transferidos do Pentágono para a empresa do milionário Robert Bigelow, e que o trabalho conjunto de sua empresa e do projeto chefiado por Luis Elizondo resultou em dezenas de documentos que descrevem avistamentos de naves que se moviam a altíssimas velocidades sem exibir sinais visíveis de propulsão ou que pairavam estáticas sem meios aparentes de sustentação.

Sistemas de propulsão

Como já se disse, a Bigelow Aerospace, de Bigelow, desenvolve tecnologia espacial e tem um grande interesse nas manifestações de UFOs, já que tenta descobrir como são seus sistemas de propulsão, provavelmente para seu uso em projetos que venha a desenvolver. De maneira mais ampla, a maior parte dos estudos focados nos relatos de avistamentos de militares, especialmente dos pilotos militares, indica que os cientistas que trabalharam tanto para Bigelow quanto para Elizondo estavam procurando por algo mais do que apenas luzes no céu noturno — se algo pudesse ser aprendido sobre a dinâmica de voo dos UFOs, então algum progresso poderia ser feito no desenvolvimento de um sistema que o reproduzisse.

E aqui cabe perguntar: mas como isso é possível, se todos os projetos oficiais de militares e do governo dos Estados Unidos, sigilosos ou não, afirmaram que os avistamentos não têm nada de extraterrestre? Por que se gastar milhões de dólares em uma investigação improdutiva, cuja resposta já se conhece? O governo norte-americano deu US$ 22 milhões de presente para Bigelow, sua corporação e outros envolvidos?

Funcionários do Programa Avançado de Identificação de Ameaças Aeroespaciais (AATIP) do Pentágono também analisaram vários vídeos de encontros entre veículos desconhecidos e aeronaves militares, incluindo um que foi recentemente liberado, no qual é possível ver um objeto oval esbranquiçado e do tamanho de um avião comercial sendo perseguido por dois aviões FA-18F da Marinha norte-americana, baseados no porta-aviões Nimitz, sobre a região de San Diego, em 2004.

US$ 22 milhões foram transferidos do Pentágono para a empresa do milionário Robert Bigelow, e o trabalho conjunto de sua empresa e do projeto chefiado por Luis Elizondo resultou em dezenas de documentos que descrevem avistamentos de naves

O senador Harry Reid, que se aposentou da política em 2017, disse que estava orgulhoso do programa. “Eu não tenho qualquer vergonha ou problema em dizer que consegui isso [Que o programa fosse realizado]. Acho que é uma das coisas boas que fiz em meu serviço no Congresso. Fiz algo que ninguém jamais fez”, declarou ele em uma entrevista. Reid também teria feito, em 2009, um pedido ao governo para se aumentar o nível de segurança do projeto, em vista dos progressos obtidos na identificação do que foi descrito como “achados altamente sensíveis quanto a objetos aeroespaciais não convencionais”.

O Pentágono, por sua vez, teria liberado, também em 2009, um documento dizendo que “o que era considerado ficção científica é agora fato científico”, e que “os Estados Unidos não tinham capacidade de se defender contra algumas das tecnologias descobertas”. Mesmo assim, o pedido de Reid foi negado. Dois outros ex-senadores que foram altos membros de um subcomitê de gastos de Defesa — Ted Stevens, um republicano do Alasca, e Daniel Inouye, um democrata do Havaí — também apoiaram o programa. Stevens morreu em 2010 e Inouye, em 2012.

Leonardo da Vinci

Podemos considerar o valor US$ 22 milhões, que se acredita ser a soma total aplicada à pesquisa ufológica oficial do Pentágono somente entre 2007 e 2012, como uma agulha no palheiro dentro de um orçamento anual de US$ 600 bilhões, que a fatia que cabe à Defesa do país. Hoje sabemos pela denúncia do The New York Times que o financiamento foi usado pela Bigelow Aerospace para a contratação de pessoal e encomenda de pesquisas para o programa. Ainda sob a direção de Bigelow, a empresa modificou alguns edifícios em Las Vegas para o armazenamento de ligas metálicas e outros materiais que Elizondo e os envolvidos no programa disseram ter sido recuperados de acidentes com objetos voadores não identificados.

