ARTIGO

A Aeronáutica pesquisou casos ufológicos no interior de São Paulo

Por Edison Boaventura Júnior | Edição 172 | 01 de Dezembro de 2010

O IV Comando Aéreo Regional, em São Paulo, onde foi criado e funcionou o Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (Sioani)
Créditos: Arquivo GUG

A Aeronáutica pesquisou casos ufológicos no interior de São Paulo

No ano de 1969, a Ufologia deu um grande passo em nosso país com a criação, pela Força Aérea Brasileira (FAB), da primeira entidade oficial destinada exclusivamente à pesquisa da presença alienígena na Terra. Tratou-se do Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (Sioani), que tinha em sua estrutura a Central de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (Cioani), órgão centralizador das atividades ufológicas da Aeronáutica. O local escolhido para sediá-lo foi a então IV Zona Aérea, hoje IV Comando Aéreo Regional (COMAR IV), situado no bairro de Cambuci, na capital paulista [Veja UFO 155, 156 e 158]. Apesar de seu funcionamento ter sido oficializado em março daquele ano, existem provas de que no ano anterior, 1968, os militares já haviam iniciado suas investigações de avistamentos de fenômenos aéreos anômalos no interior do estado de São Paulo, devido a uma onda ufológica que se instalou em todo o país.

A Cioani era comandado administrativamente pelo major-brigadeiro José Vaz da Silva, quem também assina o boletim que comunica a fundação do órgão, e operacionalmente pelo major-aviador Gilberto Zani de Mello, subordinado de Vaz da Silva, que esteve presente na maioria dos casos pesquisados na época em que o órgão se manteve operante. É de conhecimento geral que muitas significativas ocorrências de avistamentos e pousos de UFOs, além de eventuais contatos com seus tripulantes, foram pesquisados na época pelos militares da Cioani, incluindo alguns clássicos da Ufologia Brasileira, como o Caso Maria Cintra, o Caso Toríbio Pereira, o Caso Tiago Machado, entre outros, todos ocorridos no final dos anos 60. Os militares também examinavam fotografias de supostos discos voadores que eram feitas na ocasião. Isso tudo durou até 1972, quando as atividades do órgão foram oficialmente encerradas, embora continuassem as pesquisas e o preenchimento de relatórios de ocorrências ufológicas nos anos seguintes.

Há anos já estão disponíveis ao público, através da Revista UFO, os Boletins Informativos do Sioani números 01 e 02, lançados respectivamente em março e agosto de 1969 e que vazaram do órgão, além de milhares de páginas de documentos que comprovam o interesse dos militares brasileiros pela ação na Terra de outras espécies cósmicas, liberadas recentemente pelo Governo como resultado da campanha UFOs: Liberdade de Informação Já, promovida pela Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU) através da UFO [Baixe os documentos no Portal da Ufologia Brasileira: ufo.com.br]. Todo este material já se encontra disponibilizado em formato digital em vários sites, e fisicamente no Arquivo Nacional, em Brasília. Ele expõe não apenas a metodologia científica utilizada pelos militares na investigação de casos ufológicos, mas também seus resultados, na forma de relatórios, perícias de locais de atividades, exames psiquiátricos de testemunhas etc. Enfim, todas as ferramentas de pesquisa utilizadas naquela ocasião.

Se por um lado o Brasil sempre teve uma intensa atividade ufológica, caracterizada por avistamentos, aterrissagens e contatos com tripulantes, por outro o país contou com um time de militares seriamente dedicados à investigação de tão rica casuística, como hoje se sabe através da abertura ufológica

No segundo Boletim Informativo lançado pelos militares, para se ter idéia, foram relatados 58 ocorrências envolvendo discos voadores no Brasil, sendo que a maioria delas teve como palco algumas cidades do interior de São Paulo. Outra entidade ufológica que existia naquela época, esta civil e pioneira de nossa Ufologia, era a Sociedade Brasileira de Estudos de Discos Voadores (SBEDV), que publicava boletins regulares e apresentava enorme quantidade de casos aos seus leitores. Em contraste com os números oficiais, nas edições número 72/73 do Boletim da SBEDV, de 1970, são registrados 137 casos ufológicos no período compreendido entre janeiro de 1968 e dezembro de 1969. Deles destacamos a intensa atividade de observações na cidade de Ibiúna, no interior de São Paulo, nos meses de março a agosto de 1969. A onda ufológica culminou com o pouso desses aparelhos voadores na região.

