ARTIGO

Alexander Kazantsev: Uma conversa com o sábio

Por Pablo Villarrubia Mauso | Edição 223 | 01 de Junho de 2015


Créditos: MONTSERRATLLOR

Durante décadas a Ufologia contou com grandes pesquisadores. Em uma época em que não havia o conforto de se sentar à frente de um computador para se pesquisar algo, investigavam o fenômeno indo até ele. Quando isso não era possível, a troca de correspondência e o debate de teorias — que eram vistas com olhos muito mais generosos do que temos hoje — supriam o fato de não se poder chegar até o local dos acontecimentos. O tempo passou, o acesso à informação se espalhou pelo mundo e a sensação do imediatismo acabou jogando no esquecimento grandes nomes do passado.

Para as novas gerações, que sequer ouviram falar dos primeiros grandes ufólogos, é de fundamental importância que se resgate o nome e a obra dessas pessoas para se criar um mapa da evolução da pesquisa ufológica, contextualizando as ideias de acordo com as épocas em que foram formuladas. Esse conhecimento, além de tudo, tem a grande vantagem de trazer à tona dados inéditos sobre a pesquisa de casos famosos e de revelar casos desconhecidos.

Com isso em mente, o autor deste texto, com a colaboração de Montserrat Llor, viajou à Rússia em busca de Alexander Petrovich Kazantsev, na época com quase um século de vida. Em Moscou, procuraram seu rastro nas listas telefônicas, perguntaram a várias pessoas, mas nada de encontrá-lo — talvez o grande sábio russo, aquele que fora o pai das mais importantes e conhecidas teorias que defendem a visita de seres inteligentes extraterrestres no passado remoto, já tivesse deixado este mundo. No entanto, a Academia Russa de Letras confirmou que Kazantsev ainda estava vivo.

Uma lenda viva

Conseguimos agendar uma entrevista com o sábio, que descansava em sua dacha na periferia de Moscou, em Paradelkino, um povoado localizado a 45 km de distância da capital. Kazantsev residia no lugar há muitos anos, como outros tantos escritores a quem o governo russo cede uma casa enquanto vivem. O ancião, que se sustentava com dificuldade sobre seu cajado, se aproximou lentamente e nos cumprimentou. Era difícil acreditar: tinha diante de mim um homem quase mítico, aquele que praticamente criou a Ufoarqueologia, também chamada de Astroarqueologia, ou seja, o estudo da presença de seres alienígenas na Terra em um passado remoto. Erich von Däniken é apenas um dos muitos que vieram anos depois de Kazantsev.

Kazantsev demonstrou ter uma mente muito viva e conversamos durante mais de duas horas inesquecíveis. “Você fala alemão?”, perguntou ele. Diante de nossa negativa, continuou nos falando em russo: “Faz muito tempo que ninguém vem me visitar. A presença de vocês aqui me alegra muito. Trabalhei na Áustria quando terminou a guerra. Fui coronel do Exército Soviético. Depois trabalhei também em Tomsk, na Sibéria, no Instituto de Tecnologia. Fui engenheiro até que me dediquei a escrever contos e novelas de ficção científica”, contou, desviando seus pequenos olhos para cima, como que buscando memórias.

Alexander Kazantsev nasceu na Sibéria, em Armolinsk, em 1906. Realizou seus estudos e se graduou no Instituto Tecnológico de Tomsk, em 1930. Mais tarde, viajou para a região dos Montes Urais, onde trabalhou na fábrica metalúrgica Beloretsky. Sua grande imaginação, unida a uma habilidade técnica inata, chamaram a atenção das autoridades soviéticas que, entre os anos 30 e 40, lhe promoveram para um dos institutos de pesquisa científica de Moscou. Em 1941, quando a Rússia foi invadida, alistou-se no Exército e, uma vez ali, foi designado como engenheiro-chefe em complexo defensivo, onde trabalhou no desenvolvimento de novas armas. Pouco depois lhe concederam a Ordem da Estrela Vermelha e outras honras, assim como sua admissão no Partido Comunista, em 1954.