Os cientistas do Programa Avançado de Identificação de Ameaças Aeroespaciais (AATIP) também estudaram pessoas que alegavam ter experimentado efeitos físicos após encontros com UFOs e as examinaram à procura de quaisquer mudanças fisiológicas. Além disso, conversaram com militares que tiveram avistamentos de naves desconhecidas. “Estamos em uma posição similar à de Leonardo da Vinci se ele recebesse de presente o controle remoto da porta de uma garagem qualquer”, disse a respeito do programa Harold E. Puthoff, engenheiro que realizou pesquisas sobre percepção extrassensorial para a CIA e depois trabalhou como contratado para o programa. “Em primeiro lugar, ele tentaria descobrir o que era aquele material plástico, mas claro que não saberia nada sobre os sinais eletromagnéticos envolvidos ou sua função”, complementou Puthoff.

Segundo Bigelow, os Estados Unidos são o país mais atrasado do mundo nessa questão. Para o milionário, os cientistas norte-americanos têm medo de serem condenados ao ostracismo, ao ridículo e ao desemprego se revelarem serem a favor da realidade ufológica, e a mídia tem medo de tratar o assunto de forma séria, como se deve fazer. “China e Rússia são muito mais abertas e trabalham o assunto em grandes organizações nacionais. Países menores, como Bélgica, França, Inglaterra e alguns da América do Sul, como o Chile, também estão abertos à pesquisa. Eles são proativos e dispostos a discutir o assunto, em vez de o tratarem com desdém e descaso”, disse Bigelow.

Ameaças espaciais

Após a publicação das reportagens no The New York Times, Thomaz Crasso, um dos porta-vozes do Pentágono envolvido na polêmica, referindo-se a um alegado fim do programa de pesquisas ufológicas oficiais, declarou em e-mail para o jornal que “foi determinado que haviam outras questões de maior prioridade que mereciam financiamento público, e o Ministério da Defesa achou melhor fazer essa mudança”. Ou seja, deu o programa como encerrado. Mas como assim? Não há mais ameaças espaciais?

Segundo Luis Elizondo, porém, a única coisa que parou foi o financiamento do governo à pesquisa, que teria sido suspenso em 2012. Desde então, o programa passou a contar com funcionários da Marinha e da própria CIA, e a desenvolver suas atividades fora de seu escritório no Pentágono — em outubro passado, Elizondo se demitiu em protesto ao que ele caracterizou como “sigilo excessivo e oposição interna” a forma como se trata do Fenômeno UFO no país.

FONTE: COMEDY CENTRAL

Leslie Kean teria sido a grande responsável por anunciar a revelação

Quanto aos UFOs em si, ou seja, o material de estudos do programa do Pentágono, Elizondo declarou em recente entrevista à rede de notícias CNN que em sua opinião “existem evidências bastante contundentes de que não estamos sozinhos”. Ele também comentou que o programa investigou vários casos envolvendo objetos voadores não identificados próximos ou sobre instalações militares de alta segurança. “Essas aeronaves demonstram características que não se encontram no inventário militar dos Estados Unidos, nem em qualquer outro país”.

O oficial de Inteligência demissionário ressaltou que seus comentários não significam necessariamente que as naves observadas e registradas em radar sejam extraterrestres, pois o foco da investigação conduzida pelo programa era descobrir qualquer ameaça potencial relacionada à segurança nacional dos Estados Unidos, e também que seu objetivo era identificar o que as testemunhas viam e determinar se eram algo desconhecido. Para dar um tom ainda mais enigmático, Elizondo disse, “e nós descobrimos muitas coisas”.

Além da próxima geração

Demonstrando uma postura muito diferente do que normalmente vemos em agentes do governo e militares, o ex-funcionário do Pentágono foi muito claro em seu posicionamento. “Eu não sei de onde essas coisas vêm. Mas estamos seguros de que não são daqui. Se há russos, chineses ou pequenos homens verdes de Marte em sua tripulação, eu prefiro não especular, pois quero que o foco seja puramente científico. Nossas perguntas sempre foram: o que é isso que estamos vendo? Isso representa uma ameaça à segurança nacional?”, declarou.

Para Luis Elizondo, existe a necessidade de se demandar mais atenção aos muitos relatos de avistamentos de pessoal da Marinha e de outros órgãos, referindo-se a interferências de UFOs em plataformas militares de armamentos e exibindo capacidades que estão além da próxima geração de sistemas bélicos. Obviamente que suas palavras não representam as do governo, como ele mesmo deixou claro, mas suas declarações apontam fortemente para o fato de que as evidências impedem que se deixe de lado a possibilidade de que os artefatos observados sejam extraterrestres.