Veremos a seguir alguns detalhes desta onda naquela cidade paulista, segundo as pesquisas realizadas pelos militares do Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (Sioani), assim como aspectos exclusivos e inéditos de alguns casos investigados, em ordem cronológica. A casuística que será abordada neste trabalho envolve avistamentos, pousos e a presença de tripulantes de UFOs, mas com um detalhe significativo: a alta credibilidade das testemunhas de tais ocorrências, entre elas pessoas influentes da região, como fazendeiros, meteorologistas e o próprio ex-prefeito de Ibiúna da época, Antônio José Soares. Não é a intenção deste autor esgotar o assunto neste texto, e nem isso seria possível, mas agregar novos conhecimentos sobre tais episódios.

Dossiês versus investigação de campo

Primeiramente, é preciso esclarecer que o entusiasmo do autor em refazer as pesquisas desses antigos casos foi motivado pelo manuseio, em 18 de dezembro de 1997, de alguns dossiês militares originais apresentados pessoalmente pelo major Zani de Mello, que havia sido o chefe operacional da Cioani. Na ocasião ele indicou outro militar que também fez parte do órgão e que mantinha em sua posse parte de seu acervo de pesquisas. Em um contato pessoal com este novo militar, o autor e outro ufólogo paranaense receberam grande volume de material do Sioani, como documentos, relatório, fotos etc. A parte deste autor foi oferecida no ano passado à Comunidade Ufológica Brasileira através da Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU), durante um congresso em Curitiba [Veja UFO 158]. Já a que ficou com o outro ufólogo nunca foi divulgada, infelizmente.

Foi este militar, que prefere ficar anônimo, quem informou a razão da desativação do Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (Sioani), ocorrida devido a uma troca de comando no órgão — o novo oficial que substituiu o brigadeiro Vaz da Silva não tinha muita simpatia pelo assunto. Assim, na época, o comandante do IV COMAR solicitou a todos que os dossiês e documentos gerados pelo órgão fossem retirados do acervo e guardados na residência daquele militar, no intuito de preservá-los para a posteridade, pois era de conhecimento geral que o assunto tinha muita importância para ser negligenciado. Este autor empreendeu uma busca incansável, desde a década de 80 até alguns anos atrás, quando logrou êxito na obtenção dessa riquíssima documentação, que foi detidamente analisada e os casos que continha revistos in loco, com novas pesquisas e entrevistas com testemunhas ainda vivas, como em alguns acontecimentos de Ibiúna.

crédito: Antonio Celente
O major-aviador Zani de Mello geralmente chefiava as pesquisas dos militares do Sioani
O major-aviador Zani de Mello geralmente chefiava as pesquisas dos militares do Sioani

Durante o contato com o major Zani de Mello, ele manifestou sua percepção dos casos ocorridos naquela localidade, onde parecia se concentrar a maior parte da casuística ufológica paulista. O militar informou que tanto Ibiúna como a cidade de Lins foram as que tiveram mais informes sobre discos voadores nas décadas de 60 e 70. Veremos alguns deles. Quando questionado sobre quais acontecimentos considerava mais importantes, Zani de Mello respondeu: “Além do pouso de um UFO em um campo de beisebol, o caso acontecido na Fazenda Bonanza foi muito interessante, pois foi testemunhado por várias pessoas de credibilidade e o fenômeno persistiu, voltando nos meses seguintes. Eu pessoalmente entrevistei várias testemunhas”.

UFOs na Fazenda Bonanza

A Fazenda Bonanza se situa na altura do km 63 da Rodovia Régis Bittencourt, e um espantoso caso lá ocorrido foi documentado em um relatório do Sioani registrado pelos militares com o número 38. O episódio se deu a partir de 15 de março de 1969, manifestando-se até o dia 21 daquele mês e depois persistindo durante novos quatro dias de abril. Estranhas bolas de fogo foram observadas pelo proprietário, Sebastião Junqueira Villela, sempre acompanhado de outras pessoas, entre elas sua esposa, filho e mãe, o administrador da fazenda, Renato Almeida, o vizinho Haroldo Coelho Ramalho e os advogados Tuffaile e Edgar de Campos Rosa. As luzes apareciam sobre os morros da região, de 6 a 10 m acima do solo, e às vezes se deslocavam abruptamente em ângulos fechados, sob o olhar atônito das testemunhas.