Tunguska

Possuidor de um talento polifacético que o fez destacar-se antes da guerra como um grande mestre do xadrez, o pesquisador também participou de um concurso nacional de cinema de ficção científica. Arenida, roteiro de sua autoria, ganhou um prêmio e posteriormente foi convertido por ele em uma novela de grande êxito na União Soviética, The Burning Island [A Ilha em Fogo, 1939]. Atualmente, o autor é considerado um dos maiores mestres da ficção científica mundial, ao lado de escritores como Isaac Asimov e Arthur C. Clarke.

Kazantsev sempre se sentiu fascinado pelas paisagens misteriosas da Rússia ártica, especialmente da tundra — ao estudá-la e observá-la, viu que aquela paisagem poderia ser parecida com a superfície do planeta Marte. Durante as viagens que fez no final das décadas de 40 e 50 a bordo do navio de pesquisa Georgii Sedov, o sábio navegou pelos mares gelados do norte da Sibéria, cujas vivências e imagens lhe inspiraram a escrever futuros contos e novelas de ficção científica. E, para somar mais encanto e mistério à Sibéria, um dos maiores enigmas cósmicos de todos os tempos aconteceu ali: a famosa explosão de Tunguska, em 1908, dois anos depois de seu nascimento.

crédito: NOVOSTI
Até hoje há controvérsia sobre o que teria explodido sobre Tunguska, na Sibéria, no começo do século passado. Kazantsev foi pioneiro ao sustentar que se tratou da explosão de um UFO
Até hoje há controvérsia sobre o que teria explodido sobre Tunguska, na Sibéria, no começo do século passado. Kazantsev foi pioneiro ao sustentar que se tratou da explosão de um UFO

“O mistério que cerca a explosão de Tunguska, ocorrido na manhã de 30 de junho de 1908, sempre me intrigou”, disse Kazantsev. “Foi a maior catástrofe do século XX. Nada pode ser comparado àquela explosão, nem sequer a do vulcão Krakatoa, no século XIX. Todas as árvores estavam queimadas, esmagadas em um raio de muitos quilômetros. Centenas de renas morreram e muitas outras adoeceram. Homens e mulheres nômades perderam seus lares. Comecei a pensar onde poderiam estar os fragmentos do suposto meteorito que havia caído e que deveriam encontrar-se espalhados. No entanto, não havia nada. O próprio Leonid Kulik, o primeiro cientista a visitar o local da explosão, em 1927, procurou o suposto meteorito afundado no pântano, mas jamais o encontrou”.

Havia passado mais de 19 anos desde aquela estranha explosão até a primeira expedição do geólogo russo Leonid Kulik — depois, houve mais de 40 expedições científicas. O que haveria provocado tal catástrofe sobre a população? Seria um meteorito, um asteroide, antimatéria, uma nave interplanetária? Surgiu todo tipo de teorias, mas a de Kazantsev foi, e é, única e histórica: “A explosão ocorreu no ar e arrasou tudo, não deixou nenhum rastro. É o maior mistério de todos os tempos. Apareceu mais de uma centena de hipóteses para explicar a explosão. Quando troquei meu trabalho no Exército pelo de escritor, já tinha duas novelas e escrevi um relato, em 1946, intitulado A Explosão, sobre a catástrofe de Tunguska, que se tornou muito popular no mundo inteiro”.

Nada antes conhecido

Depois da explosão foram ouvidos sons fortes como trovões, que retumbaram por muitos e muitos quilômetros pela Rússia. Em países tão distantes como a Inglaterra, à meia-noite, o céu estava tão claro que se podia ler um livro. Milhares e milhares de árvores foram arrasados naquela área e muitas pessoas foram atiradas para fora de suas casas pela onda expansiva — outras, inclusive a vários quilômetros, sentiram um calor tão intenso que chegaram até mesmo a ter suas roupas queimadas. Como se sabe, pouco depois da explosão, a água começou a brotar do solo, possivelmente em função de capas subterrâneas que foram afetadas pelo impacto. Kulik esteve lá procurando inutilmente um possível meteorito que estaria afundado no pântano, mas jamais o encontrou. E se fosse um meteorito, deveria ter deixado as águas putrefatas, mas não foi isso que aconteceu.