Isso ficou muito claro quando o ex-chefe do programa afirmou que as aeronaves anômalas observadas principalmente pelos militares pareciam desafiar as leis da aerodinâmica. “Foram observados objetos que não têm qualquer característica óbvia que permita seu voo ou qualquer meio evidente de propulsão, e que fazem manobras extremas, muito além do limite de forças G que um ser humano pode suportar”. Ao final da entrevista, Elizondo disse ainda que deixou um sucessor em seu lugar, mas não revelou o nome dele.

Um dos pontos que mais chamou a atenção dos editores do jornal foi que não havia fontes anônimas — todos os nomes seriam publicados com a concordância dos envolvidos. Mas Leslie Kean sabia que tinha que ouvir todas as partes da história

Atualmente, ao lado dos também ex-funcionários do Departamento de Defesa, Christopher K. Mellon e Harold E. Puthoff, Luis Elizondo faz parte da To the Stars: Academy of Arts and Science [Para as Estrelas: Academia de Artes e Ciência], um grupo que descreve a si mesmo como “uma iniciativa que mobiliza as mentes mais brilhantes desde as sombras secretas do setor científico aeroespacial e do Departamento de Defesa”. O grupo foi formado pelo polêmico Tom DeLonge, ex-vocalista da banda de rock Blink 182.

Uma das dúvidas mais recorrentes sobre esta grande polêmica está ligada à origem das matérias do jornal — a pergunta que vem à mente de todos é: como o The New York Times conseguiu descobrir que o Pentágono estava financiando um programa contra ameaças espaciais. Segundo Ralph Blumenthal, que se tornou consultor do jornal após trabalhar 45 anos para o governo dos Estados Unidos, “não foi nada fácil”.?Tudo teria começado com uma informação fornecida pela jornalista e escritora Leslie Kean, consultora da Revista UFO de longa data e autora do livro OVNIs: Militares, Pilotos e o Governo Abrem o Jogo [Editora Idea, 2011]. Em uma reunião confidencial realizada em 04 de outubro de 2017 em um hotel de Washington, sede do Pentágono, onde estavam presentes também vários atuais e ex-funcionários da Inteligência e um empregado terceirizado do Ministério da Defesa, Leslie teria conhecido Elizondo, já fora do cargo de diretor de uma operação sobre o qual ela nunca ouvira falar, o tal Programa Avançado de Identificação de Ameaças Aeroespaciais (AATIP).

A jornalista ficou então sabendo que o programa, de natureza secreta, era financiado em parte pelo governo devido à iniciativa do senador Harry Reid e tinha o objetivo de investigar ameaças aéreas e espaciais, incluindo o que os militares preferem chamar de “fenômenos aéreos não identificados” ou apenas de “objetos”. Essa informação era bombástica e ao mesmo tempo contraditória, já que os militares vinham anunciando desde 1969 que não valia a pena investigar os UFOs. Leslie também soube que Elizondo tinha acabado de se demitir para protestar quanto ao que ele caracterizava como secretismo excessivo e oposição interna.

Escondido no meio do orçamento

Depois disso, a autora passou horas revisando documentos não classificados do programa de US$ 22 milhões, operado em sua grande parte em aberto, ou seja, sem restrição de acesso às informações — mas seriamente escondido no meio do enorme orçamento da Defesa dos Estados Unidos, com apenas algumas partes secretas ou ultrassecretas Alguns dias após a reunião, Elizondo e outros, incluindo Puthoff e Mellon, anunciaram que estavam se juntando a um novo empreendimento comercial, justamente o Para as Estrelas de Tom DeLonge. Seu objetivo seria arrecadar dinheiro para novas pesquisas dos UFOs. Leslie Kean então escreveu para o jornal Huffington Post sobre o programa, mas ainda com poucos detalhes.

Foi então que ela e Blumenthal, do The New York Times, reuniram-se novamente com Elizondo em 31 de outubro, agora na Filadélfia. Três dias depois, o consultor do jornal enviou um e-mail para o diretor-executivo da publicação, Dean Baquet, relatando que tinha em mãos uma história incrível envolvendo um alto funcionário da Inteligência dos Estados Unidos que havia saído recentemente de seu cargo e estava expondo um programa sigiloso do Pentágono, que agora estava confirmado.