Na página 10 do relatório 38 está escrito que “durante um tempo que varia em torno de 10 minutos, e uma das vezes por uma hora, vi com outras pessoas e amigos presentes duas esferas vermelho-alaranjadas do tamanho de uma bola de futebol. Elas aparecem na altura do horizonte, com luminosidade variada, desaparecendo em seguida”. Os militares solicitaram à testemunha que fizesse um croqui colorido dos objetos observados, que posteriormente foi reproduzido em cores pelos integrantes do Sioani para compor o documento oficial. No relatório de 19 páginas, preenchido pelo primeiro-tenente médico João Edney Carvalho Ribeiro, são revelados ainda dados técnicos do fenômeno observado, assim como do local e da testemunha — que também relatou outros avistamentos nos dias 21, 22, 23 e 25 de abril de 1969.

Os militares do Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (Sioani) eram tão meticulosos que outro relatório de quatro folhas também foi elaborado, agora com o exame psiquiátrico da testemunha, apontando para um resultado muito positivo e revelando que o senhor Sebastião Junqueira Villela não tinha qualquer psicopatologia, mas uma personalidade normal. O caso naturalmente ganhou as manchetes da época, e em 20 de março de 1969 foi publicada no jornal O Estado de São Paulo uma notícia intitulada Ibiúna e Seu Mistério, relatando a observação das estranhas luzes ou bolas de fogo na região da Fazenda Bonanza e outras áreas do município. O jornal carioca A Notícia, de 21 de março daquele ano, também noticiou o fato. Assim, com tamanha repercussão na imprensa, o número de casos na região aumentou, pois os moradores passaram a olhar o céu mais detidamente e os avistamentos de estranhas luzes se multiplicaram.

crédito: Arquivo GUG
O autor [D] com a família Kaneko, do interior de São Paulo, que teve experiências ufológicas analisadas pelo Sioani. Abaixo, a marca de pouso na propriedade das testemunhas
O autor [D] com a família Kaneko, do interior de São Paulo, que teve experiências ufológicas analisadas pelo Sioani.

A confirmação, quatro décadas depois

Grupos ufológicos ativos na época também divulgavam as ocorrências, tais como a Sociedade Brasileira de Estudos de Discos Voadores (SBEDV), que na edição 72/73 de seu boletim mencionava que agricultores do Bairro de Quintas, a 63 km de São Paulo, informaram o aparecimento freqüente de discos voadores, inclusive na Fazenda Bonanza. E finalmente, pela sua importância, o caso também foi divulgado no boletim número 5 da renomada entidade Associação de Pesquisas Exológicas (APEX), também extinta, de janeiro e fevereiro de 1976. O autor do texto é o meteorologista Rubens Junqueira Villela, primo da testemunha principal, ufólogo pioneiro em nosso país e consultor da Revista UFO [Veja entrevista com ele em UFO 144].

No início do mês de agosto de 2008, este autor entrou em contato com a principal testemunha dos casos da Fazenda Bonanza, Sebastião Junqueira Villela, que em e-mail enviado em 12 de agosto de 2008 relatou pormenores do processo investigativo conduzido pela Aeronáutica. Disse Villela que, na ocasião, foi convidado e prestou declarações sobre os acontecimentos na sede do Sioani. “Para ilustrar o fato, fui acompanhado de um desenhista que deu cor e formato mais realista aos objetos avistados. Eram luzes que vagavam no horizonte com movimentos retilíneos e, vez por outra, mudavam de direção e lugar”, declarou o proprietário da fazenda, que ainda confirmou que dezenas de pessoas também testemunharam o fenômeno. Ele, apesar de ter visto os UFOs três vezes, não observou nenhuma marca que pudesse ter sido provocada pelos artefatos.