Em 20 de fevereiro de 1948, o Kazantsev expôs publicamente sua nova hipótese sobre a origem do meteorito de Tunguska em uma reunião da Sociedade de Astronomia da União Soviética, celebrada no planetário de Moscou. Naquela conferência histórica, Kazantsev ouviu de tudo: desde insultos até palavras de elogio e de exaltação. “Posso dizer a vocês que, em 1945, quando a bomba atômica explodiu a 600 m de altitude sobre Hiroshima, no Japão, me dei conta de que havia um paralelismo surpreendente com a explosão de Tunguska. Havia um grupo de árvores totalmente carbonizadas e desprovidas de galhos, mas que ainda estavam em pé depois da explosão, a apenas algumas centenas de metros do centro da detonação. Seu aspecto e disposição recordava aos que haviam ficado no Pântano do Sul, na Sibéria. A nuvem que se formou naquele dia depois da explosão de 1908 tinha a forma de um cogumelo gigante e uma chuva negra caiu depois da explosão, exatamente igual à do que aconteceu em Hiroshima. Alguns acadêmicos da época disseram que podia tratar-se de uma bomba atômica que explodiu a pouca altura”.

Um aspecto pouco conhecido das antigas hipóteses de Kazantsev dizia que uma nave marciana teria passado primeiro por Vênus para vir depois à Terra, para estudar o planeta devido às condições favoráveis de sua posição astronômica

O sábio russo não tinha mais dúvidas: o que havia acontecido em 1908, na Sibéria, havia sido uma explosão atômica. Mas quem, naquela época tão distante, poderia ter explodido uma bomba nuclear, quando todas as pesquisas sobre a força do átomo ainda estavam no início? Pela lógica da época, que ligava qualquer evento extraterrestre ao Planeta Vermelho, Kazantsev considerou que Marte deveria ser o ponto de origem de uma nave espacial movida à energia atômica que, em sua visita à Terra, sofreu uma avaria e se desintegrou dentro de nossa atmosfera, antes de tocar o solo. “O que também me levou a concluir que se tratava de uma nave espacial era o fato de que, a princípio, seguia a rota sul a norte, e de repente mudou de direção para o leste, onde caiu. Pensei, inocentemente que eram marcianos que vinham coletar água para seu planeta, onde este líquido é escasso. Hoje, claro, penso de outra forma. Mas isto, revelarei a vocês mais adiante...”

Uma nave marciana?

Como a comunidade científica interpretou suas teorias? Perguntamos, sem esquecer que nos devia uma resposta. Antes de responder, o sábio riu e disse: “A princípio os cientistas não se chatearam com minha teoria, mas depois de passados alguns anos, sim. Fizeram dezenas de expedições e muitos estudantes também foram com seus próprios meios para ver o que houve, o que conseguiam descobrir desse meteorito, pois se fosse isso mesmo, seria maior do que o que caiu no Arizona”. Famosos astrônomos publicaram uma carta em 1948 na revista Téjnika Molodezh defendendo o direito de propor a hipótese da explosão de um foguete interplanetário sobre a floresta de Tunguska. Entre os cientistas que assinaram a carta estavam A. Mijáilov, da Academia de Ciências da antiga União Soviética, o diretor do observatório de Pulkovo, professor P. Parenago, e uma plêiade de astrônomos.

crédito: JAPAN UFO SOCIETY
Estatueta Dogo, do Japão, que mostra uma figura humanoide com trajes que lembram aqueles dos astronautas
Estatueta Dogo, do Japão, que mostra uma figura humanoide com trajes que lembram aqueles dos astronautas

Um aspecto pouco conhecido das antigas hipóteses de Kazantsev dizia que a suposta nave marciana teria passado primeiro por Vênus para vir depois à Terra. Teriam ido até lá para estudar o planeta devido às condições favoráveis de sua posição astronômica. Kazantsev mencionou o achado feito cerca de cinco anos antes de um estranho artefato de metal, encontrado a mais de 1.000 km ao norte de Tunguska. “Foi descoberto por pescadores e o enviaram a Moscou. Era como um pedaço de cano. Dividiu-se o objeto em três partes, que foram distribuídas em três institutos acadêmicos. Tinham características muito estranhas e as proporções metálicas eram desconhecidas na Terra. Não sei se isto pode estar relacionado ou não com a explosão de 1908, mas não deixa de ser curioso. Só posso dizer que foi analisado por cientistas sérios, mas até agora não deram nenhuma resposta. Até mesmo Carl Sagan se interessou por essa história”.