Um dos pontos que mais chamou a atenção dos editores do jornal foi que não havia fontes anônimas — todos os nomes seriam publicados com a concordância dos envolvidos. Mas Leslie sabia que tinha que ouvir outras partes da história e por isso entrevistou o magnata Robert Bigelow, que, surpreendentemente, também confirmou sua participação no programa e ainda disse que os norte-americanos estavam ficando para trás na pesquisa do Fenômeno UFO. O que veio depois, todos já sabemos.

Outras revelações

A repercussão da reportagem do The New York Times continua produzindo notícias bombásticas no meio ufológico. Uma delas veio das declarações do senador Reid, que admitiu em entrevista que ocorrências de UFOs sobre bases militares chamaram muito a atenção e foram seriamente investigadas. Em outra entrevista, esta para a KLAS-TV, uma afiliada da CBS em Las Vegas, Reid reconheceu que entre os casos mais bem pesquisados estão os que envolvem a presença de UFOs sobre instalações militares com armas nucleares. “São estas a que ‘eles’ preferem”.

Em uma troca de mensagens entre o jornalista George Knapp, da KLAS-TV, e o pesquisador Robert Hastings, igualmente consultor da Revista UFO e autor da obra Terra Vigiada [Código LIV-025 da coleção Biblioteca UFO. Confira na seção Shopping UFO desta edição e no Portal UFO: www.ufo.com.br], Knapp descobriu que os incidentes investigados aconteceram em outubro e novembro de 1975. Os arquivos liberados, assim como depoimentos de ex-militares da Força Aérea Norte-Americana (USAF), confirmam a presença de UFOs em áreas onde haviam mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs) — essas ocorrências se deram principalmente sobre os silos da Base Aérea Malmstrom, no estado de Montana, e nos depósitos de armas nucleares das Bases Aéreas de Loring, no Maine, e de Wurtsmith, no Michigan.

FONTE: US NAVY

Mais uma vez vem à tona a questão da utilização de energia nuclear para fins bélicos na nova polêmica

Foram obtidas também informações, a partir de um diário do Comando Norte-Americano de Defesa Aeroespacial (NORAD), relatando UFOs observados sobre os silos em Malmstrom por várias horas em 07 de novembro de 1975. Um dos intrusos foi descrito com tendo a forma de disco e cor laranja esbranquiçada. Nove UFOs foram rastreados por radar e perseguidos por caças F-106, que não conseguiram alcançá-los. Como resultado desse incidente, e também dos ocorridos em Loring e Wurtsmith, o Pentágono colocou todas as suas forças nucleares em um status de alerta mais elevado, chamado de Opção de Segurança 3.

Hastings aponta que tais episódios são somente a ponta do iceberg, pois outros documentos já desclassificados descrevem a observação de atividades ufológicas ao longo de décadas em outros locais de silos nucleares e de produção ou de armazenamento de armas atômicas — como os Laboratórios Sandia, no Novo México, nas instalações de produção de plutônio em Hanford, em Washington e em Savannah River, na Carolina do Sul —, além de em áreas de testes destas armas em Nevada e no Oceano Pacífico. Casos também foram registrados em locais de testes de mísseis, como a Base Aérea de Vandenberg, na Califórnia, e em Cabo Canaveral, na Florida.

A repercussão da notícia

O debate é grande e envolve muitos ufólogos e cientistas. E um destes mais conhecidos na atualidade não se furtou a comentar o que está acontecendo. O astrônomo norte-americano Neil deGrasse, da série Cosmos do canal NatGeo, admitiu não ter ideia do que foi filmado pelos caças F-18 disparados no encalço de UFOs. No entanto, paradoxalmente, descartou o que está sendo descrito como uma das evidências mais convincentes para provar que alienígenas estão visitando nosso planeta a bordo de espaçonaves. Disse deGrasse em entrevista à rede CNN:

“Essa evidência é tão insignificante que não tenho interesse nela. Liguem-me quando tiverem um convite para jantar com um alienígena. Há uma grande distância muito grande entre admitir que não sabemos o que está neste vídeo e afirmar que devem ser alienígenas. O universo é repleto de mistérios. Só porque você não sabe o que está vendo não significa que aquilo sejam aliens. Os cientistas vivem diante de mistérios todos os dias. As pessoas se incomodam quando não conseguem explicar o que veem, já nós cientistas, não. Vamos continuar verificando esses mistérios”.