“Na época, o assunto foi muito explorado pelos jornais, várias histórias surgiram e manchetes apareceram aos montes. E assim que a notícia foi tomando corpo, o sensacionalismo foi crescendo, a ponto de nos incomodar e de a Força Aérea Brasileira (FAB) me convidar a dar declarações”, informou Villela no e-mail. Ele confirmou ainda que existiam, até mesmo antes de o fenômeno ocorrer, comentários de que luzes apareciam também noutras áreas rurais de Ibiúna, e sugeriu uma explicação para os fatos. “Na Fazenda Bonanza há uma nascente de água radiativa não explorada comercialmente, e a piscina abastecida com essa água, no meio da mata preservada, tem forte coloração azul”. Em contatos seguintes, Villela comentou mais sobre o clima reinante na época e o sensacionalismo da imprensa. No entanto, após o mês de abril daquele ano, o fenômeno luminoso não apareceu mais na região, até retornar em outubro de 1970.

crédito: Arquivo GUG
A marca de pouso na propriedade das testemunhas
A marca de pouso na propriedade das testemunhas

Até um prefeito vê UFOs

O jornal O Estado de São Paulo de 29 de abril de 1969 veiculou a curiosa manchete: Prefeito de Ibiúna Vê Estranho Objeto Voador. Na matéria é detalhado o avistamento de um UFO na cidade paulista ocorrido quatro dias antes, em 25 de abril de 1969. “Era uma bola vermelha que vez por outra mudava de tonalidade e parecia ser movida por uma força inteligente”, publicou O Estado, repetindo as palavras do prefeito Antônio José Soares. O fato se deu na altura do km 23 da Rodovia Raposo Tavares, por volta das 22h00, quando ele regressava da capital paulista em companhia de Airton Ramos, e foi confirmado por vários moradores do Bairro dos Pintos, que também tiveram oportunidade de acompanhar os movimentos do estranho objeto.

Estava em andamento uma nova onda ufológica, e poucas horas depois do avistamento de Soares e Ramos, às 04h30 já do dia 26 de abril, o comerciante Marcial Robles Lechuga também avistou um disco voador parado sobre a Rodovia Bandeirantes, próximo do km 57. Um termo de declarações foi preenchido na Delegacia de Polícia de Ibiúna, em 30 de abril, pelo delegado Carlos Mauro Alves Pereira, conforme solicitação do informante civil do Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (Sioani), o doutor Edgard Campos Rosa. Posteriormente, em 08 de maio de 1969, a documentação foi enviada ao IV COMAR. Rosa era o “pioani” número 002, abreviatura de pesquisador de objetos aéreos não identificados na terminologia do órgão. Eram ufólogos civis ou militares que auxiliavam nos trabalhos, assim como os vigilantes de objetos aéreos não identificados ou “vioanis”.

Na delegacia de Ibiúna, Lechuga declarou oficialmente que se encontrava sozinho em seu veículo, na altura do km 57, quando viu uma espécie de abóboda iluminada que tinha aproximadamente 6 m de circunferência. “A parte superior do objeto aparentava ser de vidro, e era de onde provinha a iluminação, sendo certo que nas suas junções havia material niquelado ou aluminizado. E na parte inferior havia uma saliência bastante viva de cor vermelho sangue”. A testemunha informou ainda em seu depoimento que o aparelho não produziu qualquer barulho, permanecendo estático e pousado sobre a estrada. Ele prosseguiu viagem e não o viu mais.

Pouso de disco voador

Um dos casos insólitos mais interessantes acontecidos em Ibiúna consta do relatório número 50 dos arquivos do Sioani. Trata-se de uma aterrissagem ocorrida em 07 de junho de 1969 e divulgada nos jornais da época. O fato foi testemunhado durante nada menos do que 40 minutos pelo senhor Nobutoshi Kaneko e sua esposa, senhora Kyoko Kaneko, que observaram a olho nu e de binóculo um UFO de 8 m de diâmetro e luminosidade branca estacionado atrás de um campo de beisebol. O objeto, com quatro janelas, às vezes assumia uma tonalidade amarela. No dia seguinte foram encontradas marcas no local e alguns sulcos no solo, sendo observado, ainda, que a vegetação ficou parcialmente chamuscada.