UFOs de outras dimensões

Segundo Kazantsev, existem outros fenômenos inexplicados que, pelos menos até há alguns anos, ainda ocorriam em Tunguska. “Costumam aparecer, exatamente no epicentro da explosão, misteriosos relâmpagos esféricos em forma de bola e se forma uma espécie de enorme ponte de energia, como se fosse um gigantesco arco voltaico”. Perguntamos ao escritor e estudioso o que pensava sobre os UFOs. Ele respondeu que, “depois de minhas primeiras declarações sobre Tunguska, no final dos anos 40, começaram a surgir muitos UFOs por todo o mundo — voam à grande velocidade, manobram independentemente da massa que têm e em ângulos muito fechados. Não somos os únicos seres vivos inteligentes que habitamos o universo. Já houve mais de um milhão de avistamentos de discos voadores. H. G. Wells já havia adivinhado”.

Perguntamos, então, qual era sua opinião sobre a origem de tais objetos. Eis sua resposta: “No início achava que os UFOs vinham de Marte. Agora, creio que vêm de outras dimensões, inclusive também aquele que caiu em Tunguska. De todas as formas, Marte sempre me interessou e acho que sempre houve vida lá”. Palavras que demonstram que mesmo com seus 95 anos não era absolutamente dogmático e renegava ideias fixas. O pesquisador explicou que existem até 11 dimensões e três mundos paralelos. Não os vemos e nem os sentimos, mas nos relacionamos constantemente com eles. Disse que existe também uma conexão, uma linha que une os três mundos paralelos. Os Yeti ou Pé-Grande, por exemplo, procederiam de um destes mundos. Para Kazantsev, eles viriam buscar os alimentos que lhes falta lá. Somente assim se explicaria, segundo ele, como aparecem e desaparecem misteriosamente. “São grandes, de bom caráter e vivem em um mundo diferente do nosso, em tempos diferentes e se parecem com nossos antepassados”.

Um planeta fantasma

Perguntei se poderia nos explicar melhor essa teoria dos três mundos paralelos? “É um assunto difícil de explicar, pois entramos no campo da física quântica. O transcorrer do tempo nestes mundos é diferente — no terceiro mundo, por exemplo, é mais lento. Ali estão se interessando por pesquisas no campo atômico. Por isso se vê tantos discos voadores sobre as centrais atômicas. Têm medo de que possa acontecer alguma coisa e não tenho receio de dizer isso”. Quando os jornalistas norte-americanos Henry Gris e William Dick entrevistaram Kazantsev, em meados dos anos 70, o professor declarou que lhe parecia interessante a hipótese de Yevgeny Krinov, que foi chefe do Comitê Soviético sobre Meteoritos.

Dei bastante material ao escritor suíço Erich von Däniken para ele escrever seus primeiros livros. Conversamos em várias ocasiões sobre minhas pesquisas e ele também se interessou por Tunguska. Tivemos alguns desacordos, mas ele prosseguiu sua carreira

Resumidamente, a tese dizia que houve um planeta entre as órbitas de Marte e Júpiter, ao qual deu o nome de Phaeton, onde existiria vida semelhante à vida humana e que um dia explodiu em milhares de fragmentos. A explosão pode ter ocorrido há 12.000 anos e Kazantsev mostra que as mitologias antigas mencionavam aquele grande cataclismo. “Entre Marte e Júpiter estão os asteroides que formam um grande anel. Se houvesse explodido um planeta, como dizem os astrônomos, os fragmentos dos asteroides não poderiam estar na órbita em que estão agora. Não posso explicar isso como o resultado de uma guerra, de uma explosão atômica sobre um oceano que tenha existido em tal planeta”, disse o sábio. Krinov chegou à conclusão de que o planeta extinto devia ser maior do que Marte e que tinha vários oceanos e uma atmosfera. Seu núcleo seria de ferro, segundo os fragmentos de meteoritos procedentes do corpo que caíram, e continuam caindo na Terra. Sua superfície seria habitada por seres inteligentes que desenvolveram tecnologia muito antes da nossa.