Tais episódios são somente a ponta do iceberg, pois outros documentos já desclassificados descrevem a observação de atividades ufológicas ao longo de décadas em outros locais de silos nucleares e de produção ou de armazenamento de armas atômicas



Mesmo assim, Neil deGrasse espera que as investigações tenham descoberto o que era aquele objeto voador que aparece na filmagem [Veja box]. Enfim, mesmo dentro da comunidade ufológica há aqueles que não se deixam levar pela notícia e não acreditam que ela possa ser um estopim para que outros países revelem o que sabem sobre os UFOs. Segundo o pesquisador inglês Nick Pope, que trabalhou no Ministério da Defesa do Reino Unido investigando eventos ufológicos, as revelações sobre o programa do Pentágono são muito interessantes e importantes. Ele afirmou que, assim como seus colegas norte-americanos, o governo inglês também negava — mesmo para os parlamentares do país — que estava realizando estudos secretos sobre UFOs.

Disse Pope: “A melhor parte de tudo isso é que está provado que os Estados Unidos estavam pesquisando e investigando UFOs, mesmo enquanto negavam isso veementemente”. Ele também acha bastante interessante que a maior parte do dinheiro usado nas pesquisas tenha ido para a Bigelow Aerospace. “Redirecionar o trabalho para o setor privado é uma maneira que o governo encontrou para minimizar o controle do Congresso, e garante que a maior parte do projeto esteja livre da Lei de Liberdade de Informação (FOIA), que não se aplica às empresas particulares”, explicou.

“Recursos já existentes”

Pope ainda declarou que, embora o projeto do Pentágono tenha aparentemente sido encerrado em 2012, ele tem certeza de que as investigações continuam. “Eu acho que o projeto mudará seu nome e será deslocado para outro lugar, tornando mais difícil para os jornalistas seguirem sua trilha”. Para ele, é impossível se dizer o quanto de dinheiro está envolvido, mas Pope acredita que haja maneiras de ocultar os custos — como a incorporação das investigações dentro de um programa de inteligência que estuda drones, por exemplo, realizando o trabalho usando o mesmo pessoal e equipamentos. “Isso poderia até permitir ao governo dizer que não há custos adicionais, porque as investigações estão sendo realizadas a partir de recursos já existentes. Tudo depende de como você faz a contabilidade”, disse.

Já o ufólogo australiano Bill Chalker pensa que o final de 2017 trouxe uma oportunidade para os pesquisadores contemplarem as implicações e as consequências do estudo secreto do Pentágono. “Vamos começar a determinar os pontos de reflexão para um debate sobre o fenômeno ufológico de forma mais madura e sensível, juntamente com uma ação mais séria da mídia. Os próximos meses devem revelar se esses são desenvolvimentos verdadeiramente significativos ou aberrações temporais”.

FONTE: FLORIDA POLITICS

Bob Bigelow, o multimilionário e aficcionado por UFOs que recebeu os US$ 22 milhões

Chalker afirmou também que o que mais o impactou foram as palavras do senador Harry Reid: “A verdade está lá fora. Se alguém disser que tem a resposta estará mentindo. Nós não as conhecemos, mas temos muitas evidências para apoiar as nossas afirmações. Isso é sobre ciência e segurança nacional. Se a América não assumir a liderança na resposta a essas perguntas, outros o farão”.

Já Jan Harzan, diretor-executivo da Mutual UFO Network (MUFON), disse que a entidade não se manifestará oficialmente por enquanto, mas que apoia toda a liberação de informação que seja feita para a sociedade. “Estamos felizes em ver que o Pentágono admitiu que estuda os UFOs. Embora oficialmente o governo dos Estados Unidos diga que não tem um programa para rastrear esses objetos, aposto que o programa continua — e com mais verbas e cada vez mais enterrado no ‘orçamento secreto’, que poucos conhecem”, afirmou Harzan. Ele virá ao Brasil em março para lançar o Curso de Ufologia e Investigação de Campo da Revista UFO durante o XXII Congresso Brasileiro de Ufologia [Veja box].

A pesquisa oficial

Por sua vez, o pesquisador e editor inglês Philip Mantle acredita que há muito mais informações e provas do que aquilo que já se revelou sobre o programa do Pentágono. “Os militares não gastaram 22 milhões de dólares em apenas algumas investigações. Acredito que possa haver aqui, no Reino Unido, um departamento que repasse informações sobre UFOs para os Estados Unidos. E não me surpreenderia se outros países também tivessem algo semelhante”. Para ele, a parte mais difícil será encontrar os rastros desses estudos secretos, pois simplesmente ninguém suspeitava do que acabou de vir a público. “Se eu quisesse saber se o meu próprio país tem um estudo secreto desse tipo, por onde eu deveria começar a procurar? Tenho certeza de que há mais por vir e que outros projetos secretos também estão fazendo pesquisas — e não apenas nos Estados Unidos, mas também em outros países”, afirmou.