Os militares chefiados pelo major Zani de Mello não mediram esforços para pesquisar o acontecimento: entrevistaram as testemunhas, realizaram croquis coloridos do objeto e do local do pouso com as medidas das marcas e sua localização — e ainda coletaram amostras do solo, fotografando e filmando tudo. Em 26 de junho de 1969, o primeiro-tenente médico Ribeiro, já citado, assinou o relatório do ocorrido e também o exame psiquiátrico das testemunhas. Ele foi o responsável por conduzir a entrevista somente com o senhor Kaneko. O militar também fez constar do documento que outra pessoa, Ismaelino Soares de Campos, também viu a luminosidade na mesma data e hora, sem, entretanto, distinguir detalhes do estranho aparato voador.

Croquis coloridos

Um ponto significativo do trabalho dos ufólogos militares da Força Aérea Brasileira (FAB) a serviço do Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (Sioani) eram seus procedimentos. Eles cumpriam rigorosamente uma metodologia de trabalho que incluía documentar todos os detalhes de cada ocorrência ufológica investigada, e chegavam a produzir croquis coloridos dos objetos observados, das circunstâncias dos avistamentos, das marcas deixadas no local etc. No caso do casal Kaneko, por exemplo, os militares mediram a marca e a profundidade dos seis buracos encontrados no local do avistamento. Cada sulco tinha cerca de 20 cm de comprimento e de 5 a 10 cm de profundidade. O primeiro-tenente Ribeiro fez observações relevantes no verso dos croquis elaborados, apontando que a vegetação estava queimada — como ocorre em geadas — em um espaço limitado e em forma de estrela, com diâmetro de cerca de 10 m.

“O capim estava retorcido no sentido anti-horário em torno das marcas. Estas localizadas nas partes mais altas do terreno são mais profundas, como se houvesse tendência [Do objeto] a nivelar um peso colocado sobre um grupo de três suportes. E as touceiras de capim entre as duas marcas não seguem a orientação geral anti-horária, são espalhadas”, registrou o militar que pesquisou o caso. Além de suas anotações, fotografias em preto e branco tiradas no local nos dão uma boa noção daquele estranho fenômeno, atestando ao mesmo tempo a ação de uma nave na área e da diligente investigação realizada pelos militares brasileiros — isso em 1969, numa época em que florescia noutras partes do mundo total acobertamento do Fenômeno UFO.

No contato de 1997, o major Zani de Mello expressou suas considerações sobre o pouso no Caso Kaneko: “O acontecimento foi muito importante porque o UFO deixou uma marca com alguns sulcos no solo. O primeiro-tenente Ribeiro assistiu a testemunha e preencheu o relatório psiquiátrico que, de uma forma geral, foi satisfatório”. No relatório do caso, agora conhecido pela Comunidade Ufológica Brasileira, constam também cartões de visita que demonstram que um grupo de uma empresa finlandesa chamada Kingstar Productions também teria filmado as marcas no local, não se sabe para que utilidade.

crédito: Desenhos Arquivo SIOANI
A metodologia de trabalho dos militares do Sioani incluía fazer um artista acompanhar as testemunhas para registrar em imagens realistas o que elas haviam visto. Não se tem conhecimento, em lugar algum do mundo, que isso tenha ocorrido
A metodologia de trabalho dos militares do Sioani incluía fazer um artista acompanhar as testemunhas para registrar em imagens realistas o que elas haviam visto. Não se tem conhecimento, em lugar algum do mundo, que isso tenha ocorrido

“Vultos se mexendo por trás da coisa”

Em 09 de julho de 2008, junto com Margareth Orlandi, este autor esteve em Ibiúna visitando a senhora Kyoko Kaneko, então com 83 anos, e seu filho Sérgio Yoshio Kaneko, 56 anos, para colher detalhes complementares do caso ocorrido em 1969 — o senhor Nobutoshi Kaneko já havia falecido. A viúva contou que naquele dia ela e o marido fecharam o bar que tinham por volta das duas horas da madrugada, quando então viram a estranha e forte luminosidade. Apressadamente, ela pegou um binóculo prismático da marca Ômega V e passou a observar melhor o objeto. Kyoko Kaneko então chamou a atenção do marido para o fato de que algo estava se movendo. “Meu marido pegou o binóculo e viu vultos se mexendo por trás das quatro janelas daquela coisa, que tinha muita luz branca que dificultava a visão. Eu também pude vê-los se mexendo dentro do aparelho, e pareciam vultos de pessoas”, complementou a senhora Kyoko.

