Edição 283
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A ruptura antropocêntrica do contato público interespécies

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14 de Mar de 2021
É importante destacar essa relação de extrema alteridade entre a espécie humana e outras inteligências cósmicas.
Créditos: LUCA OLEASTR

O presente artigo visa discorrer sobre as inevitáveis consequências, no âmbito do conhecimento humano acerca de si mesmo, da confirmação de vida extraterrestre inteligente e de sua posição no universo, provocadas pelo contato público entre humanos e outras inteligências cósmicas, isto é, não mais ocorrido a nível individual ou pessoal, mas entre culturas planetárias distintas, a ponto desse fenômeno não poder ser mais colocado em questão ou refutado como irracional, equivocado, fruto de crença ou farsa deliberada. Defendo aqui que haverá três efeitos fundamentais resultantes do convívio com essa alteridade não humana. Serão, ao mesmo tempo, sintomas e agentes de novas concepções epistemológicas e metafísicas não antropocêntricas.

A importância do contato público com inteligências alienígenas será de tanta importância que representará mudanças de parâmetros radicais no tocante às noções humanas sobre temas ligados, sobretudo, às humanidades. Eis a primeira consequência. Esse evento causará à nossa espécie uma “ferida narcísica”, conceito criado por Sigmund Freud para explicar a queda de concepções culturais antropocêntricas, ou seja, que colocam a nossa espécie como o centro e, assim sendo, como o fim dos processos naturais em geral. O conceito de ferida narcísica será melhor trabalhado adiante. Tomo, portanto, a inevitabilidade da futura relação interespécies como certa, ainda que não possamos estabelecer se ocorrerá em décadas, séculos ou mesmo milênios à frente.

Novas disciplinas sociais

Como segunda consequência do impacto do contato interespécies, defendo a ideia de que ocorrerá o surgimento de toda uma série de novas disciplinas ligadas às ciências humanas e sociais, relacionadas ao conhecimento gerado pela tomada de consciência que a “ferida narcísica” do contato público com as civilizações extraterrestres provocará. Nomeio, genericamente, essas novas disciplinas de “exociências sociais”. Após essas considerações, me coloco diante de dúvidas que ajudam a Ufologia a se posicionar atualmente como atividade de coleta de dados e âmbito de investigação do chamado Fenômeno UFO — com a existência de inteligências extraterrestres finalmente reconhecida historicamente e com o advento das exociências sociais, qual será o papel da Ufologia nos novos parâmetros metafísicos e do conhecimento? Continuarão a fazer sentido as investigações ufológicas? A resposta a essas perguntas trata-se do terceiro efeito provocado pelo conhecimento gerado com esse outro cognitivo que é, ou são, os alienígenas.

É importante destacar essa relação de extrema alteridade entre a espécie humana e outras inteligências cósmicas. Afinal, como afirmara o filósofo Tzvetan Todorov no livro As Morais da História [Editora Europa-América, 1992], em uma atitude antropocêntrica, o homem erige o hábito em norma e o generaliza a partir de um único exemplo, que é ele mesmo. Se nós estamos no centro do universo e somos os únicos verdadeiros seres humanos, logo os outros que se encontram em contraste conosco são, de certo modo, outra coisa em relação ao humano. Isso leva, frequentemente, a que se olhe os outros com temor. Os outros são outra coisa que não humana, estão para além dos limites da humanidade, são selvagens, animais ferozes, elementos da natureza, demônios. As únicas pessoas sobre as quais se têm certezas são as que estão em contato doméstico, as pessoas como nós. Nós, de qualquer maneira, somos mesmo homens. Nós somos seres humanos. Os outros não poderiam sê-lo. Como veremos ao final deste artigo, será essa postura a mais sábia em relação a alteridades não humanas?

A terceira ferida narcísica

Podemos encarar o contato interespécies como uma ruptura ou ferida narcísica para a humanidade, o que indica mais uma quebra de parâmetro antropocêntrico nas visões de mundo humanas. Mas do que se trata tal ruptura? Retiro essa noção do artigo Uma Dificuldade da Psicanálise, publicada por Sigmund Freud em 1917. O médico define o narcisismo da espécie humana como um amor-próprio geral, que atribui tamanha importância à humanidade nos processos naturais a ponto de atribuir a ela o fim último da existência do universo. A visão antropocêntrica é narcísica pois torna o humano fruto de um planejamento cósmico, a finalidade para a existência do todo. Ora, a ferida narcísica trata-se de descobertas sobre a natureza que esclarecem à nossa espécie que o seu lugar no cosmos não o fora dado de antemão, mas que deve ser conquistado, de preferência não de modo violento ou destrutivo.

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