Mas nem todos os projetos precisam ser secretos. Temos exemplos de comissões de investigações ufológicas oficiais em países como o Chile, Argentina, Uruguai e Peru. Além deles, outro grande exemplo de como a pesquisa da fenomenologia ufológica pode ser feita de forma aberta e com o apoio do governo vem da França. No coração do Centro Nacional de Estudos Espaciais (CNES), em Toulouse, há quatro funcionários contratados pelo governo para tratar com seriedade o testemunho daqueles que afirmam ter visto discos voadores e outros veículos não identificados sobre o Território Francês.

Segundo Jean Paul Agittes, ex-engenheiro de telecomunicações e radiofrequências que passou a maior parte de sua carreira lidando com satélites no CNES, e que lidera o pequeno departamento de pesquisa ufológica desde fevereiro de 2015, ali se está falando de “fenômenos aeroespaciais não identificados”. O departamento está dentro do gigantesco campus do Instituto de Pesquisa em Astrofísica e Planetologia (SupAero) e de uma antena do Observatório Midi Pyrénées. O Grupo de Estudos e Informação de Fenômenos Aeroespaciais Não Identificados (Geipan), também francês, realiza igualmente pesquisa ufológica com grande seriedade há quatro décadas. Seu papel é explicar tudo o que puder ser explicado.

Estado psicológico da pessoa

Na França os primeiros passos foram tímidos, mas com a popularização dos alienígenas na cultura, na televisão e no rádio o assunto deixou de ser um tabu. Hoje as testemunhas têm menos medo de serem taxadas de loucas e simplesmente buscam conhecer a realidade por trás de suas observações. O Geipan recebe cerca de 500 contatos por ano por meio de cartas, telefonemas e mídias sociais, mas também recebe relatos que vêm da própria Polícia Francesa, a Gendarmeria, com a qual possui um acordo de cooperação para esse fim. Os gendarmes, ou policiais, frequentemente são os primeiros interlocutores das testemunhas e podem redirecioná-las para o Geipan, depois de se certificarem do estado psicológico da pessoa.

Metade dos casos é rapidamente resolvida e o restante é investigado, isso sem mencionar aqueles que são reabertos, pois o progresso tecnológico de hoje pode explicar os mistérios de ontem. “Além da quantidade muito pequena de fraudes nos relatos ufológicos, não lidamos com depoimentos com pouca informação ou não relacionados a fenômenos aeroespaciais”, informa Agites. Todos os depoimentos são arquivados e estão acessíveis no site do Geipan. Em agosto de 2017, foram documentados 2.664 casos.

Novas informações parecem apontar na direção contrária do otimismo manifestado por alguns de que esses seriam os primeiros passos para o desacobertamento do Fenômeno UFO por parte dos governos, sendo o dos Estados Unidos em especial

Para alcançar esses resultados, o grupo e seus voluntários realizam um longo trabalho de investigação, digno das melhores agências de detetive privadas, incluindo elaboração de mapas do céu e planos de voo, até exame de dados meteorológicos e de imagens de satélite. Em 90% dos casos, os meios modernos permitem realizar o trabalho à distância, utilizando-se um simples contato telefônico com a testemunha para entender melhor os fatos por trás da história.

“Nosso cérebro nos engana e tende a completar as lacunas de forma que possa entender o que está acontecendo”, explica Agittes. “Luzes de lanternas dispersas podem se tornar uma nave espacial na cabeça de alguns. Da mesma forma, uma estrela muito brilhante pode, de repente, se tornar um farol estranho”. Ele diz que sempre há alguma coisa real por trás das observações, pois as pessoas não inventam as luzes. “Nosso trabalho é encontrar e entender quais circunstâncias foram adicionadas ao relato para criar a estranheza. Às vezes as explicações trazem alívio real para as testemunhas, que estão preocupadas. Para outros, o racional quebra o sonho”, explica.

Fogo amigo?

Alguns dias depois da publicação dos artigos pelo The New York Times, o que parecia ser uma certeza começou a levantar cada vez mais desconfiança dentro da comunidade ufológica e da imprensa. Isso porque muitos ufólogos começaram a desconfiar das intenções de Luis Elizondo, o ex-comandante do programa do Pentágono, e também porque outro órgão do governo norte-americano negou que tivesse havido qualquer liberação de documentos.