Ela contou ainda que só foi dormir depois de se passarem 40 minutos, tempo em que a luz ficou parada no terreno. “No dia seguinte, meu marido e meu filho foram até o local da marca e constataram que o capim estava todo retorcido”, disse. Segundo também informou a testemunha, o senhor Ismaelino Soares de Campos, que trabalhava em um clube nas redondezas, estava passando pela rua naquela mesma hora e também viu a luz, indo depois ao local ver os sinais deixados pelo aparelho. Em entrevista, Sérgio Yoshio Kaneko confirmou que examinou as marcas no dia seguinte. “Quando cheguei no campo aberto, notei que o capim estava amassado em sentido anti-horário e que havia três buracos, como se algo tivesse afundado o solo. O local estava úmido por causa da serração da noite. Era uma cena impressionante”. Ele ainda disse se lembrar que na época até norte-americanos estiveram na região entrevistando seu pai.

A senhora Kyoko finalizou a conversa dizendo que no mesmo ano desceu outro artefato na área, mas não deixou qualquer marca. “Também em Vargem Grande apareceu um objeto luminoso”. Um detalhe do caso que chama a atenção está no fato de os militares da Cioani não terem registrado o avistamento de tripulantes. Teriam eles deixado escapar este relevante aspecto da ocorrência? Propositalmente ou por negligência? Talvez o fato de Nobutoshi Kaneko ser uma pessoa muito recatada, e por não ter abordado a observação dos vultos durante a entrevista, este detalhe não conste do relatório. A testemunha provavelmente limitou-se a responder às perguntas constantes do formulário apresentado, e talvez o frenesi da marca deixada pelo UFO tenha contribuído para que tripulantes não fossem registrados. De qualquer forma, agora o fato foi tornado público.

Luzes voltam à Fazenda Bonanza

Em 11 de outubro de 1970, outro fato ocorreu na propriedade de Sebastião Junqueira Villela, observado atentamente por várias testemunhas, inclusive o meteorologista Rubens Junqueira Villela, primo de Sebastião, treinado observador que participou de dezenas de expedições à Antártida. E novamente uma equipe de militares chefiados pelo major Zani de Mello — desta vez com 10 homens, walkie-talkies e até contadores Geiger — esteve na localidade investigando o fenômeno, que também foi visto por pessoas em um armazém na estrada, próximo da fazenda. O relato de Rubens é eloqüente. “Ao cair da noite, já cerca das 20h55, notei uma espécie de ‘lanterna’ quadrada de luz vermelha pouco intensa no morro em frente, do outro lado de um riacho represado. Minha noiva também viu a luz e pensou, a princípio, que fosse da iluminação do jardim. Mas variava de cor e foi se tornando maior e mais clara, como se aproximasse lentamente”. Villela continuou observando aquilo, já na companhia do primo e de outros amigos.

O UFO se parecia com um farol rotativo de aeroporto ou de navegação marítima, mas com maior variedade de cores, que se alternavam entre vermelho, verde, azul claro, amarelo-alaranjado. “De forma quadrada, a luz parecia brilhar por trás de um vidro. Nada de aparência extraordinária, exceto talvez pela pureza das cores. Dava a impressão de ser uma luz que girava por dentro de algo, não que o ‘farol’ em si fosse rotativo”. Ele disse que nas bordas daquilo as cores se misturavam. Muito repentinamente o objeto apagou, tendo a observação durado cerca de cinco minutos. “Partimos em seguida no carro de Sebastião e passamos perto de onde estaria a misteriosa luz, nada notando. Ali não há nada de especial, só plantação de milho além do jardim. É um mistério”. Mas aparentemente não para o major Zani de Mello, que declarou às testemunhas: “A luz que vocês viram era apenas uma sonda enviada pelo disco, que fica em cima, para explorar o terreno embaixo”.