“Quando falo sobre esta explosão, que acabou com um planeta inteiro, digo que é preciso proibir, aqui na Terra, o uso de armas nucleares. Escrevi um conto muito famoso no qual discorro sobre isso. Chama-se Fayeti e ficaria muito feliz se fosse publicado no exterior — e aproveito para mandar uma mensagem para o Brasil, através desta importante revista, para que os hispanos também protestem contra as armas nucleares”. E ao ser perguntado sobre quanto sabem os militares russos sobre os UFOs, respondeu “nada”, e em seguida soltou uma estrondosa gargalhada.

Japão, Palenque e outros mistérios


Uma das perguntas que tínhamos para fazer ao sábio russo estava relacionada às famosas estatuetas Dogo, do Japão, objetos arqueológicos que mostram figuras humanoides com trajes e capacetes que lembram aqueles dos astronautas. As peças pertencem ao período em que o país era habitado pelos povos aínos [Uma raça branca que ainda vive ao norte do Japão], da era paleolítica. “Tenho um carinho especial pelas estátuas Dogo, as que parecem pessoas com escafandros. Escrevi uma monografia sobre elas e quando a publicaram no Japão recebi uma caixa com cinco exemplares de um arqueólogo de lá. Mais tarde, enviaram-me outras quatro. Mandei algumas fotos para a NASA e não para a Cidade das Estrelas, em Moscou, pois pensei que não iam me levar a sério. A NASA me respondeu confirmando que a roupa da peça arqueológica era um escafandro de astronauta”, disse Kazantsev.

Em 1962, o pesquisador observou que a pedra que cobre o túmulo do rei Pakal, na cidade maia de Palenque, no México, parecia mostrar um foguete espacial pilotado por um sacerdote astronauta — a ideia foi combatida por muitos arqueólogos, mas já faz parte da história da Ufoarqueologia. Däniken contatou Kazantsev há muitos anos. A respeito disso, ele revelou: “Dei bastante material a Däniken para escrever seus primeiros livros. Conversamos em várias ocasiões sobre minhas pesquisas e ele também se interessou por Tunguska. Tivemos alguns desacordos, mas há alguns anos encontrei-o em uma reunião e mostrou-se bastante cordial”.

Outra questão arqueológica tratada por Kazantsev estava relacionada aos dropa, um misterioso povo que habitou a fronteira chino-tibetana de Bayan Khara Ula. Em 1938, um arqueólogo chinês encontrou restos ósseos de estranhos humanoides de baixa estatura, com crânios de tamanhos desproporcionais em relação ao corpo — também foram achados 716 misteriosos discos de pedra, que mostravam algumas coisas gravadas. Foram interpretados como elementos de uma cultura extraterrestre que teria chegado à Terra há milhares de anos. “Acreditava que poderia ser verdade, mas saíram à luz estudos que revelam que era tudo uma farsa”, desabafou Kazantsev, um pouco chateado. O pesquisador disse o mesmo a respeito das pinturas descobertas pelo arqueólogo Guergui Chatski, na região das covas de Ferghana, no Uzbequistão. Nunca foram vistas fotos de uma das pinturas, apenas um desenho que mostrava um suposto extraterrestre segurando um disco com a mão e, ao fundo, um disco voador sobre as montanhas.

Visão de futuro

Em junho de 1947, Kazantsev escreveu um artigo intitulado Observação de Sinais de Rádio a Partir de um Satélite Artificial e sua Utilidade Científica, para o Jornal Rádio, do Ministério Soviético de Comunicações — o artigo antecipava o lançamento de um satélite soviético e revelava a frequência de rádio na qual transmitiria. Quatro meses mais tarde, foi lançado o Sputnik 1. Sua visão de futuro lhe proporcionou muitos amigos entre os cientistas de maior reputação na época. Assim como fizera Arthur Clarke, Kazantsev havia deduzido algumas das aplicações tecnológicas dos satélites artificiais, algo que era pouco mais do que uma quimera nos anos 50.