Novas informações parecem apontar na direção contrária do otimismo manifestado por alguns de que esses seriam os primeiros passos para um grande esforço de desacobertamento do Fenômeno UFO por parte dos governos, sendo o dos Estados Unidos em especial. O jornal The Washington Post teria tido acesso a um memorando interno, que diz que os vídeos [Veja box] foram liberados para Elizondo com a finalidade de educar o público e treinar pilotos para melhorar a segurança da aviação. Entretanto, ele próprio alegou em entrevistas que pretendia usá-los para pesquisa ufológica e expor o programa secreto de investigação.

Já na visão do jornal The Sun, o mistério sobre o Programa Avançado de Identificação de Ameaças Aeroespaciais (AATIP) torna-se mais profundo quando o governo dos Estados Unidos é acusado de negar que tenha divulgado as surpreendentes imagens liberadas. A Agência de Inteligência de Defesa (DIA), que executou parte do programa, é uma das que afirmou não ter divulgado nenhuma informação, arquivo ou vídeo sobre ele — e agora os ufólogos dizem que a negativa é mais uma manobra do governo para não reconhecer que não está pronto, e nem disposto, a divulgar mais dados para o público.

“Provar que UFOs são reais”

Um porta-voz do Departamento de Defesa norte-americano acrescentou que “o objetivo da AATIP, quando existia, era avaliar ameaças aeroespaciais externas e de longo prazo para os Estados Unidos”. Enfim, esse fogo amigo está fazendo com que muitos ufólogos acreditem que o suposto desentendimento poderia ser o governo tentando afastar-se da questão ufológica. Por exemplo, o ufólogo norte-americano Alejandro Rojas, editor do site Open Minds [Endereço: www.openminds.tv], acredita que as autoridades estão retrocedendo. “Elas não esclareceram suas intenções, mas não estou surpreso com o fato de que estejam fazendo de tudo para desqualificar a história do programa”, disse Rojas.

Ainda de acordo com o The Washington Post, Luis Elizondo revelou os vídeos sob pretextos falsos. “Ele afirmou que iria usá-los para treinar pilotos. Mas não disse que iria usar os vídeos para provar que UFOs são reais, que é o que realmente está fazendo. Acho que é por isso que os vídeos são tão curtos e há pouca informação sobre eles. Acredito que se tenha feito isso para o caso de alguém se apoderar das filmagens e transformá-las em uma evidência derradeira da existência de UFOs. Isso demonstra que o governo não está pronto para divulgar a verdade sobre o assunto”, concluiu Rojas.

Jan Harzan no Brasil

O presidente da Mutual UFO Network (MUFON), Jan Harzan, vem a Curitiba em março para fazer conferência no XXII Congresso Brasileiro de Ufologia, que a Revista UFO promove simultaneamente ao IV Encontro de Ufologia Avançada do Paraná entre os dias 16 e 18. Harzan também fará o lançamento do primeiro Curso de Ufologia e Investigação de Campo do país, igualmente uma iniciativa da UFO. O curso foi elaborado pela equipe UFO com base no Manual de Investigação da MUFON e segue padrões internacionais. Harzan falará no XXII Congresso das recentes revelações do Pentágono e de seus bastidores na visão de um insider. As inscrições para o evento já estão abertas no endereço abaixo:

www.ufologiabrasileira.com.br

Recentemente, o jornal The Sun entrou com uma ação contra o DIA com base na Lei de Liberdade de Informação (FOIA), solicitando a liberação de quaisquer outros arquivos ou vídeos de UFOs relacionados ao Programa Avançado de Identificação de Ameaças Aeroespaciais (AATIP). Vamos aguardar o resultado. O que temos até agora são informações vindas de várias partes envolvidas, como Elizondo e Reid afirmando categoricamente que o Pentágono investigou UFOs e que o programa ainda está em atividade. De um lado temos o Departamento de Defesa confirmando em parte essa afirmação, sendo que a única divergência está na data em que o programa teria sido extinto, 2012. Do outro há o DIA dizendo que há uma confusão na história, mas sem explicar que confusão seria.

O que é importante perceber nisso tudo é a sutil mudança de atitude em relação ao assunto — não houve qualquer negação dos fatos por parte dos militares ou do próprio governo e os principais meios de comunicação parecem estar levando a revelação a sério. Ao invés de tratar a notícia com desdém, como normalmente faz com as histórias relacionadas a UFOs, há indicações de que desta vez o interesse da mídia foi realmente sincero.