O relatório do Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (Sioani) que recebeu o número 90 e foi preenchido pelo primeiro-sargento Miranda relata os últimos avistamentos de luzes na região, que o órgão investigou em sua curta duração. Eles foram protagonizados pelo senhor Salvador Luganieri em companhia de seu sogro. Ambos observaram estranhas esferas vermelho-amareladas nos dias 03 e 05 de agosto de 1970. Os fenômenos permaneceram visíveis por cerca de 20 a 30 minutos e aconteciam sempre por volta das 20h00. Na página 10 do relatório temos detalhes das observações: “Eram luzes do tamanho aparente de uma bola de futebol. Apareciam pouco abaixo da linha do horizonte e iam na direção do observador, desaparecendo a mais ou menos um quilômetro do mesmo, para baixo”.

Liberação de documentos

Enfim, o que se viu acima são detalhes de uma intensa casuística ufológica, como a brasileira tem se mostrado ser desde que se estuda o Fenômeno UFO em nosso país. Mas, mais do que isso, o que se nota é que os militares de nossa Aeronáutica, já naquela longínqua década de 60, estavam firmemente atentos a tudo o que ocorria em Território Nacional, e escrutinavam cientificamente cada ocorrência que lhes chegasse ao conhecimento. Homens, equipamentos e infraestrutura eram empregados neste processo, com resultado extremamente significativo para o conhecimento da presença alienígena na Terra. A qualidade do material produzido pelos oficiais da Força Aérea Brasileira (FAB) e a metodologia que desenvolveram revelam a seriedade e o grau de importância que a arma atribuiu ao fenômeno.

Hoje a Ufologia Brasileira vive uma grande abertura e a cada dia mais documentos oficiais, antes secretos, chegam às mãos dos estudiosos e interessados, graças aos esforços da Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU) e de sua campanha UFOs: Liberdade de Informação Já, contando com o apoio de alguns poucos ufólogos dedicados a este tipo de investigação. A liberação, aqui, parece seguir uma tendência mundial de se encarar de frente a questão ufológica. Hoje, vários países estão abrindo seus arquivos simultaneamente, embora se creia que tal abertura seja apenas a ponta do iceberg e que talvez certos fatos jamais venham a ser de conhecimento público. Mas a união de forças dos pesquisadores mostrou ser possível para cobrar dos órgãos de governo esta posição, resultando na abertura dos documentos da Força Aérea Brasileira (FAB), restando agora a Marinha e o Exército seguirem o exemplo.

O organograma do Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados

O funcionamento do Sioani, fundado em 1969 no IV Comando Aéreo Regional (Comar 4), em São Paulo, contava com recursos materiais e de pessoal que mantinha a Força Aérea Brasileira (FAB) informada de todos os casos ufológicos ocorridos. Sua composição e organograma era:

Central de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (Cioani): Órgão central do sistema de pesquisa ufológica criado pela Força Aérea Brasileira (FAB).

Zona de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (Zioani): Área geográfica onde estavam contidos os Núcleos de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (Nioani). Existiam seis Zioanis.

• Núcleo de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (Nioani): Órgão executor de observações, investigações e coleta de materiais para pesquisas de incidentes ufológicos. Sua função podia ser executada por órgão militar, instituição pública ou por pessoa física. O Nioani era vinculado ao seu respectivo Zioani.

• Transporte de Pessoal e Material (Tioani): Meios de transporte fornecidos, em princípio, por órgãos oficiais, militares ou civis, por solicitação da Cioani, da Zioani ou do Nioani. Na falta de transporte oficial, podia ser utilizado o comercial. O meio de transporte tinha que ser adequado, eficiente e rápido. Existiam cinco aeronaves de pequeno porte para atender aos serviços normais do órgão.

• Laboratórios de Pesquisas e Análises (Lioani): Órgãos auxiliares para o cumprimento da missão de pesquisas e análises de materiais referentes a casos ufológicos de todos os tipos.

• Rede de Comunicação de Objetos Aéreos Não Identificados (Rioani): Uma teia envolvendo as redes já existentes de comunicação da Aeronáutica, do Exército e da Marinha, além de forças policiais e uma rede de radioamadores, visando a rápida transmissão das ocorrências.


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Sobre o Autor

Edison Boaventura Júnior

Bancário, teólogo e presidente do Grupo Ufológico de Guarujá (GUG), finalista do IV Concurso Nacional de Ufologia e convidado especial desta edição.

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