Terminada a entrevista e já de volta a Moscou, fui à Academia de Ciências da Rússia, um grande e moderno edifício parecido com um bunker, dotado de antenas parabólicas e cercado de medidas de segurança. A visita tinha como objetivo consultar os famosos relatórios de Leonid Kulik sobre o evento de Tunguska. Dentro do edifício fui recebido por um militar. Depois de uma longa espera, veio a informação de que só se poderia entrar na biblioteca com uma permissão especial ou com o convite de algum dos funcionários da Academia. A pesquisa ficou, então, para outra ocasião. Talvez, nas velhas e amareladas páginas dos relatórios de Kulik esteja a resposta para, como disse Kazantsev, um dos maiores enigmas de todos os tempos.

Um mensageiro do cosmos

Alexander Kazantsev, o grande autor russo de ficção científica, escreveu um conto que foi traduzido em 1972 como O Mensageiro do Cosmos. É um tipo de Arquivo-X em versão literária e engloba 10 anos de investigações sobre Tunguska. Kazantsev, como se sabe, foi o maior autor de ficção da União Soviética, reconhecido mundialmente por suas obras.

A narrativa de O Mensageiro do Cosmos começa na cabine de um barco que viajava pelos mares árticos russos. Os vários cientistas a bordo estudavam o meio ambiente para saber se as condições daquele local seriam as mesmas que oferece o planeta Marte e, por dedução, criar uma hipótese sobre a existência de vida no planeta Marte — um dos cientistas, Eugeni Krimov, tinha a convicção de que os marcianos haviam chegado à Terra e que o objeto que explodira em Tunguska era uma nave espacial que se queimou na alta atmosfera, e que funcionava com combustível atômico.

Astrobotânica

Outro personagem da história, a pesquisadora Natasha Krushev, se orgulhava do fato de a Academia de Ciências de Kazajstán possuir uma seção de astrobotânica, uma nova ciência soviética para procurar vida em outros planetas. Muitos dos dados do conto são verdadeiros. Efetivamente, a astrobotânica foi criada pelo astrônomo Gravil Tijov, o primeiro a obter fotografias de Marte por meio de filtros de cor, para perceber as mudanças climáticas na superfície do planeta de acordo com as estações do ano. A partir de tais observações, Tijov acreditava que a superfície de Marte estaria coberta de vegetação, com plantas capazes de absorver determinadas frequências da banda espectral eletromagnética.

Segundo sua teoria, usando as fotografias feitas com raios infravermelhos, as manchas pertenciam a plantas semelhantes aos musgos, que absorveriam como esponjas os raios do Sol. Nos vastos desertos de Marte Tijov descobriu zonas de vegetação com qualidades de refração muito parecidas com as das plantas que crescem nos desertos da Ásia Central, mas com maior capacidade de aproveitamento da energia calórica.

Manchas esverdeadas em Marte

Embora as naves americanas enviadas ao Planeta Vermelho pareçam desmentir essa possibilidade, nem todos estão de acordo com a Agência Espacial Norte-Americana (NASA). Em uma entrevista realizada em outubro de 1989 com o astrônomo de origem corsa Jean Nicolini, este revelou que nem a NASA e nem outros astrônomos haviam dado uma explicação convincente para as manchas esverdeadas que podem ser vistas pelo telescópio. “Não são por oxidação das areias do deserto, como disseram. Acredito que realmente há vegetação muito resistente em Marte”, afirmou o autor do livro Marte: O Planeta do
Mistério [Edart,1962].

O conto também reflete uma idealização do regime comunista soviético em Marte. “Wells e outros escritores do Ocidente não veem nada além de invasões e guerras quando imaginam a comunicação com outros mundos. A meu ver, sabendo o que acontece com a água em Marte e vendo as grandiosas obras de irrigação dos marcianos, creio que devemos concluir que seu regime social lhes permite aplicar uma economia planificada à escala do planeta”, dizia Krimov no conto.

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Sobre o Autor

Pablo Villarrubia Mauso

Jornalista, mestre em jornalismo arqueológico, ufólogo e consultor da Revista UFO.

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