Mais informações liberadas

Essa nova atitude poderia indicar um certo abrandamento na política de acobertamento governamental, o que nos faria pensar que talvez tenhamos mais informações liberadas? Estaríamos sendo informados de que algo de valor científico pode ser aprendido ao estudarmos os relatos de avistamentos ufológicos, mesmo que isso não nos leve a concluir tratarem-se de visitação alienígena? Essas são questões que precisam ser respondidas.

E há algo importante nas entrelinhas de tudo isso. Empresários milionários e aqueles que ocupam os níveis mais altos do comando militar e do governo dos Estados Unidos estão utilizando a desculpa de uma pesquisa científica sobre os UFOs para, no mínimo, aprender algo sobre a propulsão usada por eles, que certamente sabem muito mais do que afirmam.

Podemos também nos perguntar se estamos diante de um novo deslize dos militares. Os leitores se lembram do Caso Roswell? Tudo começou com uma afirmação oficial, dada pelo Exército, de que um disco voador havia sido capturado pelos militares nas proximidades da cidade. Logo depois se criou, pela primeira vez na história, uma operação gigantesca de desinformação e acobertamento para esconder a verdade sobre a queda. Estaríamos indo pelo mesmo caminho?

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Sobre o Autor

Thiago Luiz Ticchetti

Thiago Luiz Ticchetti nasceu no Rio de Janeiro. Filho de um oficial aviador da Aeronáutica, morou em Natal, Santa Maria e na capital carioca. Após o falecimento de seus pais, viveu pelo período de seis meses na cidade de Addlestone, na Inglaterra. Ao retornar ao Brasil, mudou-se para Brasília onde vive até hoje. Em 1997 assistiu ao I Fórum Mundial de Ufologia, realizado pela Revista UFO na Capital Federal, e foi convidado pelo pioneiro ufólogo Roberto Affonso Beck, ali presente, a ingressar na Entidade Brasileira de Estudos Extraterrestres (EBE-ET). Por mais de 10 anos participou ativamente do grupo, chegando a ser vice-presidente da entidade. É articulista da Revista UFO desde 1997, exercendo hoje a função de coeditor, após ter iniciado na publicação como seu tradutor e depois passado a consultor e atuado também como coordenador internacional. É responsável pela coluna mensal Mundo Ufológico e já escreveu dezenas de artigos para o veículo. Em especial, entrevistou para a revista inúmeros ufólogos nacionais e internacionais, alguns deles os maiores pesquisadores da Casuística Ufológica Mundial, como Phillip Mantle, David Jacobs, Kevin Randle, Nick Redfern, Steven Bassett, Carlos Ferguson, Stanton Friedman, Nick Pope, Jerome Clark, Graham Birdsall e Wendelle Stevens, para citar alguns. É autor dos livros Quedas de UFOs: Casos Confirmados de Acidentes com Discos Voadores e Resgates de Seus Tripulantes em Todo o Mundo[Coleção Biblioteca UFO, 2002], Guia da Tipologia Extraterrestre [Coleção Biblioteca UFO, 2014], Quedas de UFOs II [Coleção Biblioteca UFO, 2015] Guia da Tipologia dos UFOs [Coleção Biblioteca UFO, 2017], Arquivos UFO: casos ufológicos – Volume I, 2ª edição, Editora Conhecimento, 2017], Arquivos UFO: casos ufológicos – Volume II, 2ª edição, Editora Conhecimento, 2017], Arquivos UFO: casos ufológicos – Volume III, 1ª edição, Editora Conhecimento, 2018], Universo Insólito: Livro de Bordo, Parte 1 [Clube de Autores, 2015] e Universo Insólito: Livro de Bordo, Parte 2 [Clube de Autores, 2015]. É o único pesquisador brasileiro a ter artigos publicados pela revista inglesa UFO Matrix e foi pioneiro na publicação de um artigo sobre contatos de pilotos da Força Aérea Brasileira (FAB) com UFOs, ocorrido na revista inglesa UFO Truth Magazine, da qual também é colunista. Ticchetti é coordenador da Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU), assistente do diretor nacional da MUFON no Brasil e pesquisador de campo certificado pela MUFON. Formado em administração de empresas pela Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal (AEUDF), Thiago Luiz Ticchetti é casado e pai de um casal de filhos. .

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